The Fundamentals of Caring

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Nota: 7.5

Ao término das seis semanas de seu curso de cuidador, Ben (Paul Rudd) é enviado para a casa de seu primeiro cliente, sobre o qual nada sabe. Ao ser entrevistado pela mãe, que desejava alguém com mais experiência, Ben é recebido com zombaria por Trevor (Craig Roberts), portador de Distrofia Muscular de Duchenne. O que, nos primeiros momentos, parecia ser uma relação complicada, logo transforma-se em amizade e cumplicidade, que mudará a vida de ambos para sempre. 

Mesmo com uma doença que diminuirá consideravelmente seu tempo de vida, Trevor segue uma vida extremamente regrada e metódica. Tem horários marcados para tudo, come somente waffles e salsicha, não sai de casa – exceto às quintas-feiras, quando vai ao parque das 14h às 15h – e não tem contato com pessoas além de sua mãe e seu cuidador. Sustenta sonhos que não tenta realizar, como ver o maior bovino do mundo e o poço mais profundo que existe, que estão a quilômetros de sua casa. A entrada de Ben na vida de Trevor não serve somente para “limpar sua bunda”, como o garoto insistentemente diz, mas para fazer com que ele não sucumbisse à doença e aproveitasse o tempo de vida que lhe restava. Então, os dois partem em uma viagem onde ambos encontram as descobertas e a liberdade de que tanto precisavam para viver melhor. 

O roteiro de The Fundamentals of Caring (2016), escrito pelo estreante Rob Burnett, é bem simples, e sustenta-se no clássico road movie que já conhecemos. A relação do cuidador com o garoto é explorada de maneira muito íntima, e rapidamente nos vemos envolvidos e nos importamos com o que está acontecendo na tela. Quando Dot (Selena Gomez) entra na viagem, apesar de haver uma quebra no paradigma do enredo – Trevor continua debochando de Ben a cada cena, mas vemos seu lado puxa-saco ser aflorado com a presença da jovem -, a narrativa não é quebrada, não há incômodo, uma vez que a personagem de Selena Gomez tem tanto carisma quanto os outros dois. A direção, também de Burnett, é eficaz, e colabora com o roteiro para a criação de uma história cativante. Os planos abertos, que mostram as paisagens pelas quais a van dirigida por Ben passa, são belíssimos, e dão um ótimo tom visual ao filme. 

Apesar de as atuações não serem o ponto alto do filme, o trio protagonista funciona bastante bem. Mesmo um tanto caricatos, os atores passam sensibilidade e aspereza na medida certa, e tornam aqueles personagens críveis. 

The Fundamentals of Caring é um filme que diverte bastante, tem piadas inteligentes, mas também faz pensar e emociona. Entrar na complicada realidade de Trevor pode ser incômodo, mas deixar-se viajar com seu grupo é uma experiência recompensadora, que resulta em uma ótima sensação que mostra o poder libertador que sair da mesmice e da rotina pode trazer.

Por Danilo Martins 

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Notas Sobre um Escândalo

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Nota: 9.5

“Notas Sobre um Escândalo” (Notes on a Scandal, 2006) é um filme que tem como cenário principal uma escola no subúrbio de Londres, cujos alunos, desprivilegiados e marginalizados, não dão muita esperança aos professores. A maior prova dessa descrença é a chefe do departamento de história, Barbara Covett (Judi Dench), que não acredita na importância nem de um relatório preparado à diretoria. O longa é visto quase integralmente por meio de seus olhos julgadores e amargurados, que, por um lado, gostam do fato de serem temidos por todos, mas, por outro, têm pavor da solidão eterna de uma velhice sem familiares ou amigos verdadeiros.

O marasmo da escola é quebrado pela chegada de Sheba Hart (Cate Blanchett), professora de arte que chama atenção pela juventude, pela beleza e pelas tentativas frustradas de se encaixar em um lugar que claramente não lhe pertence. Os professores a invejam, e alguns a desejam; os alunos a desrespeitam, e alguns também a desejam. E a jovem professora não tem qualquer habilidade para lidar com isso. O fato é que a vida de Sheba, que, durante muito tempo, foi integralmente dedicada ao seu filho que tem Síndrome de Down, muda completamente quando se aproxima de Barbara, única professora que lhe dá abertura para iniciar uma amizade. Barbara, feliz por não ter mais uma vida fria, solitária e vazia, gosta da companhia e da juventude de Sheba, ao mesmo tempo em que a julga por praticamente tudo que faz, em que critica suas roupas e sua família. Sheba usa à exaustão a grande habilidade de Barbara de fazer com que pessoas lhe confidenciem segredos, até os mais constrangedores. Quando Barbara descobre o maior segredo de Sheba, o envolvimento amoroso e sexual com um de seus estudantes, percebe uma grande oportunidade para ter uma companheira para toda a vida.

