Notas Sobre um Escândalo

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Nota: 9.5

“Notas Sobre um Escândalo” (Notes on a Scandal, 2006) é um filme que tem como cenário principal uma escola no subúrbio de Londres, cujos alunos, desprivilegiados e marginalizados, não dão muita esperança aos professores. A maior prova dessa descrença é a chefe do departamento de história, Barbara Covett (Judi Dench), que não acredita na importância nem de um relatório preparado à diretoria. O longa é visto quase integralmente por meio de seus olhos julgadores e amargurados, que, por um lado, gostam do fato de serem temidos por todos, mas, por outro, têm pavor da solidão eterna de uma velhice sem familiares ou amigos verdadeiros.

O marasmo da escola é quebrado pela chegada de Sheba Hart (Cate Blanchett), professora de arte que chama atenção pela juventude, pela beleza e pelas tentativas frustradas de se encaixar em um lugar que claramente não lhe pertence. Os professores a invejam, e alguns a desejam; os alunos a desrespeitam, e alguns também a desejam. E a jovem professora não tem qualquer habilidade para lidar com isso. O fato é que a vida de Sheba, que, durante muito tempo, foi integralmente dedicada ao seu filho que tem Síndrome de Down, muda completamente quando se aproxima de Barbara, única professora que lhe dá abertura para iniciar uma amizade. Barbara, feliz por não ter mais uma vida fria, solitária e vazia, gosta da companhia e da juventude de Sheba, ao mesmo tempo em que a julga por praticamente tudo que faz, em que critica suas roupas e sua família. Sheba usa à exaustão a grande habilidade de Barbara de fazer com que pessoas lhe confidenciem segredos, até os mais constrangedores. Quando Barbara descobre o maior segredo de Sheba, o envolvimento amoroso e sexual com um de seus estudantes, percebe uma grande oportunidade para ter uma companheira para toda a vida.

Se, antes, a vida de Barbara era resumida à mão de ferro com que conduzia suas aulas e pela melancolia de sua vida pessoal, e a de Sheba era dominada por um casamento fracassado, sua aproximação traz consigo um verdadeiro tormento. A professora de história, ciumenta e possessiva, usa a chantagem para manter Sheba perto de si, que passa a viver constantemente sob pressão. O diretor Richard Eyre, um dos principais nomes do teatro britânico, é fantástico ao mostrar o sofrimento e a enorme tensão entre as duas. Com a câmera muitas vezes focando nos rostos e sua habilidade notável em criar forte inquietação com cenários claustrofóbicos, Eyre nos entrega uma direção admirável, e conduz um dos dramas mais angustiantes dos últimos tempos. Este é, sem dúvida, o melhor trabalho do diretor no cinema até hoje, e considero que uma indicação ao Oscar por sua direção seria merecida.

O roteiro adaptado por Patrick Marber é uma obra-prima. Os rumos que a história toma são muito mais importantes que o fato de Sheba ter se envolvido com seu aluno. A habilidade de focar na relação das duas mulheres e colocar o envolvimento de professora e aluno como um pano de fundo é fantástica, e considero um dos maiores acertos de Marber; saber o spoiler de qual é o segredo de Sheba não atrapalha, de maneira alguma, a experiência de assistir a “Notas Sobre um Escândalo”. Os diálogos são belíssimos, e temos algumas frases memoráveis ditas principalmente pela personagem de Judi Dench, como sua definição de como são os estudantes de sua escola e seus devaneios sobre a solidão eterna. Barbara, que, no início do longa, afirma que é ótima para guardar segredos, compartilha os seus conosco, e esse diálogo com o espectador é extremamente bem construído e viabilizado pelo roteiro. Não costumo gostar de personagens lendo cartas ou falando sozinhos, porém aqui temos uma aula de Patrick Marber de como fazer isso não ficar estranho ou brega. Vemos, neste filme, uma profunda discussão sobre poder e medo, em um longa com menos de 1 hora e meia de duração, o que é um feito impressionante. A indicação ao Oscar foi merecida, e acredito que talvez merecesse uma sorte maior na premiação, quando foi derrotado por William Monahan e seu “Os Infiltrados”. A trilha sonora, também indicada ao Oscar, e superada por “Babel”, é linda, tensa, uma das maiores responsáveis pela inquietude de quem assiste ao filme.

A escolha do elenco foi apenas mais um grande acerto deste filme praticamente sem falhas. Judi Dench e Cate Blanchett têm atuações impressionantes, quase pode-se notar as faíscas saindo quando elas dividem a mesma tela em seus momentos de conflito, e suas personagens são incrivelmente verossímeis. Dench nos mostra claramente o efeitos de uma relação doentia; todas as suas expressões se encaixam perfeitamente com os sentimentos e emoções de sua personagem, simplesmente não parece que temos, ali, uma atriz, e, sim, a própria Barbara Covett. A composição da personagem por meio da maquiagem e do cabelo contribuíram imensamente para que Dench estivesse espetacular em cena, e fosse indicada ao Oscar de melhor atriz. O mesmo pode-se dizer de Blanchett; a composição física da personagem foi menos complexa, mas sua atuação é no mesmo nível de Judi Dench, sobretudo em seus momentos mais difíceis, como quando deixa a casa da professora de história e enfrenta os repórteres. Cate Blanchett teve uma merecidíssima indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por uma das melhores atuações de sua carreira. O jovem Andrew Simpson e o veterano Bill Nighy, respectivamente amante e marido de Sheba Hart, também saem-se muito bem em seus papéis menores, mas não sem importância. O desejo declarado do garoto pela professora e a fúria do marido têm grande relevância para o desenvolvimento da história, e, até mesmo, para o desempenho de Dench e Blanchett, e os dois desempenham muito bem essas funções.

