Ela Dança, Eu Danço

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Nota: 6.0

O lançamento de filmes musicais feitos para público adolescente têm sido cada vez mais freqüentes em Hollywood. Juntamente com a febre “High School Musical”, que chegou ao terceiro capítulo em 2008, veio este legalzinho “Ela Dança, Eu Danço” (Step Up, 2006), cujo título em português é simplesmente terrível (fazendo alusão a uma música de sucesso da época no Brasil), mas cuja história, apesar dos inúmeros clichês, agrada bastante. Mais um daqueles filmes que têm tudo para dar errado, “Ela Dança, Eu Danço” não chega a dar totalmente certo, mas tem certa capacidade de envolver e emocionar o espectador.

A história é bem simples, até bobinha. Tyler Gage (Channing Tatum), um adolescente encrenqueiro, que anda pelas casas noturnas e ruas de Nova York com seus inseparáveis amigos Mac (Demaine Radcliff) e Skinny Carter (De’Shawn Washington) arrumando confusão, depreda e invade uma escola de artes, e é condenado a prestar 200 horas de serviço comunitário no local, como faxineiro. Lá, no entanto, ele conhece uma bailarina que está montando sua coreografia de fim de curso, Nora Clark (Jenna Dewan). Nora, cujo parceiro está impossibilitado de ensaiar por ter lesionado a perna, procura desesperadamente um parceiro para continuar os ensaios até que sua dupla volte, mas não consegue encontrar ninguém à altura nas outras turmas da escola. É aí que Tyler oferece ajuda e Nora, após relutar, obtém autorização da Diretora Gordon (Rachel Griffiths) para continuar seus ensaios com o faxineiro. Tyler, mesmo sendo acostumado somente às danças de rua, acaba se envolvendo com a dança, e supera todos os seus limites para ajudar Nora, enquanto, através da dança, nasce um novo amor.

Perceberam como tudo é bastante óbvio o repleto de clichês? Tudo o que foi escrito acima pode ser visto em vários outros filmes, tanto de qualidade superior quanto de inferior. O que diferencia “Ela Dança, Eu Danço” dos outr0s é que a diretora estreante Anne Fletcher não tem vergonha dos clichês e da obviedade do seu filme, o que lhe dá vários pontos a seu favor. Ela sabe usar extremamente bem o roteiro bobinho escrito a quatro mãos por Duane Adler e Melissa Rosenberg, e não deixa os clichês tão escancarados para o público. Só que impossível não se irritar com a obviedade constante da película, já que a cada momento você visualiza exatamente como é a cena seguinte. Até as “reviravoltas” (que não têm nada de reviravoltas, a não ser na cabeça da diretora e dos roteiristas) são extremamente previsíveis e bobas, não trazendo o mínimo de surpresa para o espectador, mas também não chegando a incomodar. Apesar da presença de tanta obviedade, o filme chega a emocionar em alguns momentos, e o ponto onde ameaça decolar é quando o amor de Tyler e Nora começa a ser explorado. No entanto, o ponto alto do filme são os ensaios da dupla, que se mostra bastante desenvolta para dançar (muito bem, diga-se de passagem) diante das câmeras. Mesmo parecendo um absurdo o desenvolvimento de Tyler de uma hora para outra, as cenas de dança são ótimas, principalmente a da apresentação final que, apesar das “reviravoltas” tentarem, sem sucesso algum, esconder, é feita mesmo entre Nora e Tyler. Outro ponto que merece destaque é o fato de que a diretora não coloca os protagonistas no mesmo plano, dando muito mais destaque a Tyler. São mostradas inúmeras cenas da vida cotidiana do rapaz, enquanto que as cenas com Nora, isoladamente, são bastante resumidas, e sempre mostrando a relação instável que a garota tem com a mãe. Outra personagem que, na minha opinião, poderia ter mais destaque é a Diretora Gordon, interpretada muitíssimo bem pela australiana Rachel Griffiths (sobre quem falarei mais abaixo). Sua participação na trama é boa, mas, em virtude da importância de sua personagem, poderia ter sido mais explorada. Há de se destacar também a trilha sonora do longa. As músicas estão longe de ser a chatice que ouvimos na maioria dos filmes relacionados a música e dança. As músicas tocadas representam perfeitamente as situações expostas na tela, e as que embalam as coreografias são extremamente adequadas e propícias para o tipo de dança apresentado. Acerto imenso so longa, que eu atribuo ao fato de a diretora Anne Fletcher ser uma experiente e renomada coreógrafa norte-americana. No entanto, o grande erro do filme é o de, por vezes, usar mecanismos baratos e desnecessariamente sentimentalistas para tentar emocionar o espectador. O ponto onde isso ocorre descaradamente fica próximo do final, quando há um assassinato totalmente desnecessário, sem o qual a trama não perderia em nada. É uma pena que alguns diretores insistam em lançar mão de tais elementos, que têm cada vez menos espaço no cinema moderno, em seus filmes ainda nos dias de hoje.