Se, antes, a vida de Barbara era resumida à mão de ferro com que conduzia suas aulas e pela melancolia de sua vida pessoal, e a de Sheba era dominada por um casamento fracassado, sua aproximação traz consigo um verdadeiro tormento. A professora de história, ciumenta e possessiva, usa a chantagem para manter Sheba perto de si, que passa a viver constantemente sob pressão. O diretor Richard Eyre, um dos principais nomes do teatro britânico, é fantástico ao mostrar o sofrimento e a enorme tensão entre as duas. Com a câmera muitas vezes focando nos rostos e sua habilidade notável em criar forte inquietação com cenários claustrofóbicos, Eyre nos entrega uma direção admirável, e conduz um dos dramas mais angustiantes dos últimos tempos. Este é, sem dúvida, o melhor trabalho do diretor no cinema até hoje, e considero que uma indicação ao Oscar por sua direção seria merecida.

O roteiro adaptado por Patrick Marber é uma obra-prima. Os rumos que a história toma são muito mais importantes que o fato de Sheba ter se envolvido com seu aluno. A habilidade de focar na relação das duas mulheres e colocar o envolvimento de professora e aluno como um pano de fundo é fantástica, e considero um dos maiores acertos de Marber; saber o spoiler de qual é o segredo de Sheba não atrapalha, de maneira alguma, a experiência de assistir a “Notas Sobre um Escândalo”. Os diálogos são belíssimos, e temos algumas frases memoráveis ditas principalmente pela personagem de Judi Dench, como sua definição de como são os estudantes de sua escola e seus devaneios sobre a solidão eterna. Barbara, que, no início do longa, afirma que é ótima para guardar segredos, compartilha os seus conosco, e esse diálogo com o espectador é extremamente bem construído e viabilizado pelo roteiro. Não costumo gostar de personagens lendo cartas ou falando sozinhos, porém aqui temos uma aula de Patrick Marber de como fazer isso não ficar estranho ou brega. Vemos, neste filme, uma profunda discussão sobre poder e medo, em um longa com menos de 1 hora e meia de duração, o que é um feito impressionante. A indicação ao Oscar foi merecida, e acredito que talvez merecesse uma sorte maior na premiação, quando foi derrotado por William Monahan e seu “Os Infiltrados”. A trilha sonora, também indicada ao Oscar, e superada por “Babel”, é linda, tensa, uma das maiores responsáveis pela inquietude de quem assiste ao filme.

A escolha do elenco foi apenas mais um grande acerto deste filme praticamente sem falhas. Judi Dench e Cate Blanchett têm atuações impressionantes, quase pode-se notar as faíscas saindo quando elas dividem a mesma tela em seus momentos de conflito, e suas personagens são incrivelmente verossímeis. Dench nos mostra claramente o efeitos de uma relação doentia; todas as suas expressões se encaixam perfeitamente com os sentimentos e emoções de sua personagem, simplesmente não parece que temos, ali, uma atriz, e, sim, a própria Barbara Covett. A composição da personagem por meio da maquiagem e do cabelo contribuíram imensamente para que Dench estivesse espetacular em cena, e fosse indicada ao Oscar de melhor atriz. O mesmo pode-se dizer de Blanchett; a composição física da personagem foi menos complexa, mas sua atuação é no mesmo nível de Judi Dench, sobretudo em seus momentos mais difíceis, como quando deixa a casa da professora de história e enfrenta os repórteres. Cate Blanchett teve uma merecidíssima indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por uma das melhores atuações de sua carreira. O jovem Andrew Simpson e o veterano Bill Nighy, respectivamente amante e marido de Sheba Hart, também saem-se muito bem em seus papéis menores, mas não sem importância. O desejo declarado do garoto pela professora e a fúria do marido têm grande relevância para o desenvolvimento da história, e, até mesmo, para o desempenho de Dench e Blanchett, e os dois desempenham muito bem essas funções.

