A Órfã

Nota: 10

Quando lemos a simples sinopse de “A Órfã” (The Orphan, 2009), normalmente pensamos que se trata de apenas mais um terror barato como os que enchem as salas de cinema atualmente. Explorados pela primeira vez em 1956, com “Rhoda”, os terrores envolvendo crianças más ganharam destaque do fim da década de 1970 e em toda a década de 1980, com destaque para “A Profecia” (1974),  “A Colheita Maldita” (1984) e “O Iluminado” (1980). A decadência dos anos 1990 foi superada pela chegada de títulos como “O Chamado” e os remakes dos dois primeiros filmes citados anteriormente na década de 2000, que foi fechada magistralmente por este “A Órfã”. Sem dúvida, o melhor dos filmes citados e um dos melhores da década, não caindo nos costumeiros clichês e sendo um filme de terror incrivelmente acima da média.

John (Peter Sarsgaard) e Kate (Vera Farmiga) são um casal com dois filhos que sofre com a perda de um bebê próximo de nascer. Para suprir a falta da criança, eles decidem adotar uma menina mais velha, a esquisita russa Esther (Isabelle Fuhrman).  Mesmo alertados da dificuldade de adotar crianças com mais idade, o casal é atraído pela maturidade e pelo enorme carisma de Esther. No entanto, Esther não é a garota tímida e inteligente que aparentava ser no orfanato onde vivia. Ela acaba  totalmente com a paz da família, tendo em seu pai a confiança necessária para cometer seus atrozes e revoltantes atos.

Iniciando com a forte cena do aborto de Kate, a trama aumenta de intensidade à medida que passa, assim como sua tensão. Em suas primeiras aparições, Esther conquista não somente seus pais adotivos e sua irmã Max (Aryana Engineer), mas também os espectadores. Por algumas vezes, me peguei torcendo pela garota, principalmente nas cenas em que sofre bullying na escola. À medida que ela mostra sua verdadeira identidade, o espectador age como a mãe, com revolta, ódio e preocupação. Esther é, certamente, uma das crianças mais odiosas e assustadoras que já passaram pelas telas do cinema em toda a história (na minha opinião, está no topo). O modo como age é totalmente frio e calculista, mostrando que a maturidade percebida pelos pais à primeira vista chega a níveis extremos (a primeira cena que envolve uma arma e todos os crimes cometidos por Esther são a maior prova disso). O conjunto das abomináveis ações de Esther são revoltantes, levando espectadores mais envolvidos à trama, como eu, às lágrimas de raiva. Encoberta pelos irmãos através de suas ameaças e pelo pai por sua confiança, Esther é ameaçada unicamente pela certeza de sua mãe de que ela está por traz dos acontecimentos que aterrorizam sua família. Ex-alcoólatra, Kate não tem a confiança do marido, que acredita fielmente em tudo que Esther diz, fechando os olhos para o perigo que ronda constantemente sua casa.

A construção dos personagens é feita calmamente, da melhor maneira possível. Sem pressa para começar a chocar o espectador, Jaume Collet-Serra conduz extremamente bem a trama, dando-nos a oportunidade de conhecer seus personagens. No entanto, as escolhas de “para que lado torcer” acabam não sendo sempre as mesmas ao longo do longa, já que pequenas e cuidadosas reviravoltas (se é que podem ser chamadas assim) estão presentes em boa quantidade. O diretor acerta em tudo. A fotografia escura ajuda e nos permite enxergar perfeitamente as cenas, a boa trilha sonora é muito bem utilizada, as tomadas  e ângulos de câmera são sempre acertados, os sustos vêm em horas oportunas, os cenários e locações são muitíssimo bem aproveitados. Merece um imenso destaque, também, sua direção de atores. Ele faz funcionar imensamente bem o experiente casal Vera Farmiga e Peter Sarsgaard, que mostram uma química indispensável para a verossimilhança. No entanto, o maior ponto para Collet-Serra é o aproveitamento da desconhecida protagonista Isabelle Fuhrman. Ele extrai da jovem de 12 anos uma das melhores performances infantis que já vi no cinema (as atuações serão melhor explicadas no próximo parágrafo). Também marcante é o roteiro escrito por Alex Mace e David Johnson, com seus diálogos sempre inteligentes e o argumento interessante e, na medida do possível, inovador. Cenas que marcam e ficam na cabeça do espectador por vários dias são marca registrada deste filme, que, ainda por cima, diverte qualquer amante do terror. Os efeitos especiais são usados em baixa escala, substituídos pela excelente maquiagem, que é uma das responsáveis pela altíssima qualidade do final do longa, que será explicado mais à frente.

