12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição

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Nota: 8.0

O sucesso da cinessérie The Purge ao redor do mundo, principalmente nos Estados Unidos, é evidente desde o primeiro filme, lançado em 2013. Com o orçamento de “Uma Noite de Crime” (The Purge) na ordem de US$ 3 milhões originando um faturamento de bilheteria de quase US$ 90 milhões, era evidente uma continuação. “Uma Noite de Crime – Anarquia” (The Purge – Anarchy, 2014) mostrou-se um filme infinitamente mais competente que seu antecessor em todos os aspectos, o que não pode ser justificado somente por questões orçamentárias – foram gastos US$ 9 milhões para a realização da continuação -, mas pelo conjunto da obra. Não é de surpreender que uma nova sequência fosse feita, e “12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição” (The Purge – Election Year, 2016), chegado ao Brasil nesta quinta-feira (06/10), não decepcionou.

Este terceiro filme ocorre dois anos após o segundo. Como de hábito, há o evento anual chamado “the purge”, ou “a noite da purga”: uma noite em que, por 12 horas, qualquer crime é permitido, incluindo assassinato. É ano de eleição nos Estados Unidos, e a noite da purga é o principal motivo da grande polarização entre os dois candidatos: o religioso Edwige Owens (Kyle Secor) e a Senadora Charlie Roan (Elizabeth Mitchell). Enquanto Owens acredita que a noite da purga é essencial para a purificação da alma dos americanos, que extravasam seus maus sentimentos durante essa noite onde tudo é permitido, a Senadora Roan prega que a selvageria é dispensável e promete acabar com o evento. Em seu discurso, Roan deixa claro que os interesses para a criação da noite da purga são unicamente destinados ao extermínio dos mais pobres, que não têm como se proteger, e cuja morte seria um alívio às contas e às políticas sociais do país. No entanto, a Senadora precisa sobreviver aos ataques de seus opositores nessa noite para colocar em prática seus ideais, e deverá contar fielmente com seu segurança particular, Leo Barnes (Frank Grillo), o sargento que buscava vingança no segundo filme.

O mérito de “12 Horas para Sobreviver” está, principalmente, no fato de conseguir explorar nuances inéditas da franquia. Enquanto o primeiro filme mostrou uma visão mais intimista da noite de crime, sob o ponto de vista de pessoas ricas que conseguiam se proteger e tiveram suas fragilidades expostas, o segundo abordou aqueles menos favorecidos que precisam ficar nas ruas e participar da purga, este terceiro foi além ao explorar o mundo de quem está por trás do evento anual. O foco no caráter político eleva o potencial de debate da cinessérie, trazendo à tona definitivamente a questão social; o mundo das gangues, os interesses de quem apoia a purga, as pessoas que buscam vingança, aquelas que têm algo além de suas vidas ameaçado pelos crimes autorizados, e aquelas que, ao contrário da maioria da população, resolve fazer o bem na noite de crime. É possível ver “12 Horas para Sobreviver” como um estudo sociológico de uma realidade que, mesmo distópica, tem uma maior aproximação ao nosso mundo do que podemos querer admitir.

Mesmo tendo sido filmado muitos meses antes do início efetivo da corrida eleitoral americana, é possível ver claramente as semelhanças entre os candidatos da ficção e Hillary Clinton e Donald Trump. Coincidência, ou não, isso garante ao filme um interesse ainda maior daqueles que estão por dentro dos acontecimentos nos Estados Unidos da realidade, e é mais um ponto favorável ao roteiro de James DeMonaco.

Além da qualidade do debate proposto por DeMonaco, o roteiro tem muitos outros acertos, bem como a direção do mesmo DeMonaco. É possível ver o tempo inteiro a insanidade da população, tanto nos momentos em que vemos pessoas atacando umas às outras, gritando e dançando ao redor de corpos, tanto quando são mostrados os bastidores da purga. Os planos mais fechados de DeMonaco, que podem ser vistos negativamente no sentido de expor o baixo orçamento do filme – com apenas US$ 10 milhões é difícil encher as ruas com pessoas loucas sedentas por sangue -, foram um grande acerto na minha opinião. Podemos ver nos olhos das pessoas as suas motivações, construídas culturalmente ao longo do tempo e autorizadas por quem tem o domínio do país, e isso nos permite entrar mais a fundo na história. No entanto, esses mesmos planos fechados podem passar um pouco menos tensão e sensação de urgência, porém nada que comprometa o resultado final.

O filme conta com boas atuações, sobretudo da dupla de protagonistas – Mitchell e Grillo. Os personagens, cuja construção é absolutamente satisfatória, todos têm relevância, e o elenco dá conta de transmitir as emoções duais e difíceis de quem vive em uma noite onde tudo é permitido. O figurino também é digno de elogios; as cores vibrantes, presentes em muitas das máscaras e fantasias usadas pelos participantes da purga, servem perfeitamente para mostrar o caráter sádico e insano dos personagens, principalmente aquela que busca vingança a todo custo, e aquela que ilustra essa publicação. Os atos de violência também são muito bem representados visualmente, com mortes caprichadas e muito sangue voando pela tela.

