Wall·E

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Nota: 10

Vez por outra, somos surpreendidos pelo lançamento de filmes notáveis, que nunca cairão no esquecimento. Aqueles filmes que, com uma idéia simples e bem desenvolvida, toca nosso coração e nossa mente a ponto de fazer-nos pensar durante horas, até dias, sobre o que vimos na tela. Em 2008, alguns filmes tiveram esse poder, como é o caso de “O Nevoeiro”, “Sangue Negro” e este “Wall·E” (idem, 2008). Dentre os citados, o único que não surpreende é “Sangue Negro”, pois “O Nevoeiro” é um filme de terror que aborda intensamente a psique humana, e “Wall·E” é a animação mais séria e brilhante que já vi passar pelas telas, podendo ser considerada um verdadeiro marco, já que seu público-alvo é, mais do que jamais foi visto, adulto. Não se pode dizer que o filme foi feito exclusivamente para adultos, mas a verdadeira mensagem passada é de mais fácil compreensão para os mais crescidos.

No ano 2700, a Terra não é mais habitada por humanos, que passaram a viver na nave Axiom. A Terra passou a ser um verdadeito depósito de lixo, e os homens, na esperança de ainda voltarem a viver no planeta, contratarem uma empresa limpar o mundo. Utilizando robôs, a empresa não obteve êxito, pois as máquinas, diante de uma tarefa praticamente impossível, começaram a pifar. A única que resistiu a tal trabalho foi Wall-E, cuja árdua rotina era continuar o trabalho deixado para trás pelas outras máquinas, compactando o lixo existente na Terra e formando torres imensas, que mais parecem prédios. Mas sua rotina é totalmente mudada quando uma nave pousa na Terra, e dela sai EVA, uma moderna robô projetada para encontrar qualquer sinal de vida no planeta, e levar para sua nave. No início assustado com os “poderes” de Eva, Wall-E logo se apaixona pela robô, e os dois passam a viver uma complicada relação, que é bastante atrapalhada quando Eva é levada de volta à nave de onde veio.

Apesar de, aparentemente, ser uma história de amor, o foco de “Wall·E” não é exatamente esse, mas sim a mensagem de preservação da Terra. Mensagem cujo entendimento não é imposto para os espectadores, mas sim passado de forma simples e bastante inteligível, até para crianças. As cenas de Wall-E sozinho na Terra, cercado por pilhas e mais pilhas de lixo, com total ausência de vida (não total, mas isso eu deixo para você ver no filme), no mínimo, fazem as pessoas mais entendidas (leia-se mais velhas) refletirem bastante, e faz as menos entendidas desejarem que tal fato nunca aconteça com nosso planeta. A beleza visual do longa chega a ser incrível, com uma riqueza de detalhes que só ajuda o tom melancólico e sério do filme a ser potencializado. Às vezes, cheguei a visualizar o planeta Terra da maneira como foi retratada no filme, e vi que, se o homem continuar usando sua sapiência para transformar tudo em ciência, aquele é o futuro no nosso planeta azul, que está ficando cada dia com menos tons de verde e mais tons de cinza.

Além da mensagem principal que nos é passada, também devemos ressaltar a própria história do robozinho e do romance entre ele e EVA. Antes da nave aterrisar na Terra e mudar totalmente a rotina de Wall-E, vemos o robozinho em seu incansável trabalho e em seu hobby favorito: colecionar coisas que julga interessantes. Na lista de coisas que chamam a atenção de Wall-E, tem uma caixinha de anel (ele chega a tirar o anel de dentro para brincar com a caixinha), uma raquete de ping-pong com uma bolinha pendurada (o robô, claro, não faz a mínima idéia de como se brinca) um cubo mágico (que só é solucionado por EVA, em questão de segundos), e um extintor de incêndio. A curiosidade de Wall-E faz com que essas cenas em que ele encontra os objetos durante seu trabalho sejam divertidíssimas, dando ao começo do filme um brilhantismo ímpar, fazendo com que a atenção do espectador seja mantida ao longo de todos os 97 minutos de projeção. Quando EVA chega na Terra, em missão de sua nave, Wall-E ganha, a princípio, uma amiga que nunca teve, mas que, com o passar do tempo, passa a não ser exatamente apenas uma amiga. A relação de Wall-E e EVA é muito bonita, o que é reforçado pelo fato de ambos só falarem um o nome do outro. E é este um dos grandes diferenciais do longa, o fato de que os principais personagens não falam, relacionam-se apenas com gestos. Grande parte do filme é passada sem falas, apenas com os sons da movimentação dos robôs e, claro, eles falando o nome um do outro. Quando o cenário muda da inabitada Terra para a movimentada nave Axiom, a qualidade do filme dá uma leve caída, mas mantém-se em um nível poucas vezes visto.