O elenco de “Ela Dança, Eu Danço” é muito bem escolhido, com destaque para o protagonista Channing Tatum e para Rachel Griffiths. O protagonista, cujo personagem, Tyler, é muito mais explorado que o  da outra protagonista, Jenna Dewan, tem muito carisma e personalidade, o que o credencia facilmente ao papel que lhe foi dado. Inclusive, na minha opinião, esse carisma do ator foi um dos fatores motivadores para Tyler aparecer muito mais que Nora. Apesar de tanto carisma, sua atuação não chega a ser espetacular, nem a melhor do filme. O posto de melhor do filme fica com Rachel Griffiths, que acrescenta uma grande dose de brilhantismo à sua personagem, a Diretora Gordon. Caso a diretora fosse interpretada por uma atriz não tão talentosa quanto Rachel, com certeza sua importância não seria tão evidenciada, e ela se tornaria apenas mais uma personagem secundária. Janna Dewan interpreta a protagonista feminina da trama, e, mesmo não convencendo, tem uma atuação ok. Os outros coadjuvantes não têm grande destaque, ficando nivelados em um nível regular.

“Ela Dança, Eu Danço” tem todos os elementos possíveis para não ser levado a sério, e para cair no lugar-comum dos filmes adolescentes. Mas é a própria consciência de sua diretora que acaba salvando o filme, que, mesmo estando longe de ser uma obra-prima, acaba agradando e divertindo. Utilizando verdadeiros atores que sabem dançar, vale a pena passar os 103 minutos do filme aguardando pelas cenas de dança, que terminam em uma maravilhosa apresentação final. “Ela Dança, Eu Danço” consegue passar seu recado, mesmo não sendo com a melhor das premissas.


Por Danilo Henrique

Crepúsculo

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Nota: 5.0

Nos últimos anos, tem sido bastante comum a adaptação de best-sellers para o cinema. O fato de a obra original ter um grande público aficcionado faz com que, independentemente de sua qualidade, o filme seja um grande sucesso. Alguns deles, quando passados para os cinemas, acabam tendo sua qualidade bastante diminída, como é o caso da série Harry Potter (cujos dois primeiros filmes são bastante decepcionantes) e o espetacular “O Código DaVinci”, que originou um filme simplesmente comum. Em contrapartida, outras obras geram filmes tão bons ou até melhores, como é o caso da trilogia “O Senhor dos Anéis” e “O Nevoeiro” (este último, sendo um conto vindo de um livro não tão best-seller assim). “Crepúsculo” (Twilight, 2008) , baseado no primeiro livro da série de cinco da escritora americana Stephenie Meyer, se encaixa perfeitamente na lista dos filmes que não têm nem a metade da qualidade do livro, o que não chega a ser um grande problema para os fãs mais apaixonados.

Bella Swan (Kristen Stewart) vai morar com seu pai, o chefe de polícia Charlie Swan (Billy Burke) na cidadezinha de Forks, pois sua mãe e seu padrasto (que é jogador de beisebol) necessitam fazer viagens constantes. Ao chegar no colégio, Bella logo ganha fama (por ser filha do chefe de polícia local) e admiradores, como o chato Mike Newton (Michael Welch) e o “puxa-saco” Eric (Justin Chon). Mas não é nenhuma dessas pessoas que chama a atenção de Bella: à primeira vista, ela fica fascinada por Edward Cullen (Robert Pattinson) e impressionada pela beleza de seus irmãos, Alice (Ashley Greene), Jasper (Jackson Rathbone), Emmet (Kellan Lutz) e Rosalie (Nikki Reed), todos filhos adotivos do médico da cidade, Dr. Carlisle (Peter Facinelli). Nem mesmo o fato de todos os Cullen parecerem que não vivem no mesmo mundo que os outros alunos da Forks High School impede que Bella, aos poucos, vá se apaixonando pelo misterioso Edward. Quando descobre que os Cullen não são uma família comum, mas uma família de vampiros, Bella age contra todas as expectativas e não demonstra medo de seu grande amor e sua família, mesmo sabendo que ele pode matá-la a qualquer momento. Mas o grande perigo pelo qual passa Bella não é a família em que está prestes a entrar, mas sim quando um grupo de vampiros sanguinários, liderado por James (Cam Gigandet) a encontra, dispostos a matá-la a qualquer custo.