“12 Horas para Sobreviver: O Ano da Eleição” consolida a franquia como parte relevante do cinema americano, e mostra que consegue se renovar a cada filme. Aqui não temos um salto de qualidade em relação a “Anarquia”, mas isso em nada não depõe contra o longa. É uma pena que sua precária distribuição brasileira o tenha levado a tão poucas salas. O Brasil também trouxe ao filme seu maior pecado: a horrível tradução, que pode deixar o público confuso quanto ao pertencimento à franquia The Purge. Tendo estreado nos Estados Unidos no início de julho, este terceiro filme apresenta ótimo rendimento de bilheteria – faturou, até o momento, mais de US$ 115 milhões -, e acredito que a franquia ainda tenha fôlego e história suficientes para ganhar mais uma continuação. Resta-nos esperar para ver, e torcer para que o potencial de renovação, mostrado a cada novo filme, seja mantido e explorado.

Por Danilo Martins

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Caso 39

Nota: 8,5

Os inúmeros problemas de pós-produção de “Caso 39” (Case 39, 2009) são um fato nada chamativo para o longa. Arrecadando apenas US$ 14,6 milhões ao redor do mundo, o filme começou a ser produzido em 2009, teve a estréia adiada várias vezes e, ao meu ver, passou a despertar menos interesse do público. No entanto, mesmo após mexerem e remexerem cenas e a montagem, este longa de estréia do diretor alemão Christian Alvart, mesmo utilizando um gênero já bastante explorado (o de crianças más, representado otimamente pelo recente “A Órfã”), consegue agradar bastante com uma trama ágil e despreocupada com passar a realidade o tempo todo para o espectador.

Emily Jenkins (Renée Zellweger) é uma assistente social extremamente dedicada que recebe de seu chefe seu 39º caso, referente à garotinha Lilith Sullivan (Jodelle Ferland), bastante anti-social e estranha. Aparentemente tratada com violência por seu pais, Lilith caiu muito de rendimento na escola e não dormia mais. Os temores de Emily são confirmados quando precisa salvar a garotinha de uma tentativa de assassinato por parte de seus pais, que tentam matá-la queimada em um forno.  Emily, então, decide cuidar pessoalmente de Lilith até que surja uma família para adotá-la. Mas é aí que o terror começa…

Com um início no melhor estilo devagar-quase-parando, a trama de Caso 39 é monótona em seus minutos iniciais. No entanto, após o primeiro evento-chave, a história toma um rumo interessantíssimo, mesmo com um fraco desenvolvimento de personagens do início do filme. Alvart consegue criar um clima de tensão bastante eficiente, através da boa fotografia e de bastante ousadia. Os momentos de devaneio da protagonista (muito bem feita por Renée Zellweger) são totalmente realistas, e não passam com um piscar de olhos. Esse é, talvez, o maior acerto do filme, que dá origem a cenas realmente assustadoras. A cena do armário, situada próximo aos momentos finais do filme, é uma das melhores da projeção em virtude desse recurso muito bem utilizado pelo diretor estreante. Nesse filme, terror físico e psicológico estão unidos de tal maneira que, por vários momentos, não conseguimos diferenciar o que é o quê. Há de se destacar, também, o fator psicológico da protagonista que, ao mesmo tempo em que tem certeza do que está acontecendo, tem sua sanidade posta em cheque como na cena descrita anteriormente.

O modo como Alvart mata seus personagens também é interessantíssimo. Não, não é inovador, mas também não é uma cópia dos trocentos filmes iguais que vemos por aí ao longo dos anos. As pessoas não recebem ligações da Samara dizendo que morrerão dentro de 7 dias nem cometem suicídio por causa de um vírus que está no ar; há lógica, há tensão, há medo. Além do modo, as mortes em si são bastante estilosas, com total destaque para a primeira. Apesar de ter pontos fortes em número muito maior que os fracos, Caso 39 bóia em seus clichês. Como sempre, há a pessoa desesperada, a pessoa que não acredita em nada e diz que a que acredita está louca e por aí vai. No entanto, Alvart também sabe surpreender seu espectador, como acontece no final do filme. O diretos nos mostra como transformar em surpresa algo que parecia óbvio, presenteando-nos com um final digno do restante de seu longa: de tirar o fôlego.

