Gritos Mortais

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Nota: 7.75

Leigh Whannel e James Wan despontaram como as maiores promesses do cinema de terror e suspense ao produzirem, juntos, em 2004 , o espetacular “Jogos Mortais”. Durando mais dois filmes da série, a dupla sempre mostrou ser extremamente competente, com roteiros inteligentíssimos e sem furos. Apesar de não estarem tão inspirados em sua primeira empreitada longe da maravilhosa franquia, eles conseguem fazer de “Gritos Mortais” (Dead Silence, 2007) um filme bastante competente e bem conduzido.

A história com certeza vai fazer muitos se lembrarem da interminável saga do brinquedo assassino Chucky. Para dar início à trama, é apresentada uma interessante e conveniente explicação da origem da palavra “ventríloquo” e as lendas acerca dela, o que torna a história mais inteligível. Apresentações feitas, somos conduzidos à cena em que Jamie e Ella Ashen, muito bem casados e morando longe da cidade onde nasceram, Raven’s Fair, recebem um estranho boneco ventríloquo, que lhes faz lembrar da ventriloqusita Mary Shaw, que foi assassinada na cidade por ser suspeita de seqüestrar e matar crianças. Como já era de se esperar, após algo estranho acontecer, Jamie sai, deixando a esposa sozinha em casa. E, para sua surpresa (não para a nossa, é claro), encontra a esposa morta em sua cama, com a língua arrancada. E, claro, Jamie é o suspeito número um. Para tentar provar sua inocência, Jamie volta a sua cidade natal mesmo proibido por ordens judiciais, disposto a enfrentar a lenda e acabar de vez com o fantasma de Mary Shaw.

O grande trunfo de “Gritos Mortais” é, sem dúvida, o visual. O que vemos na tela é um verdadeiro colírio para nossos olhos. Tudo funciona: a fotografia é arrepiante, os cenários são extremamente luxuosos e o clima de antiquado. As mortes são estilosas, a maquiagem é muito bem feita e os efeitos especiais são ótimos. Frente ao que nossos olhos vêem, a o roteiro poderia ser um pouco mais generoso com nosso intelecto. Não estou falando que ele não é bom e inteligente, mas, em se tratando da dupla Wan/Whannel, esperava-se muito mais. A história, apesar de ter seus pontos muitíssimo inspirados, não é nem um pouco inovadora. Só o fato de você, ao assistir a um filme, se lembrar imediatamente de outro, já mostra que a idéia já foi utilizada, e bem explorada. Todo e qualquer filme de terror que envolva bonecos vai nos remontar a “Brinquedo Assassino”, que marcou os fãs do horror nos anos 90. Mas essa não é a semelhança maior. A quantidade de bonecos, 101 ao todo, é desnecessária, e faz com que nós clamemos pela volta do assustador “Mestre dos Brinquedos”, com seus bonecos diabólicos e diferentes uns dos outros (aqui, são 101 bonecos praticamente iguais, e que não fazem absolutamente nada). Apesar da relativa passividade dos bonecos, o principal deles, Billy (grande parceiro de Mary Shaw em seus shows), dá bons sustos no espectador. Mas a principal cena do filme, tirando o final (que contarei mais abaixo), é quando uma das apresentações da dupla é mostrada em um flashback. É a partir dela que passamos a ter certeza de que as histórias de Mary Shaw são, sim, verdadeiras, e que seu boneco favorito não é exatamente apenas um boneco.

Como já foi falado acima, a parte visual é a grande responsável pelo clima obscuro e tenso do filme. Mas se ela não fosse ajudada por uma trilha sonora tão eficiente, talvez tivesse sido um grande desperdício. As músicas, muitas vezes, criam até mais tensão que os personagens, sendo uma parte fundamental do longa. As atuações não têm um grande destaque, o desconhecido elenco apresenta uma boa uniformidade. O protagonista Ryan Kwanten consegue interpretar muito bem os conflitos de Jamie, dividido entre cumprir as ordens judiciais e desvendar o mistério da morte de suas esposa. O nome mais conhecido é o de Donnie Wahlberg, que atuou na franquia “Jogos Mortais”. Assim como na franquia, ele vive aqui um policial com um papel muito mais direcionado a ser engraçado do que durão. Apesar de ser ótimo ator, Donnie não é usado na medida correta, o que pode ter feito falta no final das contas.

“Gritos Mortais”, a exemplo de “Jogos Mortais”, apresenta um final de deixar qualquer espectador boquiaberto (claro, não na mesma magnitude com que “Jogos Mortais” o faz), e esse acaba sendo o ponto mais alto da trama. Apesar dos clichês e pequenas confusões do roteiro, esta é uma ótima opção de entretenimento dos fãs de horror. Só não se esqueça de uma coisa: “Nunca, jamais, grite!”