O grande problema do roteiro de “Crepúsculo” é que nem ele sabe o tipo de filme que é. Quem já leu o livro sabe que se trata, priotariamente, de uma história de romance, com vários elementos de ação e mistério. Pois o roteiro não define um foco: é mostrado de tudo um pouco, mas nada de maneira satisfatória. Temos apenas pitadas do amor platônico de Bella e Edward, doses bastante homeopáticas do mistério que envolve a verdadeira identidade dos Cullen e pinceladas da ação decorrente da perseguição do bando a Bella. O que contribui fatalmente para isso é o fato de que o filme não é totalmente fiel ao livro. Sendo o livro narrado inteiramente em primeira pessoa por Bella, não seria possível vermos as cenas de James caçando, como vemos no longa. Não há um expectativa criada acerca dos assassinatos, já que sabemos exatamente quem os cometeu. Inclusive temos um final diferente do apresentado na obra de Stephenie Meyer, o que pode desagradar imensamente aos fãs. Temos, inclusive, momentos importantíssimos da trama (mais importantes até que o final) alterados pela roteirista Melissa Rosenberg, como o momento em que Edward confirma para Bella que ele é um vampiro (no livro é no Volvo do personagem, enquanto que no filme a cena é passada na floresta) e quando Bella profere as palavras que se encontram na contracapa do livro (“De três coisas eu estava convicta…”). Esta segunda acontece totalmente fora da ordem cronológica do filme, o que, se tratando de uma cena bastante aguardada pelos fãs, é totalmente inaceitável. Das cenas modificadas, a única que realmente dá certo é uma das cenas finais, que, claro, não será revelada aqui, mas que tem um nível de tensão e violência não vistos no livro de Stephenie. De resto, temos várias boas cenas sendo pouco exploradas, e um filme feito com bastante pressa, com seqüências bastante curtas que raramente conseguem chegar ao clímax. Apesar da tentativa da roteirista Melissa Rosenberg e da diretora Catherine Hardwick de estragarem tudo, “Crepúsculo” carrega uma ótima história da obra original de Stephenie Meyer, o que não pode ser perdido nem com as piores adaptações e direções.

O elenco de “Crepúsculo” era uma das coisas mais aguardadas do filme, em virtude da beleza de quase todos os personagens retratada por Stephenie Meyer em seu livro. E, realmente, o elenco foi escolhido a dedo, todos os personagens tiveram sua beleza extremamente bem representada. O grande problema é que nem sempre é possível combinar beleza com qualidade de atuação, o que é fortemente evidenciado. As únicas atuações que realmente chamam a atenção são Kristen Stewart e Ashley Greene. Kristen, que já participou do ótimo “O Quarto do Pânico” e do fraquinho “Os Mensageiros” com papéis importantes (sendo protagonista no segundo), entra na pele da protagonista apaixonada Bella Swan. Como de costume, Kristen transparece exatamente o que sua personagem exige. Tudo sai certo, desde a entonação da voz até as expressões faciais, o que torna sua personagem a mais fidedigna ao livro, inclusive no jeito desajeitado que ela incorpora com perfeição. Ashley Greene tem um papel mais secundário, como a divertida Alice Cullen, irmã de Edward. Ashey mostra na tela o que, provavelmente, todos os fãs que leram o livro imaginaram de Alice. Totalmente meiga e carismática, a atriz faz com que Alice, mesmo não aparecendo muito, seja querida até pelas pessoas que não tiveram a oportunidade de ler o livro. A maior decepção fica por conta de Robert Pattinson, o vampiro bonitão por quem Bella se apaixona e que faz as fãs suspirarem a cada cinco minutos. Robert é a maior prova de que beleza e qualidade nem sempre andam de mãos dadas. O ator tem alguns bons lampejos, como nas cenas das aulas de Biologia que faz junto com Bella, mas sua atuação, como um todo, é extremamente burocrática. Justin Chon, que interpreta Eric, um colega de escola de Bella, consegue fazer seu personagem (que, no livro, é aturável) ficar extremamente insuportável com sua atuação beirando o ridículo. Taylor Lautner, que interpreta Jacob Black, apesar de aparecer em, no máximo, 5 minutos de filme, tem uma atuação bastante segura, o que pode desfazer os rumores de sua substituição para o segundo filme da série, “Lua Nova”, cuja estréia está, a princípio, programada para o fim de 2009.