A qualidade audiovisual de “Wall·E” é completamente inegável e indiscutível. A cena mostrada na foto acima mostra o momento em que o casal de robôs, aproveitando a ausência da gravidade, faz uma espécie de dança no espaço. Só por ela, já dá para ter uma idéia do quão bonito e exuberante o visual do filme é visualmente. Com detalhes e clareza nunca vistos, eu me arriscaria a dizer que “Wall·E” é o filme com melhor trabalho visual dentre as animações já criadas. O áudio é tão perfeito quanto o visual. Diante da ausência de diálogo entre os robôs, uma saída deveria ser encontrada, para que o filme não ficasse em silêncio total. Eis que surgem os sons de cada movimento de cada robô, o que soa perfeitamente realista e propício. É tão propício que os mais desatentos não percebem que não há diálogo, visto que o áudio está constantemente ativo. Se essa sacada foi acertadíssima, o que dizer das músicas? “Perfeitas” seria o adjetivo ideal, mas, como já foi usado algumas outras vezes nesta crítica, excelente é cabível. Músicas belíssimas, utilizadas nas horas certas e com os personagens certos. Tudo muito bem encaixado, não deixando margem para críticas. Os dubladores da versão em inglês (não tive a oportunidade de assistir em português) são muito bem escolhidos, principalmente o do capitão (Jeff Garlin) e de Wall-E (Ben Burtt; os sons emitidos pelo robô não seriam tão cativantes em outra voz). Por fim, temos o roteiro, simples, direto e sem furos, que dá origem a uma história magnífica, de qualidade praticamente inigualável.

Falar que “Wall·E” é a melhor animação de 2008 é redundante e bastante óbvio, apesar do lançamento de outras boas animações no ano, como “Bolt”, “Kung Fu Panda” e “Horton e o Mundo dos Quem” (um dos maiores injustiçados nas indicações ao Oscar). Já falar que “Wall·E” é a melhor animação já lançada nos tempos das animações em 3-D não é nenhum exagero, mas sim a retratação da mais pura realidade. Indicado ao Oscar em 6 categorias (Filme de Animação, Roteiro Original, Som, Edição de Som, Trilha Sonora e Canção Original), “Wall·E” é um filme perfeito, considerado por mim favorito a levar, pelo menos, 3 estatuetas [Filme de Animação (a maior barbada da premiação), Roteiro Original e Trilha Sonora]. “Wall·E” é sério candidato a ser um daqueles filmes imortais da Disney, que será lembrado para sempre e, conseqüentemente, virará um clássico dentro de alguns anos.


Por Danilo Henrique

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Ela Dança, Eu Danço

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Nota: 6.0

O lançamento de filmes musicais feitos para público adolescente têm sido cada vez mais freqüentes em Hollywood. Juntamente com a febre “High School Musical”, que chegou ao terceiro capítulo em 2008, veio este legalzinho “Ela Dança, Eu Danço” (Step Up, 2006), cujo título em português é simplesmente terrível (fazendo alusão a uma música de sucesso da época no Brasil), mas cuja história, apesar dos inúmeros clichês, agrada bastante. Mais um daqueles filmes que têm tudo para dar errado, “Ela Dança, Eu Danço” não chega a dar totalmente certo, mas tem certa capacidade de envolver e emocionar o espectador.