“Notas Sobre um Escândalo” pode ser considerado um filme completo, com grandes acertos em todos os aspectos. Diverte, emociona, inquieta, faz refletir. Em momento algum é moralista ou vai pelo caminho mais fácil. É, sem dúvida, um dos melhores filmes de 2006, e deve entrar, o quanto antes, na sua lista de filmes que devem ser vistos.

Por Danilo Martins

Regras do Brooklyn

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Nota: 8.5

Filmes que possuem como tema central a amizade são, normalmente, fadados a ficarem no lugar-comum do sentimentalismo extremo, desmedido e exagerado, como acontece no fraco “Appaloosa – Uma Cidade sem Lei”. Quando querem juntar amizade com máfia, um tema bastante complicado de se explorar, não tem como esperar um resultado bom. E é com grande surpresa que acompanhei os 96 minutos de projeção de “Regras do Brooklyn” (Brooklyn Rules, 2007), que é um ótimo filme, tanto de máfia quanto de amizade (mas devo confessar que o segundo tema supera bastante o primeiro em questão de qualidade de abordagem), que em nenhum momento é apelativo nem incoerente.

Michael (Freddie Prinze Jr.), Carmine (Scott Caan) e Bobby (Jerry Ferrara) são amigos de infância e, desde então, moram no distrito do Brooklyn, em Nova York. Os três viveram juntos até chegarem à idade adulta na década de 80, quando a máfia tomou conta inteiramente do distrito, dando à vida deles um rumo completamente diferente do que imaginavam. Se antes eles tinham de enfrentar batalhas diárias como relacionamentos e responsabilidades profissionais, agora eles têm de estar atentos à influência da máfia em suas vidas, que trouxe constante perigo e aflição ao seu dia-a-dia. Mesmo com um dos amigos, Carmine, ligado diretamente ao grupo mafioso chefiado por Caesar Manganaro (Alec Baldwin), a amizade dos três permanece praticamente intacta, apesar de enfrentarem constantemente problemas decorrentes da máfia no bairro.

Apesar de tratar de assuntos bastante distintos, “Regras do Brooklyn” apresenta um roteiro praticamente sem falhas, que, em momento algum, trata a amizade de Michael, Carmine e Bobby como algo bobo e exageradamente sentimental. Muito pelo contrário, “Regras do Brooklyn” é um filme extremamente sério. Não espere amiguinhos que vivem saindo para bares, enchem a cara, transam com todas as mulheres que conseguem, têm problemas com a família e vêem nos amigos as únicas pessoas que lhes entendem. Este filme é diferente dos outros que vemos por aí. O grande diferencial está na construção dos personagens, muito bem feita pelo roteirista Terence Winter (que escreveu 23 episódios da ótima série “The Sopranos”, da HBO). Mesmo apresentando alguns clichês (como “o amigo zoado”, “o amigo certinho” e “o amigo fora-da-lei”, o roteiro de Winter acerta em cheio na abordagem que dá ao trio de amigos, e também aos personagens coadjuvantes, como o mafioso Caesar e a complicada Ellen (Mena Suvari), colega de faculdade de Michael, que acaba se tornando um pouco mais que isso. Para transpor o roteiro para as telas, foi escolhido Michael Corrente, cujo trabalho eu não conhecia, e que estava sem dirigir um filme desde “Um Tiro na Glória”, em 2000. Corrente tem uma direção bastante segura, e é co-responsável pela eficácia da construção dos personagens de Winter, com uma ótima direção de roteiro. O grande problema de “Regras do Brooklyn” é que, por ter um diretor não muito acostumado a fazer grandes filmes, acaba não tendo uma pretensão de ser um filme grandioso, esbarrando em um excesso de cautela. Poderíamos ter uma abordagem mais aprofundada das questões da máfia, o que nos daria uma explicação melhor acerca do que acontece na tela, mas o que é visto é uma abordagem muito superficial, o que acaba criando algumas dúvidas e incertezas. Corrente preferiu ater-se ao tema principal, a amizade, e não explorar com a devida atenção a interessante máfia do distrito. Mas Corrente e Winter acertam em cheio nas cenas mais tristes do longa, mostrando que, desdo o início, a verdadeira intenção do filme era abordar a amizade do trio. Com leveza e naturalidade, mesmo em face dos obstáculos impostas pela vida, Michael, Carmine e Bobby mantêm-se fiéis uns aos outros, o que pode ser visto, principalmente, na cena final, que leva qualquer espectador às lágrimas facilmente. Interessante também é o fato que a história é narrada pelo personagem de Freddie Prinze Jr., mesmo que ele não esteja onipresente, o que torna sua ligação com o público mais estreita que a dos outros personagens. Além de tudo, o filme trata de vingança, mas não uma vingança qualquer, mas uma vingança “justificada”, que só quem já perdeu uma pessoa importante sabe como é.