Do elenco de Caso 39, os únicos atores que eu conhecia anteriormente eram Renée Zellweger (de Cold Montain e Bridget Jones) e Bradley Cooper (do ótimo O Último Trem). Surpreendi-me bastante com o funcionamento de todo o elenco em cena, entrosados e envolvidos na trama. Renée está OK como protagonista, por vezes exagerando nos tons de voz e expressões faciais, mas acertando na maioria das vezes. Kerry O’Malley e Callum Keith Rennie, que interpretam os pais de Lilith, vão muito bem com o papel de pais insanos da garota, transmitindo um realismo bastante desagradável (no melhor sentido da palavra). Bradley Cooper, interpretando Doug, amigo e flerte de Emily, vai muito bem, confirmando totalmente minhas impressões a seu respeito tiradas do filme O Último Trem. Mas a maior surpresa, novamente, está na “garotinha do demônio” interpretada pela muito competente atriz Jodelle Ferland. Em seu oitavo filme, a atriz canadense de apenas 14 anos tem carisma e consegue transmitir tudo de que sua personagem precisa para passar o medo necessário ao bom andamento do longa. Com mais este nome, a nova geração de atores (muito bem representada por Nathan Gamble e Isabelle Fuhrer, dentre o que me lembro agora) promete retomar aos velhos tempos, em que, para ser ator ou atriz, era necessário ser bom, não só ter beleza como está sendo a nova moda de Hollywood.

Caso 39 é mais uma das agradáveis surpresas, um terror acima da média que não é atrapalhado por seus clichês. Muitos acertos, poucos erros e um filme imperdível para quem gosta do gênero. Grande acerto do então estreante diretor Christian Alvart.


A Órfã

Nota: 10

Quando lemos a simples sinopse de “A Órfã” (The Orphan, 2009), normalmente pensamos que se trata de apenas mais um terror barato como os que enchem as salas de cinema atualmente. Explorados pela primeira vez em 1956, com “Rhoda”, os terrores envolvendo crianças más ganharam destaque do fim da década de 1970 e em toda a década de 1980, com destaque para “A Profecia” (1974),  “A Colheita Maldita” (1984) e “O Iluminado” (1980). A decadência dos anos 1990 foi superada pela chegada de títulos como “O Chamado” e os remakes dos dois primeiros filmes citados anteriormente na década de 2000, que foi fechada magistralmente por este “A Órfã”. Sem dúvida, o melhor dos filmes citados e um dos melhores da década, não caindo nos costumeiros clichês e sendo um filme de terror incrivelmente acima da média.

John (Peter Sarsgaard) e Kate (Vera Farmiga) são um casal com dois filhos que sofre com a perda de um bebê próximo de nascer. Para suprir a falta da criança, eles decidem adotar uma menina mais velha, a esquisita russa Esther (Isabelle Fuhrman).  Mesmo alertados da dificuldade de adotar crianças com mais idade, o casal é atraído pela maturidade e pelo enorme carisma de Esther. No entanto, Esther não é a garota tímida e inteligente que aparentava ser no orfanato onde vivia. Ela acaba  totalmente com a paz da família, tendo em seu pai a confiança necessária para cometer seus atrozes e revoltantes atos.

Iniciando com a forte cena do aborto de Kate, a trama aumenta de intensidade à medida que passa, assim como sua tensão. Em suas primeiras aparições, Esther conquista não somente seus pais adotivos e sua irmã Max (Aryana Engineer), mas também os espectadores. Por algumas vezes, me peguei torcendo pela garota, principalmente nas cenas em que sofre bullying na escola. À medida que ela mostra sua verdadeira identidade, o espectador age como a mãe, com revolta, ódio e preocupação. Esther é, certamente, uma das crianças mais odiosas e assustadoras que já passaram pelas telas do cinema em toda a história (na minha opinião, está no topo). O modo como age é totalmente frio e calculista, mostrando que a maturidade percebida pelos pais à primeira vista chega a níveis extremos (a primeira cena que envolve uma arma e todos os crimes cometidos por Esther são a maior prova disso). O conjunto das abomináveis ações de Esther são revoltantes, levando espectadores mais envolvidos à trama, como eu, às lágrimas de raiva. Encoberta pelos irmãos através de suas ameaças e pelo pai por sua confiança, Esther é ameaçada unicamente pela certeza de sua mãe de que ela está por traz dos acontecimentos que aterrorizam sua família. Ex-alcoólatra, Kate não tem a confiança do marido, que acredita fielmente em tudo que Esther diz, fechando os olhos para o perigo que ronda constantemente sua casa.

