Inferno

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Nota: 5.0

Você que já assistiu a “O Código Da Vinci” (2005) e a “Anjos e Demônios” (2009), sabe que a fórmula dos filmes adaptados da literatura de Dan Brown para o cinema é sempre a mesma. Robert Langdon (Tom Hanks), um famoso simbologista e professor de Harvard, sempre é convocado para resolver algum enigma relacionado à sua área de estudo, e acaba se envolvendo em um mundo de vários mistérios e conspirações. Acompanhado de um par feminino por onde passa, Langdon usa vastamente sua capacidade intelectual e seus conhecimentos de arte, história e símbolos, e consegue nos levar a boas soluções. As cidades históricas são um belo pano de fundo, com suas criptas, igrejas e grandes monumentos. No entanto, há um problema na fórmula de Dan Brown: ela não é inesgotável.

Em “Inferno” (idem, 2016), temos todos esses elementos. Langdon acorda em um hospital de Florença, na Itália, totalmente desnorteado, sem saber onde está. De posse de um objeto que interessa fortemente a organizações poderosas, o professor é perseguido desde dentro do quarto do hospital até o início do terceiro ato, em uma caçada que não se interrompe e não permite que o debilitado simbologista respire. Em sua fuga, Langdon desvenda mistérios da obra de Dante Alighieri, Inferno, buscando respostas para sua falta de memória e para compreender o motivo de estar sendo perseguido. A participação de Langdon na trama é muito menos interessante que a do genial geneticista Bertrand Zobrist (Ben Foster). “Inferno” é aberto com um arrebatador discurso seu a respeito dos malefícios do crescimento desordenado da população. Levando à risca a Teoria Malthusiana, Zobrist contou com a ajuda de uma misteriosa corporação para desenvolver a solução que salvaria a humanidade de sua extinção.

O maior problema de “Inferno” é explorar de maneira risível o mais interessante dos componentes da fórmula de Dan Brown: a mente de Langdon. É interessante a colocação do professor em uma situação de vulnerabilidade intelectual no início do filme – Langdon não consegue se lembrar a palavra para pedir um café -, mas são muito poucos os enigmas desvendados pelo personagem. A análise do “Mapa do Inferno” de Botticelli é rasa e apressada, a associação com o mural de Vasari é artificial e desconexa do “very sorry” dito por Langdon enquanto estava inconsciente no hospital, a importância da expressão “cerca trova” (“busca e encontrarás”, em italiano) é totalmente discutível. Langdon e sua parceira, Dra. Sienna Brooks (Felicity Jones), mostram que são bons em fugir de inimigos bem armados e equipados, mas são personagens substituíveis por quaisquer outros. Em determinada cena, é dito que sem o professor Langdon, ninguém pode encontrar a ameaça criada por Zobrist, mas é difícil acreditar nisso. É uma pena, uma vez que Langdon sempre contou com parceiras que, em conjunto com ele, davam um show intelectual. A Sienna do livro é uma mente brilhante; a do filme, só uma médica astuta.

A direção de Ron Howard é extremamente apressada e, conforme já mencionado, apresenta fugas intermináveis. Não temos tempo para pensar, nem os personagens, por isso a resolução de enigmas é rara e insatisfatória. Os planos abertos, bem explorados nos outros dois filmes, aqui são quase esquecidos – digo quase porque a visão da cisterna de Istambul é deslumbrante. Apesar disso, contamos com boas cenas, como a representação do inferno nas visões de Langdon, e a câmera na mão passa bem o senso de urgência da dupla protagonista. O período de desnorteamento de Langdon é muito bem executado por Howard, tanto com movimentos de câmera quanto de recursos auditivos. O roteiro, muito fraco apesar do bom livro de Dan Brown, apresenta soluções fáceis e simplórias. A descoberta dos planos de Zobrist por Langdon e Sienna dá-se num estalo, como se eles mesmos tivessem tido uma ideia repentina, totalmente sem fundamentação. O mesmo acontece quando a dupla encontra uma máscara que ajuda a resolver o enigma; Sienna não precisa refletir mais que dois segundos para concluir que ela estava coberta de gesso-cré, e que deveria ser passado sobre ela um pano com água. A preguiça de focar no mistério e o consequente excesso de “ação” torna o filme uma experiência cansativa. As reviravoltas e surpresas são interessantes, porém tudo é feito tão às pressas e sem ambientação que nem conseguimos digerir – afinal, tempo para apreender informações é algo que não dispomos ao assistir ao longa. Fica a impressão de que os imprevistos são todos gratuitos, feitos para impressionar, com pouco peso narrativo.