Se diretor e roteirista acertaram a mão em praticamente tudo, o que dizer do elenco de “Regras do Brooklyn”? Todos têm atuações muitíssimo seguras, o que não deixa de ser mérito do diretor Michael Corrente, mas eu atribuiria, em maior parte, ao próprio talento dos atores. Freddie Prinze Jr. interpreta o mais carismático dos três amigos, Michael. O ator mostra total segurança ao colocar nas telas o amigo mais certinho, o universitário trabalhador Michael, que luta com todas as suas forças para tirar Carmine do mundo da máfia. Interpretado por Scott Caan, Carmine é o amigo mais politicamente incorreto, um verdadeiro aprendiz de mafioso. Caan cumpre seu papel com muita competência, mostrando que sabe oscilar entre o mafioso durão e o amigo que faz de tudo para ver os outros bem. O outro amigo, Bobby, é interpretado por Jerry Ferrara, que, apesar de não ter má atuação, exagera um pouco em tornar seu personagem o mais “bobinho e imaturo” do trio. Para completar a lista, temos o sempre bom ator Alec Baldwin, como o mafioso Caesar Manganaro. A complexidade de seu personagem, que oscila entre o lado bom de ajudar os amigos de Carmine e, obviamente, o lado ruim de ser mafioso, só poderia ser interpretada por um ator do calibre de Baldwin, que segura as pontas com perfeição, brindando a excelente construção do roteirista com a melhor atuação do filme (mesmo que seu personagem não tenha o mesmo destaque que o trio de amigos).

“Regras do Brooklyn” é aquele tipo de filme que tinha tudo para dar completamente errado, com sua temática complicada, seu diretor acostumado a fazer trabalhos de pouca relevância e a presença de apenas um grande nome no elenco. Contudo, o que temos diante de nossos olhos é um filme bastante competente, que esbarra na falta de pretensão da equipe de produção, principalmente da direção. Com um final tocante, “Regras do Brooklyn” agrada a todos, mesmo àqueles que não gostam de filmes de amizade e de máfia. Uma verdadeira ode à verdadeira amizade!


Por Danilo Henrique

Lições de Vida

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Nota: 10

Quando comédias dramáticas são lançadas, sempre as vejo com desconfiança, pois, em 90% dos casos, os gêneros “brigam” entre si, deixando ou a comédia ou o drama em maior evidência. É o que acontece nos bons “A Banda” e “Estômago”, onde prevalece a abordagem mais dramática do enredo. Um dos grandes trunfos deste “Lições de Vida” (Driving Lessons, 2006) é a homogeneidade de seu roteiro, conseguindo colocar drama e comédia num mesmo plano. Os gêneros andam de mãos dadas, sem entrar em conflito, o que dá origem a um dos filmes mais notórios e perfeitos que já vi.

Ben Marshall (Rupert Grint) é um garoto londrino que, bastante tímido, tem uma família bastante religiosa e ultraconservadora. Apesar de seu pai ser padre, é a mãe, Laura Marshall (Laura Linney), quem o domina completamente, escondendo-lhe praticamente tudo da vida que considera “errada”. Nesse contexto, Laura cede abrigo a um homem, o Sr. Fincham (Jim Norton), segundo ela própria pela vontade de Deus, fazendo com que Ben seja obrigado a trabalhar, para ajudar a sustentar mais uma pessoa na casa. E esta é a chance de Ben conhecer o mundo que lhe foi ocultado durante tantos anos, pois ele vai trabalhar cuidando de Evie Walton (Julie Walters), uma excêntrica e veterana atriz de teatro e cinema.