“Notas Sobre um Escândalo” pode ser considerado um filme completo, com grandes acertos em todos os aspectos. Diverte, emociona, inquieta, faz refletir. Em momento algum é moralista ou vai pelo caminho mais fácil. É, sem dúvida, um dos melhores filmes de 2006, e deve entrar, o quanto antes, na sua lista de filmes que devem ser vistos.

Por Danilo Martins

Inferno

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Nota: 5.0

Você que já assistiu a “O Código Da Vinci” (2005) e a “Anjos e Demônios” (2009), sabe que a fórmula dos filmes adaptados da literatura de Dan Brown para o cinema é sempre a mesma. Robert Langdon (Tom Hanks), um famoso simbologista e professor de Harvard, sempre é convocado para resolver algum enigma relacionado à sua área de estudo, e acaba se envolvendo em um mundo de vários mistérios e conspirações. Acompanhado de um par feminino por onde passa, Langdon usa vastamente sua capacidade intelectual e seus conhecimentos de arte, história e símbolos, e consegue nos levar a boas soluções. As cidades históricas são um belo pano de fundo, com suas criptas, igrejas e grandes monumentos. No entanto, há um problema na fórmula de Dan Brown: ela não é inesgotável.

Em “Inferno” (idem, 2016), temos todos esses elementos. Langdon acorda em um hospital de Florença, na Itália, totalmente desnorteado, sem saber onde está. De posse de um objeto que interessa fortemente a organizações poderosas, o professor é perseguido desde dentro do quarto do hospital até o início do terceiro ato, em uma caçada que não se interrompe e não permite que o debilitado simbologista respire. Em sua fuga, Langdon desvenda mistérios da obra de Dante Alighieri, Inferno, buscando respostas para sua falta de memória e para compreender o motivo de estar sendo perseguido. A participação de Langdon na trama é muito menos interessante que a do genial geneticista Bertrand Zobrist (Ben Foster). “Inferno” é aberto com um arrebatador discurso seu a respeito dos malefícios do crescimento desordenado da população. Levando à risca a Teoria Malthusiana, Zobrist contou com a ajuda de uma misteriosa corporação para desenvolver a solução que salvaria a humanidade de sua extinção.

O maior problema de “Inferno” é explorar de maneira risível o mais interessante dos componentes da fórmula de Dan Brown: a mente de Langdon. É interessante a colocação do professor em uma situação de vulnerabilidade intelectual no início do filme – Langdon não consegue se lembrar a palavra para pedir um café -, mas são muito poucos os enigmas desvendados pelo personagem. A análise do “Mapa do Inferno” de Botticelli é rasa e apressada, a associação com o mural de Vasari é artificial e desconexa do “very sorry” dito por Langdon enquanto estava inconsciente no hospital, a importância da expressão “cerca trova” (“busca e encontrarás”, em italiano) é totalmente discutível. Langdon e sua parceira, Dra. Sienna Brooks (Felicity Jones), mostram que são bons em fugir de inimigos bem armados e equipados, mas são personagens substituíveis por quaisquer outros. Em determinada cena, é dito que sem o professor Langdon, ninguém pode encontrar a ameaça criada por Zobrist, mas é difícil acreditar nisso. É uma pena, uma vez que Langdon sempre contou com parceiras que, em conjunto com ele, davam um show intelectual. A Sienna do livro é uma mente brilhante; a do filme, só uma médica astuta.

A direção de Ron Howard é extremamente apressada e, conforme já mencionado, apresenta fugas intermináveis. Não temos tempo para pensar, nem os personagens, por isso a resolução de enigmas é rara e insatisfatória. Os planos abertos, bem explorados nos outros dois filmes, aqui são quase esquecidos – digo quase porque a visão da cisterna de Istambul é deslumbrante. Apesar disso, contamos com boas cenas, como a representação do inferno nas visões de Langdon, e a câmera na mão passa bem o senso de urgência da dupla protagonista. O período de desnorteamento de Langdon é muito bem executado por Howard, tanto com movimentos de câmera quanto de recursos auditivos. O roteiro, muito fraco apesar do bom livro de Dan Brown, apresenta soluções fáceis e simplórias. A descoberta dos planos de Zobrist por Langdon e Sienna dá-se num estalo, como se eles mesmos tivessem tido uma ideia repentina, totalmente sem fundamentação. O mesmo acontece quando a dupla encontra uma máscara que ajuda a resolver o enigma; Sienna não precisa refletir mais que dois segundos para concluir que ela estava coberta de gesso-cré, e que deveria ser passado sobre ela um pano com água. A preguiça de focar no mistério e o consequente excesso de “ação” torna o filme uma experiência cansativa. As reviravoltas e surpresas são interessantes, porém tudo é feito tão às pressas e sem ambientação que nem conseguimos digerir – afinal, tempo para apreender informações é algo que não dispomos ao assistir ao longa. Fica a impressão de que os imprevistos são todos gratuitos, feitos para impressionar, com pouco peso narrativo.