“Inferno” conta com um desenvolvimento de personagens fraco, e com atuações burocráticas, até mesmo de Tom Hanks e da ótima Felicity Jones. Não há verossimilhança, os diálogos são, muitas vezes, bobos, o que prejudicaria o trabalho do melhor dos atores. Há uma queda de qualidade absurda em relação aos dois filmes antecessores, que tiveram suas boas premissas executadas de maneira muito mais consistente e interessante. Não que “Inferno” seja um filme ruim, mas nunca alcança, nem de longe, todo seu potencial. O livro que originou o filme teve sua história modificada em alguns pontos-chave, que atrapalham a experiência como um todo e vão desagradar a quem já o leu. 

Mesmo com bons momentos na direção e de aspectos visuais, “Inferno” é só mais um filme que renderá boa bilheteria, mas que será esquecido em pouco tempo. Quanto ao ótimo Dan Brown, acredito que seja necessário explorar horizontes diferentes do professor Langdon, ou, ao menos, não autorizar sua adaptação para o cinema. Nos livros sua fórmula ainda funciona, mas nas telas já deu o que tinha que dar.

Por Danilo Martins


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Truque de Mestre

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Nota: 5.5

Golpes divertidos + ritmo alucinante + excelentes interpretações + roteiro raso e limitado. Essa é a fórmula que levou “Truque de Mestre” (Now you see me, 2013) a arrebatar espectadores, arrecadar mais de US$ 350 milhões, receber uma cretina continuação em 2016 e a promessa de mais uma, programada para estrear em 2017. O filme segue pelo caminho mais seguro que poderia encontrar para o sucesso, faz muito bem o que se propõe a ser e, se não for encarado com muita seriedade, garante um ótimo divertimento. 

A história gira em torno do quarteto formado por Daniel Atlas (Jesse Eisenberg), Henley (Isla Fischer), Merrit (Woody Harrelson) e Jack (James Franco). Atlas é um mágico com alguma fama, Henley é sua ex-assistente que conseguiu seguir uma boa carreira solo como mágica. Jack usa seus poderes de ilusionismo para praticar pequenos furtos, enquanto Merrit é um mentalista especializado em hipnose, e também lança mão de seus poderes para enganar pessoas. 

Os quatro têm suas vidas mudadas quando são convocados por uma pessoa misteriosa que lhes incube a missão de expandir os horizontes de suas magias. O quarteto, que recebeu o nome de “Os Quatro Cavaleiros”, passa a fazer shows onde roubam bancos, cofres e contas bancárias repletas de dinheiro. Ciente do poder dos ilusionistas, que fizeram milhões de reais sumirem de um banco em Paris e pararem nas mãos da plateia do show ocorrido em Las Vegas, o FBI destina o agente Dylan Rhodes (Mark Ruffalo) para a missão de capturar o quarteto. Para tanto, conta com a ajuda da jovem agente francesa da Interpol, Alma (Mélanie Laurent), e do ex-mágico Thaddeus Bradley (Morgan Freeman), que largou sua carreira para desmascarar truques de ex-colegas de profissão. 

A premissa de “Truque de Mestre” é muito interessante. Os mágicos conseguem encantar a própria plateia presencial e quem está assistindo pelas telas, de tão engenhosos e incríveis que são seus truques. O problema é que, muitas vezes, o encantamento não é suficiente. Na maior parte do longa, somos hipnotizados pelas cenas muitíssimo bem dirigidas pelo competente Louis Leterrier. O diretor, responsável por filmes bem recebidos pela crítica como Carga Explosiva e Cão de Briga, imprimiu um ritmo frenético às cenas, o que cai muito bem ao filme, uma vez que isso consegue mascarar para os menos exigentes os graves problemas que o terrível roteiro possui.