Junto com a senhora, Ben passa a conhecer uma nova vida, aprendendo diariamente inúmeras lições com a “dama do teatro”. Aprende a desenvolver seu talento para a poesia, a dirigir (coisa que a mãe manipuladora insistia em ensinar, mas o resultado pode ser visto logo na engraçadíssima primeira cena do filme), a aproveitar os momentos bons da vida, sem medo do que posso acarretar. Mas Ben aprende, sobretudo, o valor da verdadeira amizade. Mesmo proibido, Ben acampa (com uma “forcinha” hilária da veterana atriz) e viaja com Evie para Edimburgo, onde acontecerá um recital do qual Evie participará. A presença de Ben faz-se tão necessária na vida da atriz que ela afirma que só conseguirá lembrar os poemas de Shakespeare que ele tanto ensaiaram com a presença dele. E esta é uma das cenas mais tristes do filme, que mostra o quão importante pode ser uma pessoa na vida de outra.

O filme, como já foi falado, conta com uma presença homogênea de dramaticidade e comicidade. O diretor e roteirista Jeremy Brock consegue levar-nos a boas gargalhadas, como na cena da “simulação de acampamento” de Ben e Evie, e a profundas lágrimas, como quando Evie “invade” a peça dirigida pela mãe de Ben, para salvar o garoto das garras da opressora. E tudo é feito com enorme simplicidade, sem a menor pretensão, o que torna a história bastante verossímil e leve. O filme em momento algum acha que é mais do que realmente é, o que lhe dá a cara de verdade. Jeremy tem total controle sobre seus atores, o que lhe dá, também, controle total sobre a trama. O drama é totalmente sem sentimentalismos extremos e melosos, completamente na medida certa; a comédia é leve e agradável, sem apelar pra qualquer tipo de conteúdo pesado. A trama ainda é imensamente ajudada pela sempre efetiva e correta trilha sonora, embalando sem qualquer exagero todos os momentos que se passam na tela.

O elenco é, sem dúvida, um ponto fortíssimo de “Lições de Vida”. O entrosamento entre Rupert Grint e Julie Walters é sensacional, ajudado pelo fato de este ser o quarto filme que fazem juntos (os outros foram “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, “Harry Potter e a Câmara Secreta” e “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”). Este entrosamento, aliado ao imenso carisma, faz o espectador ficar facilmente apaixonado pela dupla, torcendo para que a amizade deles sobreviva mesmo com a resistência da mãe. Individualmente, os dois também têm grande destaque. Rupert Grint dá um verdadeiro show de atuação como Ben, um dos personagens mais bem construídos que já vi em uma comédia dramática. Rupert prova que o diretor Jeremy Brock estava certo ao afirmar que sua escolha para protagonista deveu-se ao fato de o jovem ruivo ser muito pouco aproveitado na série Harry Potter (convenhamos, Rupert é muito melhor ator que seu companheiro Daniel Radcliffe, que protagoniza a série). As mudanças constantes de Ben em virtude do conhecimento da nova vida só são tão notáveis porque Rupert é o responsável por esta tarefa, muito complicada, por sinal. Julie Walters dá a sua Evie o tom certo de excentricidade, que passa por crises existenciais, atitides loucas (e engraçadíssimas) e amor ao seu verdadeiro amigo, Ben.

“Lições de Vida”, como já falei, é o melhor filme de comédia dramática que já vi. Ao longo de seus 95 minutos, somos conduzidos a inúmeros sentimentos, indo da pena de Ben à raiva de sua mãe conservadora. Mas isso tudo é feito de forma homogênea, sem a mínima oscilação negativa, dando ao filme um caráter linear positivo (melhora um pouco a cada minuto). O ritmo não cai em momento algum, e conduz a trama para um terceiro ato surpreendente e emocionante, capaz de arrancar ao mesmo tempo risos e lágrimas. “Lições de Vida”, com sua simplicidade, é uma verdadeira aula de cinema, uma aula de como se deve misturar corretamente dois estilos tão diferentes. Simplesmente perfeito!