“Inferno” conta com um desenvolvimento de personagens fraco, e com atuações burocráticas, até mesmo de Tom Hanks e da ótima Felicity Jones. Não há verossimilhança, os diálogos são, muitas vezes, bobos, o que prejudicaria o trabalho do melhor dos atores. Há uma queda de qualidade absurda em relação aos dois filmes antecessores, que tiveram suas boas premissas executadas de maneira muito mais consistente e interessante. Não que “Inferno” seja um filme ruim, mas nunca alcança, nem de longe, todo seu potencial. O livro que originou o filme teve sua história modificada em alguns pontos-chave, que atrapalham a experiência como um todo e vão desagradar a quem já o leu. 

Mesmo com bons momentos na direção e de aspectos visuais, “Inferno” é só mais um filme que renderá boa bilheteria, mas que será esquecido em pouco tempo. Quanto ao ótimo Dan Brown, acredito que seja necessário explorar horizontes diferentes do professor Langdon, ou, ao menos, não autorizar sua adaptação para o cinema. Nos livros sua fórmula ainda funciona, mas nas telas já deu o que tinha que dar.

Por Danilo Martins


12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição

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Nota: 8.0

O sucesso da cinessérie The Purge ao redor do mundo, principalmente nos Estados Unidos, é evidente desde o primeiro filme, lançado em 2013. Com o orçamento de “Uma Noite de Crime” (The Purge) na ordem de US$ 3 milhões originando um faturamento de bilheteria de quase US$ 90 milhões, era evidente uma continuação. “Uma Noite de Crime – Anarquia” (The Purge – Anarchy, 2014) mostrou-se um filme infinitamente mais competente que seu antecessor em todos os aspectos, o que não pode ser justificado somente por questões orçamentárias – foram gastos US$ 9 milhões para a realização da continuação -, mas pelo conjunto da obra. Não é de surpreender que uma nova sequência fosse feita, e “12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição” (The Purge – Election Year, 2016), chegado ao Brasil nesta quinta-feira (06/10), não decepcionou.

Este terceiro filme ocorre dois anos após o segundo. Como de hábito, há o evento anual chamado “the purge”, ou “a noite da purga”: uma noite em que, por 12 horas, qualquer crime é permitido, incluindo assassinato. É ano de eleição nos Estados Unidos, e a noite da purga é o principal motivo da grande polarização entre os dois candidatos: o religioso Edwige Owens (Kyle Secor) e a Senadora Charlie Roan (Elizabeth Mitchell). Enquanto Owens acredita que a noite da purga é essencial para a purificação da alma dos americanos, que extravasam seus maus sentimentos durante essa noite onde tudo é permitido, a Senadora Roan prega que a selvageria é dispensável e promete acabar com o evento. Em seu discurso, Roan deixa claro que os interesses para a criação da noite da purga são unicamente destinados ao extermínio dos mais pobres, que não têm como se proteger, e cuja morte seria um alívio às contas e às políticas sociais do país. No entanto, a Senadora precisa sobreviver aos ataques de seus opositores nessa noite para colocar em prática seus ideais, e deverá contar fielmente com seu segurança particular, Leo Barnes (Frank Grillo), o sargento que buscava vingança no segundo filme.

O mérito de “12 Horas para Sobreviver” está, principalmente, no fato de conseguir explorar nuances inéditas da franquia. Enquanto o primeiro filme mostrou uma visão mais intimista da noite de crime, sob o ponto de vista de pessoas ricas que conseguiam se proteger e tiveram suas fragilidades expostas, o segundo abordou aqueles menos favorecidos que precisam ficar nas ruas e participar da purga, este terceiro foi além ao explorar o mundo de quem está por trás do evento anual. O foco no caráter político eleva o potencial de debate da cinessérie, trazendo à tona definitivamente a questão social; o mundo das gangues, os interesses de quem apoia a purga, as pessoas que buscam vingança, aquelas que têm algo além de suas vidas ameaçado pelos crimes autorizados, e aquelas que, ao contrário da maioria da população, resolve fazer o bem na noite de crime. É possível ver “12 Horas para Sobreviver” como um estudo sociológico de uma realidade que, mesmo distópica, tem uma maior aproximação ao nosso mundo do que podemos querer admitir.

Mesmo tendo sido filmado muitos meses antes do início efetivo da corrida eleitoral americana, é possível ver claramente as semelhanças entre os candidatos da ficção e Hillary Clinton e Donald Trump. Coincidência, ou não, isso garante ao filme um interesse ainda maior daqueles que estão por dentro dos acontecimentos nos Estados Unidos da realidade, e é mais um ponto favorável ao roteiro de James DeMonaco.

Além da qualidade do debate proposto por DeMonaco, o roteiro tem muitos outros acertos, bem como a direção do mesmo DeMonaco. É possível ver o tempo inteiro a insanidade da população, tanto nos momentos em que vemos pessoas atacando umas às outras, gritando e dançando ao redor de corpos, tanto quando são mostrados os bastidores da purga. Os planos mais fechados de DeMonaco, que podem ser vistos negativamente no sentido de expor o baixo orçamento do filme – com apenas US$ 10 milhões é difícil encher as ruas com pessoas loucas sedentas por sangue -, foram um grande acerto na minha opinião. Podemos ver nos olhos das pessoas as suas motivações, construídas culturalmente ao longo do tempo e autorizadas por quem tem o domínio do país, e isso nos permite entrar mais a fundo na história. No entanto, esses mesmos planos fechados podem passar um pouco menos tensão e sensação de urgência, porém nada que comprometa o resultado final.