A parte visual de “Crepúsculo” é excelente, principalmente se tratando das belíssimas locações e cenários. Os efeitos especiais são ok, mas com uma ressalva: os efeitos usados para mostrar como Edward (e, eventualmente, todos os vampiros) ficam quando expostos à luz solar é fraquíssimo, não conseguindo traduzir a magnitude da narrativa de Stephenie Meyer. Todo o restante, como as cenas em que Edward usa e abusa de sua velocidade, é bem feito, não dando a impressão do “é impossível isso estar acontecendo”, comum quando vemos efeitos esdrúxulos. A trilha sonora é impecável, ditando o ritmo que nem sempre é sustentado pelo roteiro.

“Crepúsculo” é um filme feito para agradar aos fãs que não enxergam através da paixão, e, provavelmente, não vai deixar muito felizes os fãs que não se contentam com qualquer coisa. Se você, assim como eu, já leu o livro, não espere uma reprodução fiel do que estava nas páginas escritas por Stephenie Meyer, pois vai ter uma grande decepção. Se você não leu, este é apenas mais um desses filmes-pipoca que lançam toda semana nos cinemas, ou seja, apenas mais uma opção de diversão barata.


Por Danilo Henrique

P.S.: Eu Te Amo

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Nota: 9.5

Holly (Hilary Swank) e Gerry (Gerard Butler) são um casal em crise. O casamento de 9 anos começa a dar sinais de enfraquecimento: ela alega que a falta de filhos e a vida financeira estagnada estão acabando com a relação conjugal deles. Ele, por sua vez, diz que a falta de filhos é culpa dela, pois não está preparada para ser mãe. Você deve estar imaginando mais uma história de drama, normal, que nada tem a acrescentar ao gênero. Errado! “P.S.: Eu Te Amo” (P.S.: I Love You, 2007), baseado no best-seller homônimo de Cecelia Ahern é mais do que apenas mais um romance. Ele reinventa o gênero com suavidade e sensibilidade, derretendo o coração do espectador com grande facilidade.

Após as brigas em razão do declínio do casamento, Holly é golpeada com uma tragédia: Gerry morre com um tumor no cérebro. Ela, apesar de enlutada pela morte do marido, cumpre o desejo dele, de ter uma festa com bastante bebida e música em seu velório. A urna de suas cinzas recebe o brinde dos presentes, mas Holly não se conforma com a morte e o modo como ela ocorreu. Com isso, a vida dela torna-se uma ruína. Ela abandona o emprego, fica semanas enclausurada em seu apartamento, que se torna um verdadeiro “chiqueiro”. Mas sua vida ganha uma injeção de ânimo em seu aniversário. Apesar de não desejar comemorar com ninguém, ficar sozinha em seu refúgio, sua família e seus amigos vão visitá-la. E, junto com eles, acontece uma coisa inusitada: ela recebe um bolo e uma fita de áudio enviados por Gerry. Persuadida a comemorar seu aniversário, Holly vai com suas amigas a uma boite gay, em uma das cenas engraçadas do longa.

Mas a comunicação de Gerry não pára por aí. Ele começa a mandar cartas regularmente, tentando conduzir a vida de Holly à felicidade após sua morte. E a estratégia passa a dar certo, pois ela consegue esquecer em parte seu falecimento e tenta ser feliz. Ela chega a viajar para a Irlanda com as amigas, onde revê os pais de Gerry e um membro da antiga banda do falecido marido. No entanto, apesar de suas inúmeras tentativas de buscar a felicidade, suas memórias a atormentam e ela não consegue deixar de vez as marcas deixadas pelos 9 anos de vida conjugal.