Por Danilo Henrique

Conduta de Risco

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Nota: 5.5

Ultimamente, os filmes indicados ao Oscar têm me agradado tão pouco que eu já nem me empolgo ao assistir a um deles. Dentre os indicados ao Oscar 2008, não foram muitos os que me agradaram, apenas “Juno” e “Desejo e Reparação”. Mas eis que eu decido assistir a mais um deles, este “Conduta de Risco” (Michael Clayton, 2007). E eis que eu me decepciono completamente, assistindo a filme de ruim para mediano, que não acrescenta em nada nem ao gênero nem ao próprio cinema.

Michael Clayton (George Clooney) é um ex-promotor público que trabalha em uma firma de advocacia. Seu papel na firma é ser designado para casos em que precisa ser um “faxineiro”, limpando a sujeira dos crimes dos associados. Descontente com o emprego, ele se envolve em dívidas de jogos acumuladas junto com seu irmão e entra em um caso complicadíssimo. Após o renomado adovgado Arthur Edens (Tom Wilkinson) ter um surto de loucura, ficando semi-nu em uma sala de depoimento e pedindo demissão, Michael é indicado para assumir o caso da defesa da empresa de agrotóxicos U/North, responsável por produzir um herbicida que pode provocar câncer de pele e causou inúmeras doenças e mortes. Arthur, em um de seus momentos sãos, ataca a empresa, dizendo que ela é realmente a responsável. É nesse contexto que entra Michael, para tentar evitar a eminente derrota da empresa no processo que já dura 6 anos.

A impressão que “Conduta de Risco” passa ao espectador é que uma coisa nova está para acontecer a cada segundo. A maneira sombria como são mostradas as cenas nos dá a impressão de que o perigo está à espreita, pronto para pegar qualquer um desprevinido. Mas não é o que acontece. O longa é feito da forma inversa, com seu clímax logo no confuso início (que é explicado no início do terceiro ato), quando o carro de Michael é explodido, o que é sucedido por uma volta a quatro dias antes, mostrando o que levou o carro do “faxineiro” a ser atacado. “Conduta de Risco” possui um roteito enrolado e confuso, o que, aliados à seriedade extrema com que é conduzido, torna-o um excelente sonífero. E o mais incrível é que o desenrolar lento demais dos fatos consegue consumir duas irritantes horas, que parecem ser dois dias, tornando o longa uma experiência extremamente cansativa.

O elenco de “Conduta de Risco”, apesar da maneira como é conduzido o enredo, foi muito bem escolhido e conseguiu render sob a batuta do diretor estreante Tony Gilroy. George Clooney tem uma atuação excelente, carregando toda a seriedade e dramaticidade de seu personagem (seriedade, como já dito antes, excessiva), merecendo sua indicação ao Oscar. O elenco coadjuante também se sai muito bem. Tom Wilkinson é excepcional com o complicado Arthur Edens, interpretando-o com um tom real impressionante, fazendo com que nós cheguemos a pensar que aquele é, realmente, o próprio Wilkinson. A atuação de Tilda Swinton como uma das donas da U/North é boa, sim. Mas, na minha opinião, sua indicação ao Oscar e, pior, sua premiação pelo papel, são completamente exagerados, sendo quase uma afronta às excelentes atrizes indicadas, seja em 2008 ou outro ano qualquer. Não vi em sua atuação um merecimento para figurar entre as melhores do ano na categoria Atriz Coadjuvante, assim como não vi em “Conduta de Risco” filme suficiente para estar entre os indicados.

“Conduta de Risco” deve ser assistido com cuidado, pois, para entender seu confuso roteiro, toda atenção é pouca. E isso faz com que nós oremos para o final deste longa que, apesar de ter uma história até bacana, foi completamente estragado por um roteirista que não sabia o que fazer com a idéia que tinha nas mãos.


Por Danilo Henrique

P.S.: Eu Te Amo

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Nota: 9.5

Holly (Hilary Swank) e Gerry (Gerard Butler) são um casal em crise. O casamento de 9 anos começa a dar sinais de enfraquecimento: ela alega que a falta de filhos e a vida financeira estagnada estão acabando com a relação conjugal deles. Ele, por sua vez, diz que a falta de filhos é culpa dela, pois não está preparada para ser mãe. Você deve estar imaginando mais uma história de drama, normal, que nada tem a acrescentar ao gênero. Errado! “P.S.: Eu Te Amo” (P.S.: I Love You, 2007), baseado no best-seller homônimo de Cecelia Ahern é mais do que apenas mais um romance. Ele reinventa o gênero com suavidade e sensibilidade, derretendo o coração do espectador com grande facilidade.