Não é possível levar “Truque de Mestre” a sério. Se você tiver isso em mente, vai conseguir aproveitar os méritos do filme. No entanto, não há como deixar de comentar sobre o roteiro, que eu considero uma brincadeira de mau gosto. As mágicas feitas pelos Quatro Cavaleiros são dignas das aulas de Feitiços de Harry Potter – talvez nem em Hogwarts uma mulher saia voando dentro de uma bolha de sabão -, e não há como aceitá-las em um filme que não se rotula dentro do gênero “fantasia”. Algumas situações simplesmente são inadmissíveis, como uma perseguição muito semelhante ao game GTA, onde o carro que persegue sempre está no encalço do perseguido, independentemente de outros carros que se colocam no caminho ou de freadas bruscas que ocorrem. O personagem de Morgan Freeman é mais onisciente que o Deus interpretado pelo ator em “Todo Poderoso”; somente isso justifica que ele sempre saiba exatamente o que os mágicos fizeram em seus golpes, estando ciente de informações que são impossíveis que ele conheça. Há, ainda, um acidente cuja explicação é muito difícil de engolir, e só é aceito pelo público em virtude de um bem executado truque de câmera de Leterrier – este, o melhor mágico do filme, sem sombra de dúvida. Somando isso à canalha revelação final, que em nada acrescenta à experiência, além de inúmeros outros problemas, temos um roteiro sofrível, e não inteligente como pode parecer à primeira vista e sem prestar muita atenção.

Em uma narrativa, o autor deve conhecer profundamente seus personagens, para que haja verossimilhança e uma boa construção da história. No entanto, parece que os três roteiristas de “Truque de Mestre” – Ed Solomon, Boaz Yakin e Edward Ricourt – nem se deram o trabalho de desenvolver uma história para seus personagens. Não se sabe absolutamente nada sobre os mágicos, apenas que eles fazem mágicas; nada sobre os investigadores, apenas que eles investigam; nada sobre o ex-mágico, apenas que ele resolveu se diferenciar dos demais e ganhar mais dinheiro desvendando truques. Há uma preguiça surreal do trio de roteiristas em fazer seus personagens serem críveis, e um uso descarado de clichês na apresentação dos mesmos. O chefe do grupo, o excluído do grupo – quem assistir ao filme olhando no celular de vez em quando só vai notar a presença do personagem de James Franco no final do longa -, a investigadora bonitona, o investigador desesperado que não vê saída para a resolução do problema. Apesar disso, contamos com atuações muito boas de todos os atores, que compraram a ideia do filme e fizeram excelente trabalho – sobretudo os sempre ótimos Jesse Eisenberg e Woody Harrelson.

O público que busca entretenimento não irá se incomodar com os diversos problemas de “Truque de Mestre”. Como já mencionado acima, é um filme feito para se divertir, e atinge seu objetivo para aqueles que o assistem sem muitas expectativas. A direção delirante e ótima, associada a uma montagem ágil e não tão boa assim, além dos bons atores, proporciona uma boa experiência no geral, e salva o longa de um total fracasso. 

Por Danilo Martins

12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição

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Nota: 8.0

O sucesso da cinessérie The Purge ao redor do mundo, principalmente nos Estados Unidos, é evidente desde o primeiro filme, lançado em 2013. Com o orçamento de “Uma Noite de Crime” (The Purge) na ordem de US$ 3 milhões originando um faturamento de bilheteria de quase US$ 90 milhões, era evidente uma continuação. “Uma Noite de Crime – Anarquia” (The Purge – Anarchy, 2014) mostrou-se um filme infinitamente mais competente que seu antecessor em todos os aspectos, o que não pode ser justificado somente por questões orçamentárias – foram gastos US$ 9 milhões para a realização da continuação -, mas pelo conjunto da obra. Não é de surpreender que uma nova sequência fosse feita, e “12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição” (The Purge – Election Year, 2016), chegado ao Brasil nesta quinta-feira (06/10), não decepcionou.