A história é bem simples, até bobinha. Tyler Gage (Channing Tatum), um adolescente encrenqueiro, que anda pelas casas noturnas e ruas de Nova York com seus inseparáveis amigos Mac (Demaine Radcliff) e Skinny Carter (De’Shawn Washington) arrumando confusão, depreda e invade uma escola de artes, e é condenado a prestar 200 horas de serviço comunitário no local, como faxineiro. Lá, no entanto, ele conhece uma bailarina que está montando sua coreografia de fim de curso, Nora Clark (Jenna Dewan). Nora, cujo parceiro está impossibilitado de ensaiar por ter lesionado a perna, procura desesperadamente um parceiro para continuar os ensaios até que sua dupla volte, mas não consegue encontrar ninguém à altura nas outras turmas da escola. É aí que Tyler oferece ajuda e Nora, após relutar, obtém autorização da Diretora Gordon (Rachel Griffiths) para continuar seus ensaios com o faxineiro. Tyler, mesmo sendo acostumado somente às danças de rua, acaba se envolvendo com a dança, e supera todos os seus limites para ajudar Nora, enquanto, através da dança, nasce um novo amor.

Perceberam como tudo é bastante óbvio o repleto de clichês? Tudo o que foi escrito acima pode ser visto em vários outros filmes, tanto de qualidade superior quanto de inferior. O que diferencia “Ela Dança, Eu Danço” dos outr0s é que a diretora estreante Anne Fletcher não tem vergonha dos clichês e da obviedade do seu filme, o que lhe dá vários pontos a seu favor. Ela sabe usar extremamente bem o roteiro bobinho escrito a quatro mãos por Duane Adler e Melissa Rosenberg, e não deixa os clichês tão escancarados para o público. Só que impossível não se irritar com a obviedade constante da película, já que a cada momento você visualiza exatamente como é a cena seguinte. Até as “reviravoltas” (que não têm nada de reviravoltas, a não ser na cabeça da diretora e dos roteiristas) são extremamente previsíveis e bobas, não trazendo o mínimo de surpresa para o espectador, mas também não chegando a incomodar. Apesar da presença de tanta obviedade, o filme chega a emocionar em alguns momentos, e o ponto onde ameaça decolar é quando o amor de Tyler e Nora começa a ser explorado. No entanto, o ponto alto do filme são os ensaios da dupla, que se mostra bastante desenvolta para dançar (muito bem, diga-se de passagem) diante das câmeras. Mesmo parecendo um absurdo o desenvolvimento de Tyler de uma hora para outra, as cenas de dança são ótimas, principalmente a da apresentação final que, apesar das “reviravoltas” tentarem, sem sucesso algum, esconder, é feita mesmo entre Nora e Tyler. Outro ponto que merece destaque é o fato de que a diretora não coloca os protagonistas no mesmo plano, dando muito mais destaque a Tyler. São mostradas inúmeras cenas da vida cotidiana do rapaz, enquanto que as cenas com Nora, isoladamente, são bastante resumidas, e sempre mostrando a relação instável que a garota tem com a mãe. Outra personagem que, na minha opinião, poderia ter mais destaque é a Diretora Gordon, interpretada muitíssimo bem pela australiana Rachel Griffiths (sobre quem falarei mais abaixo). Sua participação na trama é boa, mas, em virtude da importância de sua personagem, poderia ter sido mais explorada. Há de se destacar também a trilha sonora do longa. As músicas estão longe de ser a chatice que ouvimos na maioria dos filmes relacionados a música e dança. As músicas tocadas representam perfeitamente as situações expostas na tela, e as que embalam as coreografias são extremamente adequadas e propícias para o tipo de dança apresentado. Acerto imenso so longa, que eu atribuo ao fato de a diretora Anne Fletcher ser uma experiente e renomada coreógrafa norte-americana. No entanto, o grande erro do filme é o de, por vezes, usar mecanismos baratos e desnecessariamente sentimentalistas para tentar emocionar o espectador. O ponto onde isso ocorre descaradamente fica próximo do final, quando há um assassinato totalmente desnecessário, sem o qual a trama não perderia em nada. É uma pena que alguns diretores insistam em lançar mão de tais elementos, que têm cada vez menos espaço no cinema moderno, em seus filmes ainda nos dias de hoje.