O elenco do longa é, também, um de seus pontos mais fortes (sim, os pontos fortes não acabam!). Desde atores mais experientes a mais novos, todos têm grande destaque, com atuações excelentes e muitíssimo verossímeis. Vera Farmiga, que interpreta a mãe atormentada pela perda do bebê e uma quase-tragédia decorrente de seu alcoolismo, é sensacional em cena. O desespero de sua personagem é visto com perfeição por meio de sua atuação, intensa e sufocante, na tentativa incessante de proteger seus filhos de Esther. Os momentos em que tenta convencer o marido da verdadeira face de Esther são agoniantes, e Farmiga mostra-nos como uma verdadeira mãe se comportaria vendo os filhos em iminente perigo. Peter Sarsgaard, interpretando Peter, não atinge o brilho de Farmiga, mas sua atuação é também excelente. O pai cético convence em seu amor incondicional pela filha adotiva, sendo, por muitas vezes, extremamente irritante. Aryana Engineer é a surda (e, claro, muda) Max, filha mais nova do casal, e tem uma atuação surpreendente. A pequena atriz, que aprendeu a linguagem de sinais na vida real em virtude de ter mãe surda, é excelente em suas expressões faciais meigas e, quase sempre, amedrontadas, fazendo com que a ausência de falas orais não seja sentida. O outro filho do casal, Daniel, é intepretado pelo jovem e experiente Jimmy Bennett, que se mostra muitíssimo promissor como ator em mais uma atuação de alto nível.

Deixei para falar de Isabelle Fuhrman em um parágrafo à parte. A jovem atriz, em seu primeiro trabalho no cinema, dá um show de atuação, ofuscando com facilidade o brilho dos experientes Sarsgaard e Farmiga. Isabelle acerta na entonação de voz, nas expressões faciais, nos gestos, em tudo! Encarnando sua personagem com a alma, a atriz é a grande vilã do ano de 2009 na minha opinião, sendo responsável por um dos papéis mais fortes e maus que já vi. Sua atuação é perfeita, e desbancaria inúmeras atrizes que ainda ganham o Oscar em virtude de seus nomes.

O final do filme é surpreendente e perturbador, sendo verossímil em virtude da ótima técnica utilizada pela equipe. Maquiagem, fotografia, efeitos sonoros, tudo colabora imensamente para a revelação do segredo de Esther, impossível de ser descoberto antes da sufocante seqüência final (que dura cerca de 20 minutos). Um filme forte e cruel que merece ser conferido por todo e qualquer amante do cinema. Para os amantes do terror e suspense, “A Órfã” é uma parada obrigatória, da qual ninguém sai arrependido. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano. Sem dúvida, um dos melhores filmes de crianças más da história do cinema.

Por Danilo Henrique

PS: Uma pequena explicação. Costumeiramente, eu posto, junto das críticas, os respectivos trailers. No entanto, julguei que o trailer de “A Órfã” contém muitas cenas reveladoras de segredos da trama, sendo considerado por mim um grande spoiler. Por isso, estou postando o comercial de TV que, além de ser mais resumido e não contar partes importantes, conta de maneira mais correta o que pode ser visto no filme.


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O Padrasto

Nota: 1.0

Quando assisti a “O Padrasto” (The Stepfather, 2009), pensando em colocá-lo como o primeiro filme da volta desde blog à ativa, imaginei que traria uma boa opção de filme para os que leem esta crítica. Infelizmente, tive uma imensa decepção ao ver que este se trata de apenas mais um remake totalmente sem qualidade como os lançados aos montes todo ano. Baseado no filme homônimo de 1987, O Padrasto foi considerado pelo respeitado site Cinematical um dos piores filmes de 2009, mesmo tendo obtido uma decente bilheteria nos EUA.