Este terceiro filme ocorre dois anos após o segundo. Como de hábito, há o evento anual chamado “the purge”, ou “a noite da purga”: uma noite em que, por 12 horas, qualquer crime é permitido, incluindo assassinato. É ano de eleição nos Estados Unidos, e a noite da purga é o principal motivo da grande polarização entre os dois candidatos: o religioso Edwige Owens (Kyle Secor) e a Senadora Charlie Roan (Elizabeth Mitchell). Enquanto Owens acredita que a noite da purga é essencial para a purificação da alma dos americanos, que extravasam seus maus sentimentos durante essa noite onde tudo é permitido, a Senadora Roan prega que a selvageria é dispensável e promete acabar com o evento. Em seu discurso, Roan deixa claro que os interesses para a criação da noite da purga são unicamente destinados ao extermínio dos mais pobres, que não têm como se proteger, e cuja morte seria um alívio às contas e às políticas sociais do país. No entanto, a Senadora precisa sobreviver aos ataques de seus opositores nessa noite para colocar em prática seus ideais, e deverá contar fielmente com seu segurança particular, Leo Barnes (Frank Grillo), o sargento que buscava vingança no segundo filme.

O mérito de “12 Horas para Sobreviver” está, principalmente, no fato de conseguir explorar nuances inéditas da franquia. Enquanto o primeiro filme mostrou uma visão mais intimista da noite de crime, sob o ponto de vista de pessoas ricas que conseguiam se proteger e tiveram suas fragilidades expostas, o segundo abordou aqueles menos favorecidos que precisam ficar nas ruas e participar da purga, este terceiro foi além ao explorar o mundo de quem está por trás do evento anual. O foco no caráter político eleva o potencial de debate da cinessérie, trazendo à tona definitivamente a questão social; o mundo das gangues, os interesses de quem apoia a purga, as pessoas que buscam vingança, aquelas que têm algo além de suas vidas ameaçado pelos crimes autorizados, e aquelas que, ao contrário da maioria da população, resolve fazer o bem na noite de crime. É possível ver “12 Horas para Sobreviver” como um estudo sociológico de uma realidade que, mesmo distópica, tem uma maior aproximação ao nosso mundo do que podemos querer admitir.

Mesmo tendo sido filmado muitos meses antes do início efetivo da corrida eleitoral americana, é possível ver claramente as semelhanças entre os candidatos da ficção e Hillary Clinton e Donald Trump. Coincidência, ou não, isso garante ao filme um interesse ainda maior daqueles que estão por dentro dos acontecimentos nos Estados Unidos da realidade, e é mais um ponto favorável ao roteiro de James DeMonaco.

Além da qualidade do debate proposto por DeMonaco, o roteiro tem muitos outros acertos, bem como a direção do mesmo DeMonaco. É possível ver o tempo inteiro a insanidade da população, tanto nos momentos em que vemos pessoas atacando umas às outras, gritando e dançando ao redor de corpos, tanto quando são mostrados os bastidores da purga. Os planos mais fechados de DeMonaco, que podem ser vistos negativamente no sentido de expor o baixo orçamento do filme – com apenas US$ 10 milhões é difícil encher as ruas com pessoas loucas sedentas por sangue -, foram um grande acerto na minha opinião. Podemos ver nos olhos das pessoas as suas motivações, construídas culturalmente ao longo do tempo e autorizadas por quem tem o domínio do país, e isso nos permite entrar mais a fundo na história. No entanto, esses mesmos planos fechados podem passar um pouco menos tensão e sensação de urgência, porém nada que comprometa o resultado final.

O filme conta com boas atuações, sobretudo da dupla de protagonistas – Mitchell e Grillo. Os personagens, cuja construção é absolutamente satisfatória, todos têm relevância, e o elenco dá conta de transmitir as emoções duais e difíceis de quem vive em uma noite onde tudo é permitido. O figurino também é digno de elogios; as cores vibrantes, presentes em muitas das máscaras e fantasias usadas pelos participantes da purga, servem perfeitamente para mostrar o caráter sádico e insano dos personagens, principalmente aquela que busca vingança a todo custo, e aquela que ilustra essa publicação. Os atos de violência também são muito bem representados visualmente, com mortes caprichadas e muito sangue voando pela tela.