O elenco de “Ela Dança, Eu Danço” é muito bem escolhido, com destaque para o protagonista Channing Tatum e para Rachel Griffiths. O protagonista, cujo personagem, Tyler, é muito mais explorado que o  da outra protagonista, Jenna Dewan, tem muito carisma e personalidade, o que o credencia facilmente ao papel que lhe foi dado. Inclusive, na minha opinião, esse carisma do ator foi um dos fatores motivadores para Tyler aparecer muito mais que Nora. Apesar de tanto carisma, sua atuação não chega a ser espetacular, nem a melhor do filme. O posto de melhor do filme fica com Rachel Griffiths, que acrescenta uma grande dose de brilhantismo à sua personagem, a Diretora Gordon. Caso a diretora fosse interpretada por uma atriz não tão talentosa quanto Rachel, com certeza sua importância não seria tão evidenciada, e ela se tornaria apenas mais uma personagem secundária. Janna Dewan interpreta a protagonista feminina da trama, e, mesmo não convencendo, tem uma atuação ok. Os outros coadjuvantes não têm grande destaque, ficando nivelados em um nível regular.

“Ela Dança, Eu Danço” tem todos os elementos possíveis para não ser levado a sério, e para cair no lugar-comum dos filmes adolescentes. Mas é a própria consciência de sua diretora que acaba salvando o filme, que, mesmo estando longe de ser uma obra-prima, acaba agradando e divertindo. Utilizando verdadeiros atores que sabem dançar, vale a pena passar os 103 minutos do filme aguardando pelas cenas de dança, que terminam em uma maravilhosa apresentação final. “Ela Dança, Eu Danço” consegue passar seu recado, mesmo não sendo com a melhor das premissas.


Por Danilo Henrique

Regras do Brooklyn

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Nota: 8.5

Filmes que possuem como tema central a amizade são, normalmente, fadados a ficarem no lugar-comum do sentimentalismo extremo, desmedido e exagerado, como acontece no fraco “Appaloosa – Uma Cidade sem Lei”. Quando querem juntar amizade com máfia, um tema bastante complicado de se explorar, não tem como esperar um resultado bom. E é com grande surpresa que acompanhei os 96 minutos de projeção de “Regras do Brooklyn” (Brooklyn Rules, 2007), que é um ótimo filme, tanto de máfia quanto de amizade (mas devo confessar que o segundo tema supera bastante o primeiro em questão de qualidade de abordagem), que em nenhum momento é apelativo nem incoerente.

Michael (Freddie Prinze Jr.), Carmine (Scott Caan) e Bobby (Jerry Ferrara) são amigos de infância e, desde então, moram no distrito do Brooklyn, em Nova York. Os três viveram juntos até chegarem à idade adulta na década de 80, quando a máfia tomou conta inteiramente do distrito, dando à vida deles um rumo completamente diferente do que imaginavam. Se antes eles tinham de enfrentar batalhas diárias como relacionamentos e responsabilidades profissionais, agora eles têm de estar atentos à influência da máfia em suas vidas, que trouxe constante perigo e aflição ao seu dia-a-dia. Mesmo com um dos amigos, Carmine, ligado diretamente ao grupo mafioso chefiado por Caesar Manganaro (Alec Baldwin), a amizade dos três permanece praticamente intacta, apesar de enfrentarem constantemente problemas decorrentes da máfia no bairro.