Susan Harding (Sela Ward) é uma mulher divorciada, traída pelo ex-marido com sua secretária, que tem três filhos. Seis meses após conhecer David Harris (Dylan Walsh), eles passam a viver juntos, como uma família aparentemente feliz e normal, principalmente após o regresso do filho mais velho, vindo do colégio militar, Michael (Penn Badgley). No entanto, com o passar do tempo e à medida que conhece melhor o novo padrasto, Michael passa a suspeitar que David não é quem realmente aparenta ser e que esconde vários segredos de seu passado.

Baseado em fatos reais, o filme não fez o sucesso esperado e a crítica o recebeu com paus e pedras. Esperava-se de seu remake um novo e melhor modo de contar a interessante história, mas o que se vê na tela é um filme sem força narrativa, sem tensão e, sobretudo, sem construção de personagens. O grande vilão David faz o estilo “paradão” e não desperta no espectador os sentimentos caraterísticos para vilões: ódio, desprezo, medo (o que é ajudado também pela decepcionante atuação do bom Dylan Walsh). As mortes não carregam tensão consigo e acontecem de modo rápido,  trazendo à mente de quem vê sempre os mesmos pensamentos, como “É só isso mesmo?” ou “Nossa, já acabou?”. A fotografia é sem graça, sempre a mesma e não omite detalhes que seriam importantes para passar a sensação de não saber o que está acontecendo. Mas isso tudo não chega perto do problema dos clichês. Ah, os clichês! Presentes em praticamente toda a película, eles irritam e nos fazem saber exatamente o que vai acontecer. O cara que chega quando algo sobre ele está sendo descoberto, uma bateria de celular que acaba quando não poderia acabar, um imprevisto que acontece quando não poderia acontecer, um homem sendo morto quando estava prestes a descobrir tudo sobre o passado do culpado… Há filmes que fazem uso dos clichês em seu favor, mas o diretor Nelson McCormick parecia não ter idéia do que fazer com seu material, colocando mais e mais sustos gratuitos e esperados no meio dos milhões de clichês já existentes. Direção que não conseguiu atingir o clímax do filme em seu momento de clímax, fazendo uma cena final monótona e risível, que nos faz lembrar facilmente dos mais fracos episódios da interminável série Sexta-Feira 13.

Mesmo recebendo uma direção fraca, o elenco do filme acaba se sobressaindo frente aos inúmeros defeitos da produção. Dylan Walsh, conhecido por fazer um dos papéis principais na ótima série Nip/Tuck, é um bom ator, indiscutivelmente. Mas a mesma expressão que fica em seu rosto durante praticamente toda a projeção incomoda, bem como os diálogos imbecis que é obrigado a protagonizar. No entanto, consegue sustentar bem seu personagem, muitíssimo mal construído. Sela Ward cumpre bem o papel de mãe que busca a felicidade após o divórcio, mas também sofre com os diálogos e com a fraca construção de personagens (vamos combinar, todos os personagens são mal construídos, não mencionarei mais isso a partir de agora). Sua crença desmedida em David pode ser considerada justificável, o que não ajuda o filme, já que o excesso de crença jogaria mais ainda o espectador contra o padrasto. O destaque do elenco fica para Penn Badgley, que interpreta o enteado do criminoso, o qual tenta a qualquer custo revelar a verdadeira identidade do homem. Acerta nas expressões faciais e no modo como profere suas falas, sendo o personagem mais verossímil (se é que podemos utilizar esta classificação para o filme) de toda a produção. Sua namorada no filme, a atriz Amber Heard, completa bem o elenco principal, como a pessoa que tenta desanimar Michael em suas buscas. Assim como Penn, sua atuação é corretíssima. As crianças que interpretam os outros filhos de Susan não têm o mínimo destaque no filme, sendo praticamente figurantes.

Enredo mal contado e inverossímil, personagens mal construídos e carência total de tensão ditam o ritmo deste O Padrasto, mais uma refilmagem totalmente desnecessária que agride o que conhecemos do bom cinema. Seu final dá abertura para o remake da continuação feita em 1989, o que promete mais um dos filmes dos quais devemos passar longe. Remakes normalmente são ruins, continuações, idem. Você arriscaria assistir ao remake de uma continuação?

Por Danilo Henrique.