“12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição” consolida a franquia como parte relevante do cinema americano, e mostra que consegue se renovar a cada filme. Aqui não temos um salto de qualidade em relação a “Anarquia”, mas isso em nada não depõe contra o longa. É uma pena que sua precária distribuição brasileira o tenha levado a tão poucas salas. O Brasil também trouxe ao filme seu maior pecado: a horrível tradução, que pode deixar o público confuso quanto ao pertencimento à franquia The Purge. Tendo estreado nos Estados Unidos no início de julho, este terceiro filme apresenta ótimo rendimento de bilheteria – faturou, até o momento, mais de US$ 115 milhões -, e acredito que a franquia ainda tenha fôlego e história suficientes para ganhar mais uma continuação. Resta-nos esperar para ver, e torcer para que o potencial de renovação, mostrado a cada novo filme, seja mantido e explorado.

Por Danilo Martins

Hitman – Assassino 47

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Nota: 2.0

O mercado cinematográfico vem sendo invadido e bombardeado com adaptações de games para as telonas. Os diretores não se cansam de explorar esse batido e fraco mercado (principalmente o alemão Uwe Boll, que é o mais persistente que conheço em matéria de fazer adaptações ruins) e as produtoras não têm o bom senso de pararem de aceitar roteiros desse tipo. Como em Hollywood nem tudo é como pensamos, “Hitman – Assassino 47” (Hitman, 2007), baseado no jogo homônimo da EIDOS, acabou sendo lançado, e mesmo com seu orçamento recheado e boa bilheteria, provou de vez que adaptar games quase nunca é garantia de qualidade.

Uma instituição denominada “A Agência” acolhe órfãos e crianças abandonadas para que se tornem especialistas em artes marciais e em manuseio de armas, visando a criação de assassinos de aluguel. As crianças não recebem nomes, mas sim números de códigos de barras, sendo chamados pelos dois últimos numerais. É daí que surge o Agente 47 (Timothy Olyphant), que, nesta trama, é contratado para assassinar um poderoso político russo, irmão de um igualmente poderoso traficante do país. O que 47 não esperava era que essa nova missão tratava-se apenas de uma tentativa de incriminá-lo em uma trama política, e será perseguido pela Interpol, pelos militares russos e pela própria agência que o criou. Cercado por todos os lados, 47 tem a seu favor apenas os ensinamentos que recebeu quando criança, em uma tentativa desenfreada de descobrir o autor dessa armadilha para ele.

O grande problema para “Hitman – Assassino 47” emplacar é o próprio roteiro, muitíssimo mal adaptado por Skip Woods (cujo trabalho eu não conhecia até este filme). Tudo é bastante previsível e comum, o que nos dá a séria impressão de que já vimos tudo isso em outro lugar (mesmo sem ter jogado o game). A começar pela história, bastante explorada e batida: quantos filmes de ciladas para tramas políticas você já viu em sua vida, mesmo se você não costuma assistir a filmes de ação? Qual a graça de colocar o personagem principal rodando o mundo inteiro à procura de confusas respostas e vingança, se já vimos isso em inúmeros outros filmes? O roteiro parece ser uma verdadeira colcha de retalhos, com um pouquinho de vários filmes que deram relativamente certo. E isso não é nada bom. Se o roteiro já não é bom, o que esperar da direção de um estreante em Hollywood, com um orçamento ótimo e a responsabilidade de transpor bem um game de grande sucesso para as telas? Pois o que vemos é Xavier Gens sem saber o que fazer com um roteiro ilógico e um elenco fraco. Para “compensar” de alguma forma, Gens abusa dos efeitos especiais, que são razoáveis, mas não conseguem fazer o espectador transbordar de adrenalina como acreditava ter feito. Aliás, o que mais falta no longa são motivos para o espectador se empolgar, já que todas as cenas, mesmo as de luta, acabam antes de atingirem seu limiar, além de uma trilha sonora bastante ineficaz. Ao invés disso, vemos confusão, fatos jogados sem maiores explicações, confusão, viagens do protagonista, confusão, lutas mal feitas e mais confusão. Já deu para perceber que a lógica não predomina, certo? Eis que, tendo em vista o desastre que poderia ser o filme, o diretor introduz uma reviravolta perto do final, que, provavelmente, ficou boa para seus olhos. O que acontece de fato é que todo mundo esperava essa mesma reviravolta, uma das mais tolas que já vi no cinema. Pobre Xavier Gens, Leigh Wannel e James Wan poderiam dar-lhe algumas aulas de como se fazer uma reviravolta decente. Apesar de tudo, “Hitman – Assassino 47” tem lá suas cenas legais, e conseguem entreter ligeiramente o público, mesmo que nada chegue ao ponto certo.