Apesar de tratar de assuntos bastante distintos, “Regras do Brooklyn” apresenta um roteiro praticamente sem falhas, que, em momento algum, trata a amizade de Michael, Carmine e Bobby como algo bobo e exageradamente sentimental. Muito pelo contrário, “Regras do Brooklyn” é um filme extremamente sério. Não espere amiguinhos que vivem saindo para bares, enchem a cara, transam com todas as mulheres que conseguem, têm problemas com a família e vêem nos amigos as únicas pessoas que lhes entendem. Este filme é diferente dos outros que vemos por aí. O grande diferencial está na construção dos personagens, muito bem feita pelo roteirista Terence Winter (que escreveu 23 episódios da ótima série “The Sopranos”, da HBO). Mesmo apresentando alguns clichês (como “o amigo zoado”, “o amigo certinho” e “o amigo fora-da-lei”, o roteiro de Winter acerta em cheio na abordagem que dá ao trio de amigos, e também aos personagens coadjuvantes, como o mafioso Caesar e a complicada Ellen (Mena Suvari), colega de faculdade de Michael, que acaba se tornando um pouco mais que isso. Para transpor o roteiro para as telas, foi escolhido Michael Corrente, cujo trabalho eu não conhecia, e que estava sem dirigir um filme desde “Um Tiro na Glória”, em 2000. Corrente tem uma direção bastante segura, e é co-responsável pela eficácia da construção dos personagens de Winter, com uma ótima direção de roteiro. O grande problema de “Regras do Brooklyn” é que, por ter um diretor não muito acostumado a fazer grandes filmes, acaba não tendo uma pretensão de ser um filme grandioso, esbarrando em um excesso de cautela. Poderíamos ter uma abordagem mais aprofundada das questões da máfia, o que nos daria uma explicação melhor acerca do que acontece na tela, mas o que é visto é uma abordagem muito superficial, o que acaba criando algumas dúvidas e incertezas. Corrente preferiu ater-se ao tema principal, a amizade, e não explorar com a devida atenção a interessante máfia do distrito. Mas Corrente e Winter acertam em cheio nas cenas mais tristes do longa, mostrando que, desdo o início, a verdadeira intenção do filme era abordar a amizade do trio. Com leveza e naturalidade, mesmo em face dos obstáculos impostas pela vida, Michael, Carmine e Bobby mantêm-se fiéis uns aos outros, o que pode ser visto, principalmente, na cena final, que leva qualquer espectador às lágrimas facilmente. Interessante também é o fato que a história é narrada pelo personagem de Freddie Prinze Jr., mesmo que ele não esteja onipresente, o que torna sua ligação com o público mais estreita que a dos outros personagens. Além de tudo, o filme trata de vingança, mas não uma vingança qualquer, mas uma vingança “justificada”, que só quem já perdeu uma pessoa importante sabe como é.

Se diretor e roteirista acertaram a mão em praticamente tudo, o que dizer do elenco de “Regras do Brooklyn”? Todos têm atuações muitíssimo seguras, o que não deixa de ser mérito do diretor Michael Corrente, mas eu atribuiria, em maior parte, ao próprio talento dos atores. Freddie Prinze Jr. interpreta o mais carismático dos três amigos, Michael. O ator mostra total segurança ao colocar nas telas o amigo mais certinho, o universitário trabalhador Michael, que luta com todas as suas forças para tirar Carmine do mundo da máfia. Interpretado por Scott Caan, Carmine é o amigo mais politicamente incorreto, um verdadeiro aprendiz de mafioso. Caan cumpre seu papel com muita competência, mostrando que sabe oscilar entre o mafioso durão e o amigo que faz de tudo para ver os outros bem. O outro amigo, Bobby, é interpretado por Jerry Ferrara, que, apesar de não ter má atuação, exagera um pouco em tornar seu personagem o mais “bobinho e imaturo” do trio. Para completar a lista, temos o sempre bom ator Alec Baldwin, como o mafioso Caesar Manganaro. A complexidade de seu personagem, que oscila entre o lado bom de ajudar os amigos de Carmine e, obviamente, o lado ruim de ser mafioso, só poderia ser interpretada por um ator do calibre de Baldwin, que segura as pontas com perfeição, brindando a excelente construção do roteirista com a melhor atuação do filme (mesmo que seu personagem não tenha o mesmo destaque que o trio de amigos).