Após as brigas em razão do declínio do casamento, Holly é golpeada com uma tragédia: Gerry morre com um tumor no cérebro. Ela, apesar de enlutada pela morte do marido, cumpre o desejo dele, de ter uma festa com bastante bebida e música em seu velório. A urna de suas cinzas recebe o brinde dos presentes, mas Holly não se conforma com a morte e o modo como ela ocorreu. Com isso, a vida dela torna-se uma ruína. Ela abandona o emprego, fica semanas enclausurada em seu apartamento, que se torna um verdadeiro “chiqueiro”. Mas sua vida ganha uma injeção de ânimo em seu aniversário. Apesar de não desejar comemorar com ninguém, ficar sozinha em seu refúgio, sua família e seus amigos vão visitá-la. E, junto com eles, acontece uma coisa inusitada: ela recebe um bolo e uma fita de áudio enviados por Gerry. Persuadida a comemorar seu aniversário, Holly vai com suas amigas a uma boite gay, em uma das cenas engraçadas do longa.

Mas a comunicação de Gerry não pára por aí. Ele começa a mandar cartas regularmente, tentando conduzir a vida de Holly à felicidade após sua morte. E a estratégia passa a dar certo, pois ela consegue esquecer em parte seu falecimento e tenta ser feliz. Ela chega a viajar para a Irlanda com as amigas, onde revê os pais de Gerry e um membro da antiga banda do falecido marido. No entanto, apesar de suas inúmeras tentativas de buscar a felicidade, suas memórias a atormentam e ela não consegue deixar de vez as marcas deixadas pelos 9 anos de vida conjugal.

Hilary Swank, ganhadora de dois Oscar por suas atuações em “Meninos não Choram” e “Menina de Ouro”, nos premia com mais uma atuação excelente. Ela interpreta com perfeição a protagonista Holly, uma personagem bastante complicada. Consegue dar à sua interpretação a dramaticidade na medida certa, sem extravasar e nem exagerar. É completamente fidedigna a qualquer mulher que perde o marido depois de 9 anos de casados. Ela chora e nos faz chorar, ri e nos faz rir, transmite com leveza e correção seus sentimentos. Atuação digna de ter sido vista com cuidado pela comissão do Oscar, mas que acabou sendo esquecida. Gerard Butler, apesar de não aparecer muito como o protagonista masculino Gerry, cumpre muito bem o seu papel, conseguindo passar segurança. Kathy Bates, interpretando a mãe de Holly, Patricia, é muito boa também, represantando com total exaditão a mãe que não gosta do genro, mas que, acima de tudo, luta pela felicidade da filha.

O roteiro de Steven Rogers e Richard LaGravanese, baseado em livro de Cecelia Ahern, apresenta poucos furos, fazendo os personagens serem bastante convincentes e verossímeis. O único ponto em que, na minha opinião, a dupla falhou, foi na duração do filme, pois há cenas desnecessárias que poderiam ser deletadas sem atrapalhar em nada o entendimento da história. O sentimentalismo é bastante explorado, mas de uma forma comedida e agradável, sem tornar o filme um dramalhão. A trilha sonora colabora bastante com o bom andamento da trama, dando a dramaticidade e o divertimento adicionais às cenas.

“P.S.: Eu Te Amo” não é um filme de romance/drama que cai na previsibilidade o tempo inteiro. Eu duvido que alguém desvende o final da história, maravilhoso por sinal. Aviso aos que vão assistir a este belo filme: prepare-se para ter seu coração totalmente derretido!


Por Danilo Henrique

Perfume: a história de um assassino

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Nota: 9.0

Uma adaptação de um livro de sucesso quase sempre se torna um filme, ao menos, confiável para se ver. Mas o que se esperar quando esse mesmo filme foi pretendido por diretores renomados como Tim Burton e Martin Scorsese? Se você pensou: um filme excelente, que é capaz de agradar a americanos e afegãos, acertou! “Perfume: a história de um assassino” (Perfume: story of a murderer, 2006) é um drama misturado com pitadas de suspense que convence em todos os aspectos, deixando poucas brechas para dúvidas e contestações.