Se roteiro e diretor não ajudam, espera-se que o elenco segure as pontas, certo? Errado! A começar pelo protagonista, o mecânico Timothy Olyphant, que faz seu primeiro papel como protagonista. Antes mesmo de vermos sua interpretação, tendo em vista seus trabalhos anteriores, era inegável que ele não merecia tal papel, que quase foi assumido por Vin Diesel. Olyphant é um verdadeiro robozinho em cena, tanto no modo de falar quanto no de agir, tornado seu personagem bastante inverossímil e pouco carismático. Se Olyphant é ruim, o que dizer de Olga Kurilenko, que interpreta o affair do Agente 47. Sua atuação é totalmente inçossa e desprovida de qualquer emoção, sendo mais mecânica ainda que o ator protagonista. Ambos não têm o mínimo de química para contracenarem, o que incomoda bastante àqueles que não ficam atentos esperando apenas a próxima cena de luta. Henry Ian Cusick não chega a ser ruim como os dois anteriores, mas seu traficante russo durão não convence a ninguém. A melhor atuação acaba sendo a de Dougray Scott, como Mike, conseguindo transmitir um pouco de ação para a tela.

“Hitman – Assassino 47” é um filme de ação em que faltam vários ingredientes essenciais, como um protagonista atuante, um elenco coadjuvante razoável e boas doses de adrenalina. Estando tudo isso em falta, resta-nos rezar para que as produtoras tomem semancol e parem de aceitar roteiros baseados em games, o que, espero eu, está ficando cada dia mais perto.


Por Danilo Henrique

Terapia Intensiva

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Nota: 8.0

Surge mais um filme que trata de um assunto delicado: a homossexualidade. Mas, desta vez, ele não está mascarado nas piadas homofóbicas e lições de moral presentes em comédias como “Eu os Declaro Marido e… Larry!” (filme de que, como podem ver abaixo, eu gostei), mas traz polêmica ao explorar o gênero ação, neste “Terapia Intensiva” (Shock to the System, 2006).

Don Strachey (Chad Allen) é um detetive gay assumido e casado. Certa noite, é procurado por um jovem chamado Paul Hale (Jared Keeso), querendo um trabalho seu, incubindo-lhe a função de procurar uma pessoa. Mas essa pessoa não é revelada, visto que acontece uma tentativa de atropelamento de ambos e Paul foge. No dia seguinte, Don encontra um rapaz morto, aparentemente por suicídio, e se depara com o corpo do próprio Paul. Intrigado pelas peças que não se encaixam com um suicídio, Don resolve investigar, mesmo sem o pagamento da mãe de Paul, e descobre que o rapaz era garoto-propaganda de uma clínica psiquiátrica que utiliza a psicologia e a religião para converter gays em heterossexuais.

Tendo esse ponto de partida, Don penetra na clínica como se fosse um “paciente”, para colher o máximo de informações sobre Paul e uma possível causa para sua morte. Apesar de encontrar grande resistência dos pacientes e do dono da clínica, Trevor Cornell (Michael Woods) – que também é o médico que “cura” os gays -, Don consegue descobrir alguns fatos que apontam para um provável assassinato. E, dentre outros, o fato de Trevor e Paul terem brigado dias antes da morte dele, aponta para que o médico tenha sido o responsável pela morte do rapaz.