“Regras do Brooklyn” é aquele tipo de filme que tinha tudo para dar completamente errado, com sua temática complicada, seu diretor acostumado a fazer trabalhos de pouca relevância e a presença de apenas um grande nome no elenco. Contudo, o que temos diante de nossos olhos é um filme bastante competente, que esbarra na falta de pretensão da equipe de produção, principalmente da direção. Com um final tocante, “Regras do Brooklyn” agrada a todos, mesmo àqueles que não gostam de filmes de amizade e de máfia. Uma verdadeira ode à verdadeira amizade!


Por Danilo Henrique

O Pesadelo 2

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Nota: 4.5

Continuações de filmes de terror são, quase sempre, desnecessárias e, em praticamente todos os casos, nocivas ao filme original, já que a qualidade sempre decai um pouco (claro, há raras exceções, como os 3 primeiros filmes da franquia “Jogos Mortais”). O que dizer então das continuações que nem sequer passam pelos cinemas, indo diretamente para as empoeiradas prateleiras de locadoras? E mais, além de tudo isso, o que esperar da continuação de um filme que já foi bastante ruim? “O Pesadelo 2” (Boogeyman 2, 2008 ) derruba algumas dessas espectativas, como a de que seria pior que o primeiro. Não se trata de um filme bom, até porque “O Pesadelo” não serve de parâmetro para nada, mas conseguiram cumprir bem a complicada missão de criar uma nova história para o temido Bicho-Papão.

Laura e Henry Porter são irmãos que, hoje em dia, dividem um grande trauma do passado. No aniversário de 8 anos de Laura (Danielle Savre), um assassino (ou, segundo os irmãos, o Bicho-Papão) invadiu a casa da família e matou o pai e a mãe na frente das crianças. Passados dez anos, ambos sofrem problemas psicológicos decorrentes do trauma, que resultou em um medo extremo de Bicho-Papão (que, no filme, é denominado incorretamente de “bogifobia”, que, na verdade, é medo de duendes e espíritos), mas apenas Henry (Matt Cohen) pode-se considerar curado, em virtude do tratamento que fez na clínica psiquiátrica comandada pelo Dr. Mitchell Allen (Tobin Bell). Seguindo o conselho do irmão, Laura vai para a mesma clínica e, sob a supervisão do Dr. Allen, passa a ser tratada pela psiquiatra Jessica Ryan (Renée O’Connor). Junto com Laura, estão vários outros jovens, com suas mais variadas fobias (fobias de germes, de lugares públicos, de escuro, de engordar etc), que são submetidos a um tratamento em grupo. No entanto, o que Laura encontra não é uma solução para seu problema, e sim um verdadeiro pesadelo quando os pacientes começam a morrer vítimas de seus próprios medos, o que leva nossa protagonista a crer que seu temido Bicho-Papão está por tras disso tudo.

Como dito anteriormente, “O Pesadelo 2” é um filme que trata de um tema complicado e, pior, é a continuação de um filme de má qualidade. Então, por que insistir na idéia de colocar o Bicho-Papão não como um conto infantil, mas como um ser aparentemente aterrorizante? Simples: salvar a história muito mal contada pelo primeiro. “O Pesadelo” foi um dos piores filmes lançados em 2006, com um dos roteiros mais fajutos e sem nexo que já vi, com um enredo muito mais complexo que os pobres roteirista e diretor conseguiam transpor para as telas. Então, “O Pesadelo 2” apresenta um enredo muito menos pretensioso, mais simples e sem grandes complicações e reviravoltas. Apesar das tomadas de câmera sempre bastante óbvias e sustos baratos, o diretor estreante Jeff Betancourt consegue, pelo menos, comandar bem seu elenco que, apesar de ser muito fraco (com exceção do grande chamativo do filme, Tobin Bell), não tem atuções realmente ruins (mais detalhes no próximo parágrafo). O único lugar onde a trama parece apresentar alguma pretensão, ela erra feio, que é nas duas viradas bastante óbvias e imbecis (principalmente a primeira). Além disso, parece que a trama pega carona nos filmes de tortura atuais, como “Jogos Mortais”. Apesar de, a princípio, ser um longa cujo personagem principal é um monstro, vemos várias cenas de tortura obviamente inspiradas na franquia que consagrou Tobin Bell como um dos maiores ícones do terror da atualidade. Encarar os medos para tentarem permacer vivos é uma das forças-motrizes da obra de Jigsaw em “Jogos Mortais”, o que acaba sendo explorado a todo momento. A cena em que mais podemos ver é uma em que uma garota é obrigada a se cortar para retirar larvas de inseto que penetram em sua pele, o que daria um belo jogo para Jigsaw. Mas as semelhanças não param por aí. Em uma das muitas mortes, temos Tobin Bell falando em um gravador com sua conhecida voz absurdamente grave, praticamente descrevendo a morte que está acontecendo, outra particularidade de Jigsaw. Tudo bem, o roteiro não é nem um pouco inspirado nem inovador, mas acaba divertindo bastante com mortes carregadas de gore e sangue. A trilha sonora, mesmo não sendo muito bem utilizada, é ok, contribuindo fundamentalmente para o andamento do filme. As cenas das mortes são muito bem feitas, principalmente aquela em que uma garota é preenchida com uma coisa da qual ela tem bastante medo. A fotografia é regular, por vezes muito escura, mas não chega a comprometer muito.