O filme conta com boas atuações, sobretudo da dupla de protagonistas – Mitchell e Grillo. Os personagens, cuja construção é absolutamente satisfatória, todos têm relevância, e o elenco dá conta de transmitir as emoções duais e difíceis de quem vive em uma noite onde tudo é permitido. O figurino também é digno de elogios; as cores vibrantes, presentes em muitas das máscaras e fantasias usadas pelos participantes da purga, servem perfeitamente para mostrar o caráter sádico e insano dos personagens, principalmente aquela que busca vingança a todo custo, e aquela que ilustra essa publicação. Os atos de violência também são muito bem representados visualmente, com mortes caprichadas e muito sangue voando pela tela.

“12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição” consolida a franquia como parte relevante do cinema americano, e mostra que consegue se renovar a cada filme. Aqui não temos um salto de qualidade em relação a “Anarquia”, mas isso em nada não depõe contra o longa. É uma pena que sua precária distribuição brasileira o tenha levado a tão poucas salas. O Brasil também trouxe ao filme seu maior pecado: a horrível tradução, que pode deixar o público confuso quanto ao pertencimento à franquia The Purge. Tendo estreado nos Estados Unidos no início de julho, este terceiro filme apresenta ótimo rendimento de bilheteria – faturou, até o momento, mais de US$ 115 milhões -, e acredito que a franquia ainda tenha fôlego e história suficientes para ganhar mais uma continuação. Resta-nos esperar para ver, e torcer para que o potencial de renovação, mostrado a cada novo filme, seja mantido e explorado.

Por Danilo Martins

Caso 39

Nota: 8,5

Os inúmeros problemas de pós-produção de “Caso 39” (Case 39, 2009) são um fato nada chamativo para o longa. Arrecadando apenas US$ 14,6 milhões ao redor do mundo, o filme começou a ser produzido em 2009, teve a estréia adiada várias vezes e, ao meu ver, passou a despertar menos interesse do público. No entanto, mesmo após mexerem e remexerem cenas e a montagem, este longa de estréia do diretor alemão Christian Alvart, mesmo utilizando um gênero já bastante explorado (o de crianças más, representado otimamente pelo recente “A Órfã”), consegue agradar bastante com uma trama ágil e despreocupada com passar a realidade o tempo todo para o espectador.

Emily Jenkins (Renée Zellweger) é uma assistente social extremamente dedicada que recebe de seu chefe seu 39º caso, referente à garotinha Lilith Sullivan (Jodelle Ferland), bastante anti-social e estranha. Aparentemente tratada com violência por seu pais, Lilith caiu muito de rendimento na escola e não dormia mais. Os temores de Emily são confirmados quando precisa salvar a garotinha de uma tentativa de assassinato por parte de seus pais, que tentam matá-la queimada em um forno.  Emily, então, decide cuidar pessoalmente de Lilith até que surja uma família para adotá-la. Mas é aí que o terror começa…

Com um início no melhor estilo devagar-quase-parando, a trama de Caso 39 é monótona em seus minutos iniciais. No entanto, após o primeiro evento-chave, a história toma um rumo interessantíssimo, mesmo com um fraco desenvolvimento de personagens do início do filme. Alvart consegue criar um clima de tensão bastante eficiente, através da boa fotografia e de bastante ousadia. Os momentos de devaneio da protagonista (muito bem feita por Renée Zellweger) são totalmente realistas, e não passam com um piscar de olhos. Esse é, talvez, o maior acerto do filme, que dá origem a cenas realmente assustadoras. A cena do armário, situada próximo aos momentos finais do filme, é uma das melhores da projeção em virtude desse recurso muito bem utilizado pelo diretor estreante. Nesse filme, terror físico e psicológico estão unidos de tal maneira que, por vários momentos, não conseguimos diferenciar o que é o quê. Há de se destacar, também, o fator psicológico da protagonista que, ao mesmo tempo em que tem certeza do que está acontecendo, tem sua sanidade posta em cheque como na cena descrita anteriormente.

O modo como Alvart mata seus personagens também é interessantíssimo. Não, não é inovador, mas também não é uma cópia dos trocentos filmes iguais que vemos por aí ao longo dos anos. As pessoas não recebem ligações da Samara dizendo que morrerão dentro de 7 dias nem cometem suicídio por causa de um vírus que está no ar; há lógica, há tensão, há medo. Além do modo, as mortes em si são bastante estilosas, com total destaque para a primeira. Apesar de ter pontos fortes em número muito maior que os fracos, Caso 39 bóia em seus clichês. Como sempre, há a pessoa desesperada, a pessoa que não acredita em nada e diz que a que acredita está louca e por aí vai. No entanto, Alvart também sabe surpreender seu espectador, como acontece no final do filme. O diretos nos mostra como transformar em surpresa algo que parecia óbvio, presenteando-nos com um final digno do restante de seu longa: de tirar o fôlego.