“Terapia Intensiva” é um filme que trata de um assunto delicado, como qualquer tipo de preconceito, e se mostra competente ao tratar do assunto. Não deixa brechas para um preconceito infundado, todo o tipo de represália à homossexualidade tem relação direta e é fundamental ao desenvolvimento do enredo. E, quando aparece esse resquício de preconceito, ele é colocado em xeque pelo bom roteiro, passando uma ideia de total liberalismo. Alguns filmes que contém a homossexualidade em sua essência, por vezes, têm medo de mostrá-la propriamente dita, o que não ocorre em “Terapia Intensiva”, pois são mostradas inúmeras cenas de amor entre Don e seu parceiro, Tim Callahan (Sebastian Spence). Mas nenhuma cena é capaz de superar aquela em que Don conta ao marido suas histórias no exército, que o levaram a ser expulso das forças armadas. Emocionante a ponto de fazer com que os olhos de qualquer pessoa, mesmo aquelas mais duras e/ou homofóbicas, derramarem lágrimas descontroladamente. Simplesmente arrebatadora.

“Terapia Intensiva” consegue combinar boas cenas de ação com ótimas dramáticas. Mas, por se tratar de um filme de ação, as cenas movimentadas acabam por se tornar insuficientes, não tanto na qualidade, mas na quantidade. Há cenas dramáticas suficientes para fazer um filme de drama, com bastante qualidade, mas isso acaba não se encaixando no gênero do longa. Em algumas raras situações, os diálogos são um pouco repetitivos e maçantes, mas nada que possa comprometer muito o desenrolar da história.

O filme conta com um elenco desconhecido, mas satisfatório. Destaque para o protagonista Don Strachey, interpretado pelo bom Chad Allen. A dramaticidade de Allen está em sua corrente sanguínea, mas nem sempre ele consegue empolgar nas cenas de ação. Muito bom também é Michael Woods, que interpreta o Dr. Cornell com muita segurança. A Sra. Hale, interpretada por Morgan Fairchild, convence muito com sua dualidade: o amor pelo filho e o preconceito contra homossexuais.

“Terapia Intensiva” tem um desfecho com ótima dose de imprevisibilidade, deixando os espectadores boquiabertos. É uma produção canadense, país que não possui grande destaque no mercado cinematográfico, que agrada muito, principalmente àqueles que são totalmente contra o estereótipo criado para pessoas que cumprem a lei, de que não podem ser homossexuais. O filme defende a causa e deixa uma lição: homossexuais também são seres humanos, capazes de cumprir qualquer função designada, mesmo que esta tenha a “cara” de heterossexuais. Bela mensagem, belíssimo filme.


Por Danilo Henrique

V de Vingança

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Nota: 10

HQs, ao serem adaptadas ao cinema, devem ter, sobretudo, altíssimos índices de ação, uma direção firme e um roteiro criativo e cuidadoso. Quando essa HQ é de um gênio como Alan Moore, a direção é dos sensacionais criadores de Matrix (Andy e Larry Watchowsky), um roteiro alucinante e, de brinde, um elenco formidável, surge um espetáculo como esse “V de Vingança” (V for Vendetta, 2006).

Em um futuro próximo, a Inglaterra vive um governo autoritário e repressor. O mundo não está com a cara atual, os EUA são chamados de Antigos Estados Unidos e vive na miséria. Nas ruas inglesas, o preconceito contra homossexuais e negros impera, e, entre as 22h30 e 5h30, o toque de recolher é a lei. E é nesse período que a protagonista Evey (Nathalie Portman) sai num dia quaquer para encontrar uma pessoa. Então, ela é abordada pelos “Homens-Dedo”, responsáveis por fiscalizar as ruas durante o período de recolhimeto. Os homens, tentando estuprá-la, são surpreendidos pela aparição de nosso herói mascarado, “V” (Hugo Weaving), que salva a moça. Como retribuição, ela aceita ir assistir com ele a um “concerto  musical”. Na verdade, trata-se do show do ataque terrorista ao Old Bailey, o maior símbolo de poder da nova Inglaterra. É só o início da revolução proposta por V, que tem o objetivo de acabar com o regime totalitário inglês e de que a população fique ao seu lado na construção de um Estado novo. Para isso, ele convoca o povo inglês para um novo atentado, no dia 5 de novembro do ano seguinte.