A construção dos personagens é feita calmamente, da melhor maneira possível. Sem pressa para começar a chocar o espectador, Jaume Collet-Serra conduz extremamente bem a trama, dando-nos a oportunidade de conhecer seus personagens. No entanto, as escolhas de “para que lado torcer” acabam não sendo sempre as mesmas ao longo do longa, já que pequenas e cuidadosas reviravoltas (se é que podem ser chamadas assim) estão presentes em boa quantidade. O diretor acerta em tudo. A fotografia escura ajuda e nos permite enxergar perfeitamente as cenas, a boa trilha sonora é muito bem utilizada, as tomadas  e ângulos de câmera são sempre acertados, os sustos vêm em horas oportunas, os cenários e locações são muitíssimo bem aproveitados. Merece um imenso destaque, também, sua direção de atores. Ele faz funcionar imensamente bem o experiente casal Vera Farmiga e Peter Sarsgaard, que mostram uma química indispensável para a verossimilhança. No entanto, o maior ponto para Collet-Serra é o aproveitamento da desconhecida protagonista Isabelle Fuhrman. Ele extrai da jovem de 12 anos uma das melhores performances infantis que já vi no cinema (as atuações serão melhor explicadas no próximo parágrafo). Também marcante é o roteiro escrito por Alex Mace e David Johnson, com seus diálogos sempre inteligentes e o argumento interessante e, na medida do possível, inovador. Cenas que marcam e ficam na cabeça do espectador por vários dias são marca registrada deste filme, que, ainda por cima, diverte qualquer amante do terror. Os efeitos especiais são usados em baixa escala, substituídos pela excelente maquiagem, que é uma das responsáveis pela altíssima qualidade do final do longa, que será explicado mais à frente.

O elenco do longa é, também, um de seus pontos mais fortes (sim, os pontos fortes não acabam!). Desde atores mais experientes a mais novos, todos têm grande destaque, com atuações excelentes e muitíssimo verossímeis. Vera Farmiga, que interpreta a mãe atormentada pela perda do bebê e uma quase-tragédia decorrente de seu alcoolismo, é sensacional em cena. O desespero de sua personagem é visto com perfeição por meio de sua atuação, intensa e sufocante, na tentativa incessante de proteger seus filhos de Esther. Os momentos em que tenta convencer o marido da verdadeira face de Esther são agoniantes, e Farmiga mostra-nos como uma verdadeira mãe se comportaria vendo os filhos em iminente perigo. Peter Sarsgaard, interpretando Peter, não atinge o brilho de Farmiga, mas sua atuação é também excelente. O pai cético convence em seu amor incondicional pela filha adotiva, sendo, por muitas vezes, extremamente irritante. Aryana Engineer é a surda (e, claro, muda) Max, filha mais nova do casal, e tem uma atuação surpreendente. A pequena atriz, que aprendeu a linguagem de sinais na vida real em virtude de ter mãe surda, é excelente em suas expressões faciais meigas e, quase sempre, amedrontadas, fazendo com que a ausência de falas orais não seja sentida. O outro filho do casal, Daniel, é intepretado pelo jovem e experiente Jimmy Bennett, que se mostra muitíssimo promissor como ator em mais uma atuação de alto nível.

Deixei para falar de Isabelle Fuhrman em um parágrafo à parte. A jovem atriz, em seu primeiro trabalho no cinema, dá um show de atuação, ofuscando com facilidade o brilho dos experientes Sarsgaard e Farmiga. Isabelle acerta na entonação de voz, nas expressões faciais, nos gestos, em tudo! Encarnando sua personagem com a alma, a atriz é a grande vilã do ano de 2009 na minha opinião, sendo responsável por um dos papéis mais fortes e maus que já vi. Sua atuação é perfeita, e desbancaria inúmeras atrizes que ainda ganham o Oscar em virtude de seus nomes.

O final do filme é surpreendente e perturbador, sendo verossímil em virtude da ótima técnica utilizada pela equipe. Maquiagem, fotografia, efeitos sonoros, tudo colabora imensamente para a revelação do segredo de Esther, impossível de ser descoberto antes da sufocante seqüência final (que dura cerca de 20 minutos). Um filme forte e cruel que merece ser conferido por todo e qualquer amante do cinema. Para os amantes do terror e suspense, “A Órfã” é uma parada obrigatória, da qual ninguém sai arrependido. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano. Sem dúvida, um dos melhores filmes de crianças más da história do cinema.

Por Danilo Henrique

PS: Uma pequena explicação. Costumeiramente, eu posto, junto das críticas, os respectivos trailers. No entanto, julguei que o trailer de “A Órfã” contém muitas cenas reveladoras de segredos da trama, sendo considerado por mim um grande spoiler. Por isso, estou postando o comercial de TV que, além de ser mais resumido e não contar partes importantes, conta de maneira mais correta o que pode ser visto no filme.


O Pesadelo 2

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Nota: 4.5

Continuações de filmes de terror são, quase sempre, desnecessárias e, em praticamente todos os casos, nocivas ao filme original, já que a qualidade sempre decai um pouco (claro, há raras exceções, como os 3 primeiros filmes da franquia “Jogos Mortais”). O que dizer então das continuações que nem sequer passam pelos cinemas, indo diretamente para as empoeiradas prateleiras de locadoras? E mais, além de tudo isso, o que esperar da continuação de um filme que já foi bastante ruim? “O Pesadelo 2” (Boogeyman 2, 2008 ) derruba algumas dessas espectativas, como a de que seria pior que o primeiro. Não se trata de um filme bom, até porque “O Pesadelo” não serve de parâmetro para nada, mas conseguiram cumprir bem a complicada missão de criar uma nova história para o temido Bicho-Papão.