Bem, falemos do elenco. Claro que muitas pessoas, ao verem o nome de Tobin Bell na capa, nem pensam duas vezes e alugam o DVD na mesma hora. É uma pena que essas pessoas terão a mesma decepção que eu tive, já que seu personagem, o Dr. Allen, aparece pouquíssimo no filme, resumindo-se à seqüência final e a algumas cenas de tratamento dos pacientes. Mesmo assim, Tobin ainda consegue ser o ponto alto do longa, com uma atuação extremamente segura, mesmo não tendo o destaque que teve nos quatro últimos “Jogos Mortais”. O restante do elenco, como dito acima, é fraco  e desconhecido, mas o diretor Jeff Betancourt consegue extrair o máximo de seus atores, obtendo performances razoáveis. Até a protagonista Danielle Savre, que tinha tudo pra ser mais uma adolescente burrinha de filmes de terror, tem boa atuação, conseguindo, por vezes, transpassar as emoções de sua sofrida (e mal compreendida) personagem. O restante do elenco tem atuações abaixo dos dois citados, apesar de não serem ruins, como o irmão de Laura, Matt Cohen, e a psiquiatra Jessica Ryan, interpretada por Renée O’Conner.

“O Pesadelo 2” é daqueles filmes que têm tudo pra dar errado, mas que, no final, acaba apresentando um resultado pelo menos aceitável. Tobin Bell é o principal atrativo (inclusive tendo seu destaque no trailer) e quase não aparece, o enredo é de fácil entendimento e muito pouco criativo e a direção não é a mais segura que já vi. Mas, sinceramente, eu me diverti bastante. Mas eu suplico aos produtores: por favor, façam o favor de não lançarem o terceiro filme, senão nem mesmo as crianças vão temer o pavoroso Bicho-Papão.


Por Danilo Henrique

Madagascar 2

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Nota: 0.75

O final de 2008 foi marcado por grandes estréias no cinema. Estrearam nas telonas por aqui filmes como “Crepúsculo”, “Marley & Eu” e “Coração de Tinta”, mas nenhum desses foi esperado com mais ansiedade que “Madagascar 2” (Madagascar: Escape 2 Africa, 2008) , animação que dá seqüência a um dos melhores filmes do gênero já lançados. Mas o que se vê é um filme extremamente decepcionante, representando um decréscimo inacreditável de qualidade em relação ao primeiro. Aliás, não é só muito pior que o primeiro, mas um dos piores (talvez o pior) filmes de animação já lançado, frustrando todas as expectativas em torno dele.