O filme se passa na sombria e suja França do século XVIII. Jean-Baptiste Grenouille nasceu em meio a essa sujeira e caos, de uma forma inusitada: sua mãe, que não fazia questão de seu nascimento, deu à luz embaixo da barraca onde trabalhava na feira. Jean-Baptiste, em seu primeiro choro, garantiu sua vingança à mãe, fazendo com que ela fosse condenada à morte por tentativa de assassinato ao filho. Logo que Jean-Baptiste chega ao orfanato, ele sofre uma segunda tentativa de homicídio: as crianças não aceitam dividir mais o racionado espaço. Mas, assim como na primeira vez, sobreviveu bravamente.

O garoto cresceu e, com o tempo, foi se destacando das outras crianças da classe proletária da França por causa de sua inusitada e espetacular capacidade olfativa. Ele é, inclusive, visto com estranheza e temor pelas outras crianças de sua idade. Grenouille consegue sentir odores a grandes distâncias, e ainda tem a capacidade de sentir o cheiro de coisas que, para as pessoas normais, não têm cheiro, como pedras. Desde a adolescência, Grenouille (agora interpretado pelo bom ator Ben Wishaw) tem o desejo de guardar para si todos os tipo de fragrâncias e conhecer odores novos. É nessa balada que, ao conhecer uma garota na rua e se apaixonar pelo seu cheiro, Jean-Baptiste a assusta e, sem intenção, a mata por sufocamento. Esse fato o perturba e, inconformado por não conseguir guardar o aroma da mulher, Grenouille fica obcecado por aprender técnicas para guardar os odores.

E isso se torna possível quando conhece Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman, excelente), um perfumista quase falido que vê seus negócios decolarem após a chegada do jovem e seu imensurável talento. Atento aos ensinamentos (oportunistas, é claro) de Baldini, ele aprende que todos os odores podem ser capturados e preservados, embora seus métodos não sejam os melhores. A descoberta faz com que Grenouille se mude para a cidade de Grasse, onde aprende a técnica mais eficiente e realiza sua matança. Mas, no entanto, Baldini diz que o perfume de uma pessoa é como se fosse sua alma, o que nos dá a entender que, ao preservar o perfume, ele estaria roubando a alma da pessoa. Jean-Baptiste, durante o filme, parece saber exatamente como roubar a alma de uma pessoa, o que é provado pelo fato de as pessoas ligadas a ele morrerem quase sempre.

Um dos poucos pontos negativos do filme é o exagero feito em uma cena na cidade de Grasse, em que toda a população cai aos pés de Grenouille, como se o perfume fosse capaz de dominar o mundo. A cena deixa o espectador confuso, como deixou a mim mesmo, pois sua surrealidade transpassa os limites do aceitável, do imaginável e do lógico, o que cairia bem em um conto de fadas, mas não em um drama sério como este. Apesar disso, o filme não é comprometido, pois a cena ocorre nos momentos precedentes ao fantástico apagar das luzes, que deixa todos boquiabertos.

“Perfume: a história de um assassino” conta com uma equipe técnica excelente. Os figurinos remontam com extrema beleza a França do século XVIII, tanto no aspecto da realeza quanto da pobreza. Os cenários arrebatadores representam com fidedignidade as ruas e casas da época, fazendo o espectador acreditar que o filme foi filmado mesmo na referida França. Ainda visualmente falando, o filme usa bem a nudez das vítimas de Grenouille, fazendo com que não seja sensual ou depravado, mas cadavérico e assustador. A trilha sonora, apenas correta, rege bem as cenas do filme, sem deixar cair o ritmo. O elenco, composto por nomes como Alan Rickman e sua sempre convincente cara de poucos amigos, e Dustin Hoffman como o engraçado Baldini, ajudam a história a ter o rumo certo. Grenouille é interpretado pelo jovem ator Ben Winshaw, que conduz bem as ações de seu personagem, dando grande dinamismo à sua atuação.

“Perfume: a história de um assassino” é um filme que conta a história de toda a vida de Grenouille, mas sem ser redundante nem apelativo. Sua duração de 150min (2h 30min) à primeira vista é excessiva, mas passa despercebida, tamanho é o dinamismo imprimido ao filme, fazendo com que não seja uma experiência cansativa. Muito pelo contrário, assistir a esse grande filme é uma experiência agradabilíssima e altamente recomendável. A quem gosta de coisas boas, é claro!


Por Danilo Henrique