Do elenco de Caso 39, os únicos atores que eu conhecia anteriormente eram Renée Zellweger (de Cold Montain e Bridget Jones) e Bradley Cooper (do ótimo O Último Trem). Surpreendi-me bastante com o funcionamento de todo o elenco em cena, entrosados e envolvidos na trama. Renée está OK como protagonista, por vezes exagerando nos tons de voz e expressões faciais, mas acertando na maioria das vezes. Kerry O’Malley e Callum Keith Rennie, que interpretam os pais de Lilith, vão muito bem com o papel de pais insanos da garota, transmitindo um realismo bastante desagradável (no melhor sentido da palavra). Bradley Cooper, interpretando Doug, amigo e flerte de Emily, vai muito bem, confirmando totalmente minhas impressões a seu respeito tiradas do filme O Último Trem. Mas a maior surpresa, novamente, está na “garotinha do demônio” interpretada pela muito competente atriz Jodelle Ferland. Em seu oitavo filme, a atriz canadense de apenas 14 anos tem carisma e consegue transmitir tudo de que sua personagem precisa para passar o medo necessário ao bom andamento do longa. Com mais este nome, a nova geração de atores (muito bem representada por Nathan Gamble e Isabelle Fuhrer, dentre o que me lembro agora) promete retomar aos velhos tempos, em que, para ser ator ou atriz, era necessário ser bom, não só ter beleza como está sendo a nova moda de Hollywood.

Caso 39 é mais uma das agradáveis surpresas, um terror acima da média que não é atrapalhado por seus clichês. Muitos acertos, poucos erros e um filme imperdível para quem gosta do gênero. Grande acerto do então estreante diretor Christian Alvart.


A Órfã

Nota: 10

Quando lemos a simples sinopse de “A Órfã” (The Orphan, 2009), normalmente pensamos que se trata de apenas mais um terror barato como os que enchem as salas de cinema atualmente. Explorados pela primeira vez em 1956, com “Rhoda”, os terrores envolvendo crianças más ganharam destaque do fim da década de 1970 e em toda a década de 1980, com destaque para “A Profecia” (1974),  “A Colheita Maldita” (1984) e “O Iluminado” (1980). A decadência dos anos 1990 foi superada pela chegada de títulos como “O Chamado” e os remakes dos dois primeiros filmes citados anteriormente na década de 2000, que foi fechada magistralmente por este “A Órfã”. Sem dúvida, o melhor dos filmes citados e um dos melhores da década, não caindo nos costumeiros clichês e sendo um filme de terror incrivelmente acima da média.

John (Peter Sarsgaard) e Kate (Vera Farmiga) são um casal com dois filhos que sofre com a perda de um bebê próximo de nascer. Para suprir a falta da criança, eles decidem adotar uma menina mais velha, a esquisita russa Esther (Isabelle Fuhrman).  Mesmo alertados da dificuldade de adotar crianças com mais idade, o casal é atraído pela maturidade e pelo enorme carisma de Esther. No entanto, Esther não é a garota tímida e inteligente que aparentava ser no orfanato onde vivia. Ela acaba  totalmente com a paz da família, tendo em seu pai a confiança necessária para cometer seus atrozes e revoltantes atos.

Iniciando com a forte cena do aborto de Kate, a trama aumenta de intensidade à medida que passa, assim como sua tensão. Em suas primeiras aparições, Esther conquista não somente seus pais adotivos e sua irmã Max (Aryana Engineer), mas também os espectadores. Por algumas vezes, me peguei torcendo pela garota, principalmente nas cenas em que sofre bullying na escola. À medida que ela mostra sua verdadeira identidade, o espectador age como a mãe, com revolta, ódio e preocupação. Esther é, certamente, uma das crianças mais odiosas e assustadoras que já passaram pelas telas do cinema em toda a história (na minha opinião, está no topo). O modo como age é totalmente frio e calculista, mostrando que a maturidade percebida pelos pais à primeira vista chega a níveis extremos (a primeira cena que envolve uma arma e todos os crimes cometidos por Esther são a maior prova disso). O conjunto das abomináveis ações de Esther são revoltantes, levando espectadores mais envolvidos à trama, como eu, às lágrimas de raiva. Encoberta pelos irmãos através de suas ameaças e pelo pai por sua confiança, Esther é ameaçada unicamente pela certeza de sua mãe de que ela está por traz dos acontecimentos que aterrorizam sua família. Ex-alcoólatra, Kate não tem a confiança do marido, que acredita fielmente em tudo que Esther diz, fechando os olhos para o perigo que ronda constantemente sua casa.