Laura e Henry Porter são irmãos que, hoje em dia, dividem um grande trauma do passado. No aniversário de 8 anos de Laura (Danielle Savre), um assassino (ou, segundo os irmãos, o Bicho-Papão) invadiu a casa da família e matou o pai e a mãe na frente das crianças. Passados dez anos, ambos sofrem problemas psicológicos decorrentes do trauma, que resultou em um medo extremo de Bicho-Papão (que, no filme, é denominado incorretamente de “bogifobia”, que, na verdade, é medo de duendes e espíritos), mas apenas Henry (Matt Cohen) pode-se considerar curado, em virtude do tratamento que fez na clínica psiquiátrica comandada pelo Dr. Mitchell Allen (Tobin Bell). Seguindo o conselho do irmão, Laura vai para a mesma clínica e, sob a supervisão do Dr. Allen, passa a ser tratada pela psiquiatra Jessica Ryan (Renée O’Connor). Junto com Laura, estão vários outros jovens, com suas mais variadas fobias (fobias de germes, de lugares públicos, de escuro, de engordar etc), que são submetidos a um tratamento em grupo. No entanto, o que Laura encontra não é uma solução para seu problema, e sim um verdadeiro pesadelo quando os pacientes começam a morrer vítimas de seus próprios medos, o que leva nossa protagonista a crer que seu temido Bicho-Papão está por tras disso tudo.

Como dito anteriormente, “O Pesadelo 2” é um filme que trata de um tema complicado e, pior, é a continuação de um filme de má qualidade. Então, por que insistir na idéia de colocar o Bicho-Papão não como um conto infantil, mas como um ser aparentemente aterrorizante? Simples: salvar a história muito mal contada pelo primeiro. “O Pesadelo” foi um dos piores filmes lançados em 2006, com um dos roteiros mais fajutos e sem nexo que já vi, com um enredo muito mais complexo que os pobres roteirista e diretor conseguiam transpor para as telas. Então, “O Pesadelo 2” apresenta um enredo muito menos pretensioso, mais simples e sem grandes complicações e reviravoltas. Apesar das tomadas de câmera sempre bastante óbvias e sustos baratos, o diretor estreante Jeff Betancourt consegue, pelo menos, comandar bem seu elenco que, apesar de ser muito fraco (com exceção do grande chamativo do filme, Tobin Bell), não tem atuções realmente ruins (mais detalhes no próximo parágrafo). O único lugar onde a trama parece apresentar alguma pretensão, ela erra feio, que é nas duas viradas bastante óbvias e imbecis (principalmente a primeira). Além disso, parece que a trama pega carona nos filmes de tortura atuais, como “Jogos Mortais”. Apesar de, a princípio, ser um longa cujo personagem principal é um monstro, vemos várias cenas de tortura obviamente inspiradas na franquia que consagrou Tobin Bell como um dos maiores ícones do terror da atualidade. Encarar os medos para tentarem permacer vivos é uma das forças-motrizes da obra de Jigsaw em “Jogos Mortais”, o que acaba sendo explorado a todo momento. A cena em que mais podemos ver é uma em que uma garota é obrigada a se cortar para retirar larvas de inseto que penetram em sua pele, o que daria um belo jogo para Jigsaw. Mas as semelhanças não param por aí. Em uma das muitas mortes, temos Tobin Bell falando em um gravador com sua conhecida voz absurdamente grave, praticamente descrevendo a morte que está acontecendo, outra particularidade de Jigsaw. Tudo bem, o roteiro não é nem um pouco inspirado nem inovador, mas acaba divertindo bastante com mortes carregadas de gore e sangue. A trilha sonora, mesmo não sendo muito bem utilizada, é ok, contribuindo fundamentalmente para o andamento do filme. As cenas das mortes são muito bem feitas, principalmente aquela em que uma garota é preenchida com uma coisa da qual ela tem bastante medo. A fotografia é regular, por vezes muito escura, mas não chega a comprometer muito.

Bem, falemos do elenco. Claro que muitas pessoas, ao verem o nome de Tobin Bell na capa, nem pensam duas vezes e alugam o DVD na mesma hora. É uma pena que essas pessoas terão a mesma decepção que eu tive, já que seu personagem, o Dr. Allen, aparece pouquíssimo no filme, resumindo-se à seqüência final e a algumas cenas de tratamento dos pacientes. Mesmo assim, Tobin ainda consegue ser o ponto alto do longa, com uma atuação extremamente segura, mesmo não tendo o destaque que teve nos quatro últimos “Jogos Mortais”. O restante do elenco, como dito acima, é fraco  e desconhecido, mas o diretor Jeff Betancourt consegue extrair o máximo de seus atores, obtendo performances razoáveis. Até a protagonista Danielle Savre, que tinha tudo pra ser mais uma adolescente burrinha de filmes de terror, tem boa atuação, conseguindo, por vezes, transpassar as emoções de sua sofrida (e mal compreendida) personagem. O restante do elenco tem atuações abaixo dos dois citados, apesar de não serem ruins, como o irmão de Laura, Matt Cohen, e a psiquiatra Jessica Ryan, interpretada por Renée O’Conner.