Por Danilo Henrique

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A Volta do Todo Poderoso

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Nota: 3.5

A nova moda em Holywood é investir milhões em péssimos filmes de comédia. Se já fiquei estarrecido com os US$35 milhões gastos com “Super-Herói: O Filme”, imaginem como eu fiquei ao saber que este terrível “A Volta do Todo Poderoso” (Evan Almighty, 2007) foi orçado em astronômicos US$175 milhões, sendo o filme de comédia mais caro da história? O péssimo resultado pode ser confirmado com a indicação ao nada honroso prêmio Framboesa de Ouro de Pior Prelúdio ou Continuação. E este longa é extremamente inferior ao aceitável primeiro filme, sendo muito pior em absolutamente tudo.

A história é tão simples que pode chegar a ser banal. Evan Baxter (Steve Carrel), após ter sido eleito para o congresso, muda-se para Washington. Preocupado em cumprir suas promessas de campanha, Baxter reza para que Deus o ajude a corresponder com a maior delas: mudar o mundo. Passado isso, ele começa a receber encomendas estrahas, como ferramentas obsoletas e grandes quantidades de madeira. Simultaneamente, ele passa a perceber que um número começa a persegui-lo, o 614, e recebe indicações de que ele pode representar uma passagem da Bíblia, o Gênesis 6:14. Então, ele recebe uma visita do próprio Deus (Morgan Freeman), que confirma suas suspeitas e lhe dá a missão de fazer exatamente o que está contido na passagem referida: construir uma arca. E a história se resume a apenas isso, na construção da tal arca.

O filme conta com alguns elementos cômicos, mas nada que possa justificar o investimento que foi feito. Tanto que a melhor personagem em termos cômicos, Rita (Wanda Sykes) é completamente desperdiçada, aparecendo apenas esporadicamente. As outras boas cenas ficam por conta da utilização dos animais. As perseguições ao deputado, apesar de serem maçantes depois de algum tempo, são até legais no começo. Algumas cenas da construção da arca também são engraçadas, mas nada que possa divertir muito. Se o longa consegue arrancar alguns risos de nós, ele tem uma capacidade muito maior de irritar. As constantes assemelhações a Noé sofridas por Evan são completamente desnecessárias. Nós todos sabemos que quem construiu a arca foi Noé, o roteiro não precisava tentar fazer o personagem sem graça interpretado por Steve Carrel ser um pouco engraçado, pois isso apenas faz com que ele beire o ridículo. As visões que Baxter tem de Deus também são completamente chatas, já que elas ocorrem a todo o tempo, e o imbecil do personagem se assusta em praticamente todas elas. E a presença do número 614, então… Ele aparece umas 10 vezes, sendo que poderia ter sido visualizado umas 5 (no máximo) e ser explicado. Mas o desespero dos produtores de alongar ao máximo o filme é tão grande que eles acabam explorando demasiadamente algo quase inexplorável.

O elenco de “A Volta do Todo Poderoso” é bom, mas muito mal utilizado. Morgan Freeman e Steve Carrel mostraram não serem bons no quesito escolher roteiro. Seus personagens carregam muito pouca comicidade e carisma. Sendo os dois principais personagens da “trama”, deveriam ter sido pelo menos um pouco melhor construídos. Em contrapartida, Wanda Sykes dá um show. Com sua irreverência e jeito desleixado, ela tem grande facilidade em provocar no espectador verdadeiros “ataques de riso”, apesar de suas falas, assim como a maioria dos diálogos do roteiro, não serem bem feitas. Os garotos que interpretam os filhos de Evan (Johnny Simons, Jimmy Bennet e Graham Phillips) são bastante seguros, apesar de também não terem o destaque merecido na história. O restante do elenco tem atuação simplesmente burocrática, sem nenhum destaque. O filme ainda conta com uma trilha sonora aceitável e os efeitos especiais, apesar de extremamente caros, não se mostram tão bons assim.

“A Volta do Todo Poderoso” ingressa no grupo das continuações que não fariam falta nenhuma se não tivessem sido feitas. Eu não vou falar para você não assistir, pois nunca vou lhe negar o direito de ter suas próprias conclusões sobre um filme. Mas, por favor, se não gostar, não diga que foi por falta de aviso!


Por Danilo Henrique

Lições de Vida

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Nota: 10

Quando comédias dramáticas são lançadas, sempre as vejo com desconfiança, pois, em 90% dos casos, os gêneros “brigam” entre si, deixando ou a comédia ou o drama em maior evidência. É o que acontece nos bons “A Banda” e “Estômago”, onde prevalece a abordagem mais dramática do enredo. Um dos grandes trunfos deste “Lições de Vida” (Driving Lessons, 2006) é a homogeneidade de seu roteiro, conseguindo colocar drama e comédia num mesmo plano. Os gêneros andam de mãos dadas, sem entrar em conflito, o que dá origem a um dos filmes mais notórios e perfeitos que já vi.