A construção dos personagens é feita calmamente, da melhor maneira possível. Sem pressa para começar a chocar o espectador, Jaume Collet-Serra conduz extremamente bem a trama, dando-nos a oportunidade de conhecer seus personagens. No entanto, as escolhas de “para que lado torcer” acabam não sendo sempre as mesmas ao longo do longa, já que pequenas e cuidadosas reviravoltas (se é que podem ser chamadas assim) estão presentes em boa quantidade. O diretor acerta em tudo. A fotografia escura ajuda e nos permite enxergar perfeitamente as cenas, a boa trilha sonora é muito bem utilizada, as tomadas  e ângulos de câmera são sempre acertados, os sustos vêm em horas oportunas, os cenários e locações são muitíssimo bem aproveitados. Merece um imenso destaque, também, sua direção de atores. Ele faz funcionar imensamente bem o experiente casal Vera Farmiga e Peter Sarsgaard, que mostram uma química indispensável para a verossimilhança. No entanto, o maior ponto para Collet-Serra é o aproveitamento da desconhecida protagonista Isabelle Fuhrman. Ele extrai da jovem de 12 anos uma das melhores performances infantis que já vi no cinema (as atuações serão melhor explicadas no próximo parágrafo). Também marcante é o roteiro escrito por Alex Mace e David Johnson, com seus diálogos sempre inteligentes e o argumento interessante e, na medida do possível, inovador. Cenas que marcam e ficam na cabeça do espectador por vários dias são marca registrada deste filme, que, ainda por cima, diverte qualquer amante do terror. Os efeitos especiais são usados em baixa escala, substituídos pela excelente maquiagem, que é uma das responsáveis pela altíssima qualidade do final do longa, que será explicado mais à frente.

O elenco do longa é, também, um de seus pontos mais fortes (sim, os pontos fortes não acabam!). Desde atores mais experientes a mais novos, todos têm grande destaque, com atuações excelentes e muitíssimo verossímeis. Vera Farmiga, que interpreta a mãe atormentada pela perda do bebê e uma quase-tragédia decorrente de seu alcoolismo, é sensacional em cena. O desespero de sua personagem é visto com perfeição por meio de sua atuação, intensa e sufocante, na tentativa incessante de proteger seus filhos de Esther. Os momentos em que tenta convencer o marido da verdadeira face de Esther são agoniantes, e Farmiga mostra-nos como uma verdadeira mãe se comportaria vendo os filhos em iminente perigo. Peter Sarsgaard, interpretando Peter, não atinge o brilho de Farmiga, mas sua atuação é também excelente. O pai cético convence em seu amor incondicional pela filha adotiva, sendo, por muitas vezes, extremamente irritante. Aryana Engineer é a surda (e, claro, muda) Max, filha mais nova do casal, e tem uma atuação surpreendente. A pequena atriz, que aprendeu a linguagem de sinais na vida real em virtude de ter mãe surda, é excelente em suas expressões faciais meigas e, quase sempre, amedrontadas, fazendo com que a ausência de falas orais não seja sentida. O outro filho do casal, Daniel, é intepretado pelo jovem e experiente Jimmy Bennett, que se mostra muitíssimo promissor como ator em mais uma atuação de alto nível.

Deixei para falar de Isabelle Fuhrman em um parágrafo à parte. A jovem atriz, em seu primeiro trabalho no cinema, dá um show de atuação, ofuscando com facilidade o brilho dos experientes Sarsgaard e Farmiga. Isabelle acerta na entonação de voz, nas expressões faciais, nos gestos, em tudo! Encarnando sua personagem com a alma, a atriz é a grande vilã do ano de 2009 na minha opinião, sendo responsável por um dos papéis mais fortes e maus que já vi. Sua atuação é perfeita, e desbancaria inúmeras atrizes que ainda ganham o Oscar em virtude de seus nomes.

O final do filme é surpreendente e perturbador, sendo verossímil em virtude da ótima técnica utilizada pela equipe. Maquiagem, fotografia, efeitos sonoros, tudo colabora imensamente para a revelação do segredo de Esther, impossível de ser descoberto antes da sufocante seqüência final (que dura cerca de 20 minutos). Um filme forte e cruel que merece ser conferido por todo e qualquer amante do cinema. Para os amantes do terror e suspense, “A Órfã” é uma parada obrigatória, da qual ninguém sai arrependido. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano. Sem dúvida, um dos melhores filmes de crianças más da história do cinema.

Por Danilo Henrique

PS: Uma pequena explicação. Costumeiramente, eu posto, junto das críticas, os respectivos trailers. No entanto, julguei que o trailer de “A Órfã” contém muitas cenas reveladoras de segredos da trama, sendo considerado por mim um grande spoiler. Por isso, estou postando o comercial de TV que, além de ser mais resumido e não contar partes importantes, conta de maneira mais correta o que pode ser visto no filme.


O Padrasto

Nota: 1.0

Quando assisti a “O Padrasto” (The Stepfather, 2009), pensando em colocá-lo como o primeiro filme da volta desde blog à ativa, imaginei que traria uma boa opção de filme para os que leem esta crítica. Infelizmente, tive uma imensa decepção ao ver que este se trata de apenas mais um remake totalmente sem qualidade como os lançados aos montes todo ano. Baseado no filme homônimo de 1987, O Padrasto foi considerado pelo respeitado site Cinematical um dos piores filmes de 2009, mesmo tendo obtido uma decente bilheteria nos EUA.

Susan Harding (Sela Ward) é uma mulher divorciada, traída pelo ex-marido com sua secretária, que tem três filhos. Seis meses após conhecer David Harris (Dylan Walsh), eles passam a viver juntos, como uma família aparentemente feliz e normal, principalmente após o regresso do filho mais velho, vindo do colégio militar, Michael (Penn Badgley). No entanto, com o passar do tempo e à medida que conhece melhor o novo padrasto, Michael passa a suspeitar que David não é quem realmente aparenta ser e que esconde vários segredos de seu passado.