Alex, Melman, Gloria, Marty, o rei Julien, os pingüins e os chimpanzés estão longe de seu cenário habitual, no distante litoral da ilha de Madagascar, na África. Tentando volta para Nova York com um velho avião de guerra (bem velho mesmo) consertado pelos pingüins  que, obviamente, não resiste à viagem, levando-os mais para dentro da floresta. Isso faz com que os animais do zoológico de Nova York, enquanto esperam alguma solução para que consigam voltar para sua cidade, têm de conviver com outros animais de espécies semelhantes às deles, só que bem mais adaptados à vida selvagem. E é com esse convívio que Alex, o leão, encontra a família da qual se separou quando ainda filhotinho, e passa por várias situações para provarem que ele é (ou não) digno de fazer parte do grupo de leões do local.

“Madagascar 2” é um daqueles filmes que só são feitos para aproveitar o sucesso do primeiro, sem ter nem ao menos uma história decente pra se colocar na tela. História essa que é construída através de uma colcha de retalhos de coisas que já vimos em muitos outros filmes de animação, não apresentando nenhuma novidade (o que já contraria bastante o que foi feito no primeiro filme, cujo enredo era absolutamente criativo). Apesar de ter pegado um pouquinho de vários filmes (como “Os Sem Floresta”, explorando o tema de estarem fora do local onde normalmente vivem), chega a ser vexatória e incômoda a imensa semelhança que o filme tem com “O Rei Leão”. Impossível não se lembrar de Simba vendo Alex, de Mufasa (pai de Simba) vendo Zuba, de Sarabi (mãe de Simba) vendo a mãe de Alex e, principalmente, de Scar vendo Makunga. Os trejeitos dos personagens, incluindo personalidade, são iguais, o que é revoltante se tratando de uma grande produção como essa. Mas, sem dúvida, é mais fácil copiar uma idéia do que criá-la, certo? E parece que o roteirista Etan Cohen (por favor, não confundir com Ethan Cohen que, junto com seu irmão, já ganhou até Oscar de melhor diretor) não estava realmente preocupado com seu roteiro, já que tinha certeza de que o filme faria sucesso. O que vemos na tela é uma exposição de piadinhas imbecis e personagens tentando de maneira totalmente forçada serem engraçados (o que não é permitido pelo péssimo roteiro), causando uma sensação de total desconforto ao espectador. Etan Cohen deu uma verdadeira aula de como se acaba com uma franquia de sucesso, que, se este segundo filme não fosse tão ruim, poderia até ser continuada (coisa com a qual não concordo, mas que virou uma verdadeira moda em Hollywood). Além de todos esses erros, o filme ainda comete mais um, que é o de não conter elementos que ensinem valores às várias crianças que o assistem. Pior, algumas cenas chegam ao absurdo ao usarem violência contra uma velhinha (sim, isso mesmo, uma velhinha!), o que, pelo visto, foi considerado muito engraçado pelo senhor Etan Cohen, já que isso é repetido mais de uma vez. Para completar o pacotão de erros, um dos personagens mais amados pelas crianças, o lêmure Mork, aparece muito pouco, e é ele o maior responsável pelos poucos risos que dei assistindo ao filme.

Bem, como um filme nem sempre é feito só de erros, vamos aos poucos acertos de “Madagascar 2”. Se a história não foi nem um pouco caprichada, o mesmo não se pode falar da parte visual. A computação gráfica utilizada na película é de primeiríssima qualidade, com uma beleza exuberante e um detalhismo impressionante. Nesse quesito, não são cometidos erros, sendo o grande ponto forte do filme. “Madagascar 2” apresenta uma trilha sonora correta, praticamente copiada do primeiro filme. Como tudo em excesso fica ruim, o conhecido refrão “Eu me remexo muito” não embala nem empolga como no primeiro filme, se tornando até um pouco maçante. A dublagem em português é bem feita, dando um caráter mais cômico aos personagens do que suas falas permitiam.

É com sua infinidade de erros (listados e não listados aqui) e raríssimos acertos que “Madagascar 2” se tornou o filme mais decepcionante de 2008, figurando entre os piores do ano. Só espero que nem passe pela cabeça dos produtores fazer mais uma continuação para a franquia, pois seria duro ver os cativantes animais do ótimo primeiro filme serem mais ridicularizados ainda. Fica a torcida para que a tortura a eles pare por aqui.


Por Danilo Henrique