“O Pesadelo 2” é daqueles filmes que têm tudo pra dar errado, mas que, no final, acaba apresentando um resultado pelo menos aceitável. Tobin Bell é o principal atrativo (inclusive tendo seu destaque no trailer) e quase não aparece, o enredo é de fácil entendimento e muito pouco criativo e a direção não é a mais segura que já vi. Mas, sinceramente, eu me diverti bastante. Mas eu suplico aos produtores: por favor, façam o favor de não lançarem o terceiro filme, senão nem mesmo as crianças vão temer o pavoroso Bicho-Papão.


Por Danilo Henrique

O Nevoeiro

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Nota: 10

O aclamado mestre do horror Stephen King deve estar em polvorosa. Depois do ótimo “1408”, baseado em sua obra, ser filmado, chegou às telas em 2008 este espetacular “O Nevoeiro” (The Mist, 2007), sem dúvida o melhor filme baseado em obras do mestre, neste caso, um conto pertencente ao livro “Tripulação de Esqueletos”. É um filme que nos remonta aos grandes clássicos de terror, que realmente dão medo, que realmente são cruéis.

Uma cidadezinha do estado americano do Maine é assolada por uma grande e incomum tempestade. Sem telefone e energia elétrica, os moradores da cidade correm para o supermercado local para estocar o maior número de alimentos possível, já que a meteorologia indicava que uma nova tempestade estava por vir. Entre essas pessoas estão David Drayton (Thomas Jane) e seu filho Billy (Nathan Gamble), que tiveram a casa de barcos e uma janela destruídas pela tempestade. Pessoas essas que, em virtude da chegada de um espesso nevoeiro, ficam presas dentro do supermercado, o que é agravado pelo aviso de um dos moradores locais: o nevoeiro trazia algo realmente assustador, e ele teria visto uma pessoa sendo morta pela tal coisa que o nevoeiro trouxesse. E o sentimento de horror toma conta de todos no supermercado quando descobrem que há criaturas assustadoras lá fora, e que elas entrarem no local é apenas uma questão de tempo. E, diante da iminência da invasão das criaturas, David e Billy têm de se preocupar com um fator tão assutador quanto elas próprias: o fator humano, que põe em evidência as mais variadas reações e ações de pessoas em desespero. O medo, o terror e a fé (representada pela figura da fanática religiosa Sra. Carmody [Marcia Gay Harden]) mostram-se tão ou mais perigosos que as criaturas, e divide as pessoas no momento em que mais precisam estar unidas.

Normalmente, os filmes, sejam de terror ou não, têm seu ponto forte, seu ponto de destaque. E é esse um dos maiores diferenciais de “O Nevoeiro”: nenhum fator é muito diferente, nenhum grande destaque pode ser observado. Tudo, absolutamente tudo, é perfeito, uniforme, consonante. E o diretor e roteirista Frank Darabont mostra-se um verdadeiro especialista em levar as obras de Stephen King ao cinema. O mestre, que tem a qualidade de suas obras inquestionável, nem sempre mantém uma uniformidade. Alternando entre obras-primas (como “Carrie, a Estranha”) e verdadeiros lixos (como “Sonâmbulos”), King tem seu nome nem sempre bem vinculado a grandes filmes. No entanto, Frank Darabont tem a honra e a sorte de estar por trás dos ótimos “Um Sonho de Liberdade”, “À Espera de um Milagre” e este “O Nevoeiro”. Por coincidência, foi através do drama dos dois primeiros filmes que pudemos ver a qualidade das obras de King melhor representada nos cinemas, o que foi possibilitado pela estrela de Darabont. Por esse fato, surpreendeu a todos que Darabont fosse escolhido para roteirizar e dirigir “O Nevoeiro”, baseado no melhor dos contos do livro “Tripulação de Esqueletos”, um filme povoado de monstros. Mas Darabont, contrariando o que a maioria dos diretores fariam, não destaca as criaturas horripilantes, mas mostra-se um verdadeiro especialista em identificar o aspecto humano. É graças a Darabont que, ao longo do filme, passamos a temer tanto os “habitantes” do supermercado quanto as criaturas que o invadem e espalham medo entre as pessoas.