Baseado em fatos reais, o filme não fez o sucesso esperado e a crítica o recebeu com paus e pedras. Esperava-se de seu remake um novo e melhor modo de contar a interessante história, mas o que se vê na tela é um filme sem força narrativa, sem tensão e, sobretudo, sem construção de personagens. O grande vilão David faz o estilo “paradão” e não desperta no espectador os sentimentos caraterísticos para vilões: ódio, desprezo, medo (o que é ajudado também pela decepcionante atuação do bom Dylan Walsh). As mortes não carregam tensão consigo e acontecem de modo rápido,  trazendo à mente de quem vê sempre os mesmos pensamentos, como “É só isso mesmo?” ou “Nossa, já acabou?”. A fotografia é sem graça, sempre a mesma e não omite detalhes que seriam importantes para passar a sensação de não saber o que está acontecendo. Mas isso tudo não chega perto do problema dos clichês. Ah, os clichês! Presentes em praticamente toda a película, eles irritam e nos fazem saber exatamente o que vai acontecer. O cara que chega quando algo sobre ele está sendo descoberto, uma bateria de celular que acaba quando não poderia acabar, um imprevisto que acontece quando não poderia acontecer, um homem sendo morto quando estava prestes a descobrir tudo sobre o passado do culpado… Há filmes que fazem uso dos clichês em seu favor, mas o diretor Nelson McCormick parecia não ter idéia do que fazer com seu material, colocando mais e mais sustos gratuitos e esperados no meio dos milhões de clichês já existentes. Direção que não conseguiu atingir o clímax do filme em seu momento de clímax, fazendo uma cena final monótona e risível, que nos faz lembrar facilmente dos mais fracos episódios da interminável série Sexta-Feira 13.

Mesmo recebendo uma direção fraca, o elenco do filme acaba se sobressaindo frente aos inúmeros defeitos da produção. Dylan Walsh, conhecido por fazer um dos papéis principais na ótima série Nip/Tuck, é um bom ator, indiscutivelmente. Mas a mesma expressão que fica em seu rosto durante praticamente toda a projeção incomoda, bem como os diálogos imbecis que é obrigado a protagonizar. No entanto, consegue sustentar bem seu personagem, muitíssimo mal construído. Sela Ward cumpre bem o papel de mãe que busca a felicidade após o divórcio, mas também sofre com os diálogos e com a fraca construção de personagens (vamos combinar, todos os personagens são mal construídos, não mencionarei mais isso a partir de agora). Sua crença desmedida em David pode ser considerada justificável, o que não ajuda o filme, já que o excesso de crença jogaria mais ainda o espectador contra o padrasto. O destaque do elenco fica para Penn Badgley, que interpreta o enteado do criminoso, o qual tenta a qualquer custo revelar a verdadeira identidade do homem. Acerta nas expressões faciais e no modo como profere suas falas, sendo o personagem mais verossímil (se é que podemos utilizar esta classificação para o filme) de toda a produção. Sua namorada no filme, a atriz Amber Heard, completa bem o elenco principal, como a pessoa que tenta desanimar Michael em suas buscas. Assim como Penn, sua atuação é corretíssima. As crianças que interpretam os outros filhos de Susan não têm o mínimo destaque no filme, sendo praticamente figurantes.

Enredo mal contado e inverossímil, personagens mal construídos e carência total de tensão ditam o ritmo deste O Padrasto, mais uma refilmagem totalmente desnecessária que agride o que conhecemos do bom cinema. Seu final dá abertura para o remake da continuação feita em 1989, o que promete mais um dos filmes dos quais devemos passar longe. Remakes normalmente são ruins, continuações, idem. Você arriscaria assistir ao remake de uma continuação?

Por Danilo Henrique.

Fim dos Tempos

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Nota: 1.0

É o fim. É simplesmente incrível, quase inaceitável, que um diretor e roteirista indicado ao Oscar vá do céu ao inferno tão drasticamente em tão poucos anos. Pois é o que aconteceu com M. Night Shyamalan, que obteve um sucesso impressionante com seu espetacular “O Sexto Sentido” (acertou em cheio também em “Sinais” e “A Vila”), mas não tem conseguido fazer seus últimos filmes emplacarem. Depois de seu último filme lançado, “A Dama na Água”, a carreira do indiano foi colocada em xeque por muita gente. Depois deste “Fim dos Tempos” (The Happening, 2008) , não sei se ele ainda terá uma carreira.

O professor de Biologia Elliot Moore (Mark Wahlberg) é surpreendido quando sua aula é interrompida e recebe a notícia de que sua cidade, Nova York, está sendo alvo de ataques terroristas. Ataques cujo efeito o espectador vê logo na primeira seqüência: as pessoas perdem a fala, ficam paralisadas e têm um impulso incontrolável de cometerem suicídio. Com a evacuação da cidade, Elliot junta-se à sua esposa, Alma (Zooey Deschanel), seu melhor amigo, Julian (John Leguizamo), e sua filha Jess (Ashlyn Sanchez) para uma viagem de trem rumo à Pensilvânia, onde sabe-se que nenhum ataque foi feito. Entretanto, no decorrer da viagem, o trem encontra problemas para prosseguir, e pára em uma cidade rural, longe de tudo, e as pessoas ficam sem comunicação com o mundo. Com o tempo, essas pessoas deparam-se com um fato pelo qual não esperavam: tudo leva a crer que os ataques, concentrados na costa nordeste dos EUA, por serem realizados sempre em parques, não são obra de terroristas. Então, Elliot vê que a Biologia nem sempre contém a verdade completa: as toxinas que levam as pessoas a se matarem vêm das plantas, que criaram um meio de alterarem sua composição química a fim de se defenderem, e estão espalhando as toxinas por todos os EUA, inclusive nessa cidadezinha. Com isso, Elliot e seus companheiros têm de fazer de tudo para salvar as próprias vidas e ajudar uns aos outros, antes que a toxina se espalhe e acabe com todos.