Hilary Swank, ganhadora de dois Oscar por suas atuações em “Meninos não Choram” e “Menina de Ouro”, nos premia com mais uma atuação excelente. Ela interpreta com perfeição a protagonista Holly, uma personagem bastante complicada. Consegue dar à sua interpretação a dramaticidade na medida certa, sem extravasar e nem exagerar. É completamente fidedigna a qualquer mulher que perde o marido depois de 9 anos de casados. Ela chora e nos faz chorar, ri e nos faz rir, transmite com leveza e correção seus sentimentos. Atuação digna de ter sido vista com cuidado pela comissão do Oscar, mas que acabou sendo esquecida. Gerard Butler, apesar de não aparecer muito como o protagonista masculino Gerry, cumpre muito bem o seu papel, conseguindo passar segurança. Kathy Bates, interpretando a mãe de Holly, Patricia, é muito boa também, represantando com total exaditão a mãe que não gosta do genro, mas que, acima de tudo, luta pela felicidade da filha.

O roteiro de Steven Rogers e Richard LaGravanese, baseado em livro de Cecelia Ahern, apresenta poucos furos, fazendo os personagens serem bastante convincentes e verossímeis. O único ponto em que, na minha opinião, a dupla falhou, foi na duração do filme, pois há cenas desnecessárias que poderiam ser deletadas sem atrapalhar em nada o entendimento da história. O sentimentalismo é bastante explorado, mas de uma forma comedida e agradável, sem tornar o filme um dramalhão. A trilha sonora colabora bastante com o bom andamento da trama, dando a dramaticidade e o divertimento adicionais às cenas.

“P.S.: Eu Te Amo” não é um filme de romance/drama que cai na previsibilidade o tempo inteiro. Eu duvido que alguém desvende o final da história, maravilhoso por sinal. Aviso aos que vão assistir a este belo filme: prepare-se para ter seu coração totalmente derretido!


Por Danilo Henrique

Orgulho e Preconceito

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Nota: 7.5

A escritora inglesa Jane Austen é conhecida pelas adaptações de seus livros para os cinemas. Foi assim com “Razão e Sensibilidade” (excelente) e volta com “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice, 2005). A diferença entre os longas não é grande na história, já que Austen adora escrever sobre moças ansiosas (para não dizer desesperadas) para encontrar um bom partido. A grande diferença é que “Orgulho e Preconceito” não é tão bem conduzido, apesar de ser ótimo filme, quanto o primeiro.

“Orgulho e Preconceito” é passado na Inglaterra do início do Século XIX, no qual os sentimentos eram vistos como algo quase banal, e os “pobres não podiam se misturar com os ricos”. É nesse contexto que a pobre Elizabeth Bennet (Keira Knightley) apaixona-se pelo rico Sr. Darcy (Matthew Mcfadyen). Darcy é um homem correto, mas que tem em seu passado fatos aparentemente obscuros. Dentre eles, o fato de não receber o amor devido do pai. Elizabeth, apesar de sofrer com pressões de sua família para casar-se com outro homem e da família de Darcy para afastar-se dele, mantém-se firme e determinada a conquistar seu objetivo de ser feliz ao lado do amado. Darcy também está apaixonado, mas o orgulho e o amor inconstante de Lizzie se opõem ao preconceito contra as classes menos favorecidas pela parte de Darcy, fazendo com que os dois nunca cheguem a um fator comum. E o filme segue nessa toada até o fim, passando por algumas boas histórias paralelas.

O forte de “Orgulho e Preconceito” não é a história, mas sim o visual e o elenco. Com figurinos, cenários e fotografia perfeitos, o longa é um colírio para nossos olhos. As roupas pareciam ter saído diretamente de uma máquina do tempo, vindas da Inglaterra do século XIX, merecendo a indicação que recebeu ao Oscar. Simplesmente maravilhosas! A fotografia é belíssima, os cenários e locações, esplendorosos. Fotografia que, na minha opinião, supera em muito o filme vencedor do Oscar 2006 na categoria, “Memórias de uma Gueixa”.

“Orgulho e Preconceito” mostrou ter também um diretor de elenco fenomenal, porque recolher um time que consegue fazer o filme funcionar da maneira como funcionou (mesmo com um enredo bastante explorado e batido), é tarefa para poucos. A começar por Keira Knightley, que faz a protagonista Elizabeth. Sua atuação emociona e empolga, fazendo com que o espectador saiba o que se passa nos pontos mais ínfimos de sua mente complicada. O galã Matthew Macfadyen interpreta o protagonista masculino, Darcy, com extrema correção. O jeito esnobe de seu personagem é encarnado com naturalidade, dando total verossimilhança à sua atuação. Há de se destacar, ainda, as atuações excelentes de Donald Sutherland e Brenda Blethyn, como os pais das garotas Bennet, e, principalmente, da megera Judi Dench, mostrando a maldade saltando em suas veias.