Ben Marshall (Rupert Grint) é um garoto londrino que, bastante tímido, tem uma família bastante religiosa e ultraconservadora. Apesar de seu pai ser padre, é a mãe, Laura Marshall (Laura Linney), quem o domina completamente, escondendo-lhe praticamente tudo da vida que considera “errada”. Nesse contexto, Laura cede abrigo a um homem, o Sr. Fincham (Jim Norton), segundo ela própria pela vontade de Deus, fazendo com que Ben seja obrigado a trabalhar, para ajudar a sustentar mais uma pessoa na casa. E esta é a chance de Ben conhecer o mundo que lhe foi ocultado durante tantos anos, pois ele vai trabalhar cuidando de Evie Walton (Julie Walters), uma excêntrica e veterana atriz de teatro e cinema.

Junto com a senhora, Ben passa a conhecer uma nova vida, aprendendo diariamente inúmeras lições com a “dama do teatro”. Aprende a desenvolver seu talento para a poesia, a dirigir (coisa que a mãe manipuladora insistia em ensinar, mas o resultado pode ser visto logo na engraçadíssima primeira cena do filme), a aproveitar os momentos bons da vida, sem medo do que posso acarretar. Mas Ben aprende, sobretudo, o valor da verdadeira amizade. Mesmo proibido, Ben acampa (com uma “forcinha” hilária da veterana atriz) e viaja com Evie para Edimburgo, onde acontecerá um recital do qual Evie participará. A presença de Ben faz-se tão necessária na vida da atriz que ela afirma que só conseguirá lembrar os poemas de Shakespeare que ele tanto ensaiaram com a presença dele. E esta é uma das cenas mais tristes do filme, que mostra o quão importante pode ser uma pessoa na vida de outra.

O filme, como já foi falado, conta com uma presença homogênea de dramaticidade e comicidade. O diretor e roteirista Jeremy Brock consegue levar-nos a boas gargalhadas, como na cena da “simulação de acampamento” de Ben e Evie, e a profundas lágrimas, como quando Evie “invade” a peça dirigida pela mãe de Ben, para salvar o garoto das garras da opressora. E tudo é feito com enorme simplicidade, sem a menor pretensão, o que torna a história bastante verossímil e leve. O filme em momento algum acha que é mais do que realmente é, o que lhe dá a cara de verdade. Jeremy tem total controle sobre seus atores, o que lhe dá, também, controle total sobre a trama. O drama é totalmente sem sentimentalismos extremos e melosos, completamente na medida certa; a comédia é leve e agradável, sem apelar pra qualquer tipo de conteúdo pesado. A trama ainda é imensamente ajudada pela sempre efetiva e correta trilha sonora, embalando sem qualquer exagero todos os momentos que se passam na tela.

O elenco é, sem dúvida, um ponto fortíssimo de “Lições de Vida”. O entrosamento entre Rupert Grint e Julie Walters é sensacional, ajudado pelo fato de este ser o quarto filme que fazem juntos (os outros foram “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, “Harry Potter e a Câmara Secreta” e “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”). Este entrosamento, aliado ao imenso carisma, faz o espectador ficar facilmente apaixonado pela dupla, torcendo para que a amizade deles sobreviva mesmo com a resistência da mãe. Individualmente, os dois também têm grande destaque. Rupert Grint dá um verdadeiro show de atuação como Ben, um dos personagens mais bem construídos que já vi em uma comédia dramática. Rupert prova que o diretor Jeremy Brock estava certo ao afirmar que sua escolha para protagonista deveu-se ao fato de o jovem ruivo ser muito pouco aproveitado na série Harry Potter (convenhamos, Rupert é muito melhor ator que seu companheiro Daniel Radcliffe, que protagoniza a série). As mudanças constantes de Ben em virtude do conhecimento da nova vida só são tão notáveis porque Rupert é o responsável por esta tarefa, muito complicada, por sinal. Julie Walters dá a sua Evie o tom certo de excentricidade, que passa por crises existenciais, atitides loucas (e engraçadíssimas) e amor ao seu verdadeiro amigo, Ben.

“Lições de Vida”, como já falei, é o melhor filme de comédia dramática que já vi. Ao longo de seus 95 minutos, somos conduzidos a inúmeros sentimentos, indo da pena de Ben à raiva de sua mãe conservadora. Mas isso tudo é feito de forma homogênea, sem a mínima oscilação negativa, dando ao filme um caráter linear positivo (melhora um pouco a cada minuto). O ritmo não cai em momento algum, e conduz a trama para um terceiro ato surpreendente e emocionante, capaz de arrancar ao mesmo tempo risos e lágrimas. “Lições de Vida”, com sua simplicidade, é uma verdadeira aula de cinema, uma aula de como se deve misturar corretamente dois estilos tão diferentes. Simplesmente perfeito!


Por Danilo Henrique