Shyamalan consegui fazer com que o público tivesse interesse com seu filme com atitudes que, na minha opinião, foram uma grande jogada de marketing. Ao tentar vender seu roteiro para a Warner, que produziu dois de seus filmes (“A Dama na Água” e “A Vila”), e tê-lo rejeitado, o indiano encontrou refúgio na Fox, que o produziu e o anunciou como o primeiro filme com censura “R” (para maiores de 17 anos) da carreira do diretor. Toda essa indefinição e um trailer excelente e chamativo fizeram com que o filme liderasse as bilheterias de vários países, tendo arrecadado US$30 milhões no final de semana da sexta-feira 13 de junho em 2008. Aliado a isso, ainda havia o nome de M. Night Shyamalan que, em virtude do sucesso de seu “O Sexto Sentido”, sempre chamou muita gente para as salas de cinema. Pobres das pessoas que, assim como eu, acreditaram que este filme seria a redenção de Shyamalan, que ele calaria a boca dos críticos que acreditaram que “A Dama na Água” seria o marco final de sua carreira. Mas, se “A Dama na Água” não foi esse marco final, aposto várias fichas que Shyamalan terá ainda mais dificuldades para vender seu próximo roteiro. Aliás, o indiano deveria começar a apostar unicamente em sua carreira de diretor, na qual sempre se mostrou muito bom, já que seus roteiros nem sempre são bons. Se Shyamalan não tinha grandes motivos para apostar em uma só carreira, “Fim dos Tempos” era o grande motivo de que ele precisava. Neste, o roteiro é espetacularmente fraco, chegando a ser ridículo em alguns pontos, o que nos pode levar a crer que o filme é feito por um estudante inicial de cinema. Os diálogos são imbecis, todos os personagens são obrigados a proferir falas patéticas, e há verdadeiros buracos negros na trama, fazendo com que as cenas não sigam uma ordem lógica e cronológica nem ao menos aceitáveis.

A proposta de Shyamalan de fazer um filme apocalíptico, a começar pelo título, é completamente furada, principalmente pelo fato de que os acontecimentos são passados apenas nos Estados Unidos. Além disso, o que vemos na tela não é uma destruição total da Terra em virtude do aquecimento global, mas sim a morte de pessoas de uma determinada área. Mas o grande problema da trama não é esse, mas sim o modo como as informações são ditas pelos personagens. A cada momento, são transmitidas para o espectador suposições dos personagens mais estranhos que você possa imaginar. E, por incrível que pareça, as teorias imbecis desses estranhos são a verdade, a base de tudo que está acontecendo. Ridículo, não? Tão ridículo que chega ao ponto de não conseguir fazer nenhum espectador temer pelo que está por vir, principalmente quando os personagens começam a fugir do vento! Sim, do vento! E pode ser que Shyamalan considere este o clímax de sua história, já que, mesmo olhando bem atentamente, não consegui encontrar um ponto realmente alto, realmente empolgante na trama. Mas, como é bem difícil um filme ter apenas erros, Shyamalan acerta em cheio no começo do filme. Apesar de tudo acontecer muito cedo, duas seqüências me chamaram muito a atenção: a primeira, aquela em que os construtores começam a se jogar de um prédio em obras; segunda, a seqüência em que várias pessoas se matam usando a mesma arma.

Como eu não estou aqui para perseguir o diretor/roteirista indiano, preciso reconhecer que a culpa pela péssima qualidade do filme não é só dele. O elenco de “Fim dos Tempos”, mesmo sendo bastante conhecido, protagoniza atuação para se esquecer. Mark Wahlberg mostra-se um péssimo protagonista, parecendo um verdadeiro profeta. Sua entonação de voz é extremamente artificial e forçada, fazendo com que os diálogos (que já são sem muita qualidade) sejam bastante comprometidos. Zooey Deschanel tem uma atuação terrível, parecendo estar constantemente alheia a tudo o que está acontecendo. Esquisita também é Ashlyn Sanchez, que interpreta Jess, a filha do personagem de John Leguizamo. A garota é absolutamente mecânica, não passa emoção nem carisma e suas falas não são nem um pouco naturais. John Leguizamo interpreta Julian, pai de Jess, e, mesmo não tendo uma atuação excelente, é o nome de maior destaque (ou de destaque menos negativo) do longa. Tudo isso, aliado a uma trilha sonora péssima e uma parte visual bem fraquinha, só podia dar o resultado visto nas telas.

É com imenso pesar que vejo a qualidade dos filmes de Shyamalan, que assustou minha infância com seu “O Sexto Sentido”, decaírem tanto. E o pior: neste “Fim dos Tempos” não há uma marca registrada do indiano, que é o final supreendente. Filme ruim sem final surpreendente? Decididamente, vai ser difícil Shyamalan conseguir se reerguer após tamanha queda.


Por Danilo Henrique