É impressionante o fato de que um filme de terror consiga ser passado quase em sua íntegra em apenas um ambiente. Poucos exemplos podem ser citados, mas nenhum fica tanto tempo na mesma habitação como fica “O Nevoeiro”. São impressionantes 105 minutos, de um total de 126, no mesmo supermercado, com as mesmas pessoas, mas com os conflitos sendo agravados a cada momento. E Darabont, o roteirista que adaptou de maneira genial o já genial conto de King, sustenta o clima de maneira perfeita. Ele nos transporta para dentro do supermercado a todo o tempo, fazendo-nos sentir tudo o que as desesperadas pessoas sentem. E o modo como o roteirista alia medo e fé é simplesmente arrebatador. O medo faz com que as pessoas reconsiderem tudo o que sua fé fazia-lhes acreditar, sendo completamente manipulados pela crença que lhes é imposta pela fanática Sra. Carmody, sobre quem falarei mais abaixo. Darabont tem o filme em suas mãos de tal forma que consegue fazer com que o foco do filme não fique apenas nas criaturas bastante caprichadas pelo pessoal dos efeitos especiais, mas que odiemos profundamente aqueles que se deixam levar pelos “ensinamentos” da religiosa, que dão origem a conseqüências inimagináveis.

O elenco de “O Nevoeiro” é um dos melhores já vistos em um filme de terror. A homogeneidade é impressionante, é impossível destacar um nome especificamente. David Drayton, o protagonista, é interpretado por Thomas Jane. O ator, excelente, teve o desprazer de atuar em um dos piores filmes de obras de Stephen King, “O Apanhador de Sonhos”. O pai desesperado para salvar a si mesmo, salvar o filho e ainda ajudar a todas as pessoas que pode das criaturas é interpretado por um ator completamente senhor de seu personagem, que faz o espectador sentir afeição imediata, sentir tensão e desespero junto com David. A atuação de Jane é intensa, o ator dá tudo de si pelo personagem, dando total verossimilhança. A atuação que mais convence e enche os olhos do espectador é de Marcia Gay Harden, na pele da Sra. Carmody. Em um filme de monstros tenebrosos, ela é a principal vilã, justificando seus atos atrozes pelo nome de Deus, o que se aproxima de muita coisa que vemos hoje em dia na vida real. Com seus discursos convincentes, ela é praticamente uma falsa profetisa, sendo que ela própria acredita no que diz, acredita que o caminho entre as pessoas presas no mercado podem ser conectadas a Deus através dela própria. E isso, em seu entendimento, dá-lhe o direito de condenar e sacrificar as pessoas. Com uma atuação digna de, pelo menos, uma indicação ao Oscar, apesar da homogeneidade das atuações, Marcia Gay Harden acaba sendo o nome de maior destaque, o nome de que os espectadores mais falam quando saem da sala de cinema. Mas, infelizmente, a Academia ainda insiste em fechar os olhos para o filmes de terror, o que torna injustiças como essa mais normais a cada dia. O pequeno Nathan Gamble é a grande revelação do longa. Interpretando Billy Drayton, filho de David, Nathan dá uma verdadeira aula às crianças que sonham em chegar ao concorrido mundo do cinema. Com uma atuação comovente e que não decai em momento algum, Nathan faz com que o espectador coloque seus próprios filhos em seu lugar, sendo espetacularmente verossímil. Com seus jovens dez anos de idade, o pequeno ator tem uma atuação de gente grande. Outros nomes do elenco são Andre Baugher como o advogado cético (que só não nos dá mais raiva que a fanática) e Toby Jones.

O que torna “O Nevoeiro”, talvez, o filme mais cruel já passado nas telas do cinema é o fato de que o roteiro não reluta em matar seus personagens. Não espere que os queridinhos sobrevivam até o fim e que os maus sejam eliminados, pois acabará sendo desapontado. Prepare-se para encarar um verdadeiro pesadelo, em que não há espaço para pena e facilidades. Prepare-se para um filme cruel desde seu início até o final. Final esse que é arrebatador, um verdadeiro soco no estômago, que nos leva a um desespero verdadeiro, fazendo-nos não querer acreditar no que nossos olhos vêem. Final esse que, embalado por uma música arrepiante, eventualmente leva o espectador às lágrimas, sendo considerado por mim o mais cruel de todos os tempos. Final esse que não consta no conto de Stephen King, e que foi imensamente elogiado pelo autor, que, inclusive, afirmou que gostaria de tê-lo em sua obra.“O Nevoeiro”, com sua infinidade de acertos e ausência de erros, é um verdadeiro candidato a se tornar clássico daqui a alguns anos.


Por Danilo Henrique

Gritos Mortais

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Nota: 7.75

Leigh Whannel e James Wan despontaram como as maiores promesses do cinema de terror e suspense ao produzirem, juntos, em 2004 , o espetacular “Jogos Mortais”. Durando mais dois filmes da série, a dupla sempre mostrou ser extremamente competente, com roteiros inteligentíssimos e sem furos. Apesar de não estarem tão inspirados em sua primeira empreitada longe da maravilhosa franquia, eles conseguem fazer de “Gritos Mortais” (Dead Silence, 2007) um filme bastante competente e bem conduzido.