O filme é de uma complexidade evidente. Não é qualquer um que consegue compreender as idéias revolucionária de V, e também não é qualquer um que as aceita. Trazer um herói como V aos cinemas, que usa a violência para alcançar seus ideais, é marca da coragem dos irmãos Watchowsky que, além disso, gostam muito da idéia de fazer filmes baseados no futuro. V utiliza as mais variadas formas de fazer sua revolução, com atentados terroristas, assassinatos e seqüestros. Mas, por trás desse “cruel criminoso”, há um homem. Um homem que luta pela vingança de seu passado. Contra aqueles que o trancafiaram e o usaram paras testes com armas nucleares. Contra aqueles que roubaram parte de sua vida, que o obrigaram a cobrir cada parte de seu corpo, a viver escondido, para não assustar as pessoas. Seu desejo de vingança é justificável, pois não há pessoa no mundo que aceite passivamente um atentado contra si mesmo. Seus meios não são os mais adequados, mas os fins são absolutamente humanos.

A palavra “vingança” raramente vem separada da palavra “ódio”. E não é em “V de Vingança” que elas desatam. V tem ódio das pessoas que o fizeram viver uma vida diferente daquela com que todos nós sonhamos, e transporta esse ódio para o desejo de libertar a Inglaterra das mãos daqueles que o fizeram passar pelas maiores provações de sua vida. Evey teve seus problemas na infância com os pais, que foram mortos pelo governo, mas seu sentimento de ódio é acalorado por V, que exerce em sua vida um influência imensa, transformando-a em sua cúmplice. Essas personagens completamente esféricas só ganham a vivacidade apresentada no filme pela escolha certa de seus atores. Hugo Weaving e Natalie Portman são excepcionais, mostrando uma química perfeita e uma dramaticidade maravilhosa, que, infelizmente, é incomum a filmes de ação. Hugo, que já trabalhou com os irmãos Watchowsky, mesmo usando uma máscara o filme todo, dá uma expressividade impressionante a seu personagem, através de gestos e movimento. Sua atuação é irretocável, sendo merecedora, na minha opinião, de uma indicação ao Oscar, pois eu nunca vi um personagem tão complexo ser tão bem interpretado. Outro elemento de destaque do elenco é Natalie Portman. Indicada ao Oscar de 2004 por “Closer – Perto Demais”, ela, ao lado de Weaving, dá outro show. Sua dramaticidade é espantosa e sua coragem também, visto que, para fazer quase metade do filme, ela precisou raspar o cabelo.

O elenco coadjuvante é quase tão seleto quanto os dois citados acima. O grande destaque é o tirano chanceler Adam Sutler, interpretado pelo fenomenal John Hurt, que se entrega completamente ao personagem, dando-lhe um realismo impressionante. É impossível não se arrepiar com seus pronunciamentos ao “seu” povo inglês. O detetive Finch, que tem o objetivo de capturar V antes do referido 5 de novembro, é interpretado com muita segurança por Stephen Rea, que não vinha fazendo bons papéis há um tempo. Há ainda o bom Tim Pigott-Smith, que ganha a grande chance de sua carreira ao interpretar com bastante correção o chefe de segurança Creedy.

“V de Vingança” ainda conta com uma trilha sonora e uma fotografia de causar inveja. Tudo isso acoplado resulta num filme absolutamente perfeito, inteligente e complexo, que deixa o espectador sem fôlego e com a atenção totalmente presa na tela durante seus 152 minutos de duração. Os irmãos Watchowsky conseguiram a proeza de fazer, senão o melhor, um dos melhores filmes de 2006. “Liberdade! Sempre!”


Por Danilo Henrique