A cena mostrada na foto acima é a mais espetacular do filme. É onde entra o trabalho da direção nem sempre boa de Joe Wright, mas que mostra um trabalho de câmeras excelente. “Orgulho e Preconceito” é um filme que agrada àqueles românticos exarcebados, mas é capaz de derreter alguns corações de pedra com sua suavidade e sentimentalismo (sem excessos). Não é uma diversão garantida, mas é sim, um filme recomendado para se assistir a dois.


Por Danilo Henrique

Sangue e Chocolate

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Nota: 7.0

Adaptações de livros para o cinema deixaram de ser novidade há muito tempo. Já foram vistas maravilhas, como “Perfume: a história de um assassino” e desastres, como “O Apanhador de Sonhos”. Trazido aos cinemas pelo mesmo roteirista de sucessos como “O Chamado” e “A Chave Mestra”, Ehren Krueger, a partir do livro homônimo de Annette Curtis Klause, “Sangue e Chocolate” (Blood and Chocolate, 2007) não chega a ser uma maravilha, mas agrada bastante.

Vivian (Agnes Bruckner) é uma jovem lobisomen que vive presa e uma profecia, de que será a esposa do líder de sua sociedade, Gabriel. Líder que lhe salvou quando perdeu seus pais na infância, vítimas de caçadores que seguiram seus rastros para encontrar a família. Mas, no entanto, ela conhece Aidan Galvin em uma igreja, e inicia com ele uma amizade. Aidan é um fanático por lobisomens (ou, como gosta de chamar, loup garoux), gosta de estudá-los e fazer novelas gráficas sobre eles e seus costumes. Essa amizade, eventualmente, acaba se tornando um romance entre loba e homem, o que gera um descontentamento geral no grupo de Vivian. Liderados por Gabriel, os membros do clã tentam, a qualquer custo, acabar com esse relacionamento dos dois, chegando ao ponto de tentar causar mortes.

“Sangue e Chocolate” difere-se dos últimos filmes do gênero, como o ridículo “Amaldiçoados”, principalmente pela não utilização de vários clichês. Este longa não considera reais os fatos de que os lobisomens são mortos apenas com uma bala de prata no peito e de que apenas tomam a forma de lobo na lua cheia. Essa é a maior novidade apresentada pela competente diretora alemã Katja Von Garnier, que leva às telas seu 7º longa, o primeiro de maior importância internacional (um de seus filmes foi escolhido a melhor produção alemã)

As cenas de ação em “Sangue e Chocolate” são boas. As perseguições dos lobisomens às pessoas que fizeram ou podem fazer mal ao clã são ferozes e tensas, ajudadas muito pela excelente trilha sonora. Trilha que funciona o tempo inteiro, consegue dar leveza aos momentos de romance entre Vivian e Aidan, obscuridade aos momentos de terror e dinâmica aos momentos de ação. A fotografia, pendendo quase sempre para tons de azul, é bem feita, mas a quantidade de azul, por vezes, chega a incomodar um pouco. Os efeitos especiais não são utilizados em grande escala, até porque os lobos do filme são reais, mas, quando aparecem, não são lá grande coisa. A transformação dos lobisomens é um dos pontos mais fracos do filme, pois não dá medo, apenas acontece.

O elenco do longa não é bom, com exceção de Agnes Bruckner. A protagonista cumpre muito bem seu papel, conseguindo conciliar uma personagem com facetas quase antagônicas: sombria e apaixonada. Apesar de suas expressões serem quase as mesmas em todas as cenas (emburrada), Agnes passa as emoções de sua personagem com correção, deixando muito pouco escapar. O restante é fraco. Hugh Dancy é o protagonista masculino, Aidan, e passa para seu personagem toda a sua apatia e inexpressividade. Suas cenas de romance com Agnes são menos piores, mas nem assim consegue sair da mediocridade. O vilão Gabriel é interpretado pelo fraco Olivier Martinez, que não consegue nos fazer temer toda a sua “maldade e vilania”.

“Sangue e Chocolate” está longe de ser um dos melhores filmes do ano, muito longe mesmo. Mas chegou para dar uma boa retomada no gênero Lobisomen, que contava apenas com o bom “Anjos da Noite” como representante de respeito nos últimos anos, e que foi completamente ridicularizado com o patético “Amaldiçoados”. Não é um filme excelente, mas, apesar da tentativa do diretor de elenco de acabar com tudo, acaba agradando.


Por Danilo Henrique