A história com certeza vai fazer muitos se lembrarem da interminável saga do brinquedo assassino Chucky. Para dar início à trama, é apresentada uma interessante e conveniente explicação da origem da palavra “ventríloquo” e as lendas acerca dela, o que torna a história mais inteligível. Apresentações feitas, somos conduzidos à cena em que Jamie e Ella Ashen, muito bem casados e morando longe da cidade onde nasceram, Raven’s Fair, recebem um estranho boneco ventríloquo, que lhes faz lembrar da ventriloqusita Mary Shaw, que foi assassinada na cidade por ser suspeita de seqüestrar e matar crianças. Como já era de se esperar, após algo estranho acontecer, Jamie sai, deixando a esposa sozinha em casa. E, para sua surpresa (não para a nossa, é claro), encontra a esposa morta em sua cama, com a língua arrancada. E, claro, Jamie é o suspeito número um. Para tentar provar sua inocência, Jamie volta a sua cidade natal mesmo proibido por ordens judiciais, disposto a enfrentar a lenda e acabar de vez com o fantasma de Mary Shaw.

O grande trunfo de “Gritos Mortais” é, sem dúvida, o visual. O que vemos na tela é um verdadeiro colírio para nossos olhos. Tudo funciona: a fotografia é arrepiante, os cenários são extremamente luxuosos e o clima de antiquado. As mortes são estilosas, a maquiagem é muito bem feita e os efeitos especiais são ótimos. Frente ao que nossos olhos vêem, a o roteiro poderia ser um pouco mais generoso com nosso intelecto. Não estou falando que ele não é bom e inteligente, mas, em se tratando da dupla Wan/Whannel, esperava-se muito mais. A história, apesar de ter seus pontos muitíssimo inspirados, não é nem um pouco inovadora. Só o fato de você, ao assistir a um filme, se lembrar imediatamente de outro, já mostra que a idéia já foi utilizada, e bem explorada. Todo e qualquer filme de terror que envolva bonecos vai nos remontar a “Brinquedo Assassino”, que marcou os fãs do horror nos anos 90. Mas essa não é a semelhança maior. A quantidade de bonecos, 101 ao todo, é desnecessária, e faz com que nós clamemos pela volta do assustador “Mestre dos Brinquedos”, com seus bonecos diabólicos e diferentes uns dos outros (aqui, são 101 bonecos praticamente iguais, e que não fazem absolutamente nada). Apesar da relativa passividade dos bonecos, o principal deles, Billy (grande parceiro de Mary Shaw em seus shows), dá bons sustos no espectador. Mas a principal cena do filme, tirando o final (que contarei mais abaixo), é quando uma das apresentações da dupla é mostrada em um flashback. É a partir dela que passamos a ter certeza de que as histórias de Mary Shaw são, sim, verdadeiras, e que seu boneco favorito não é exatamente apenas um boneco.

Como já foi falado acima, a parte visual é a grande responsável pelo clima obscuro e tenso do filme. Mas se ela não fosse ajudada por uma trilha sonora tão eficiente, talvez tivesse sido um grande desperdício. As músicas, muitas vezes, criam até mais tensão que os personagens, sendo uma parte fundamental do longa. As atuações não têm um grande destaque, o desconhecido elenco apresenta uma boa uniformidade. O protagonista Ryan Kwanten consegue interpretar muito bem os conflitos de Jamie, dividido entre cumprir as ordens judiciais e desvendar o mistério da morte de suas esposa. O nome mais conhecido é o de Donnie Wahlberg, que atuou na franquia “Jogos Mortais”. Assim como na franquia, ele vive aqui um policial com um papel muito mais direcionado a ser engraçado do que durão. Apesar de ser ótimo ator, Donnie não é usado na medida correta, o que pode ter feito falta no final das contas.

“Gritos Mortais”, a exemplo de “Jogos Mortais”, apresenta um final de deixar qualquer espectador boquiaberto (claro, não na mesma magnitude com que “Jogos Mortais” o faz), e esse acaba sendo o ponto mais alto da trama. Apesar dos clichês e pequenas confusões do roteiro, esta é uma ótima opção de entretenimento dos fãs de horror. Só não se esqueça de uma coisa: “Nunca, jamais, grite!”


Por Danilo Henrique

Jogos Mortais 5

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Nota: 7.25

A franquia “Jogos Mortais” foi iniciada em 2004, com um filme que foi considerado revolucionário, em virtude de sua abordagem diferenciada sobre a vida humana, os métodos inovadores de tortura e um final de deixar qualquer espectador boquiaberto. Mesmo com um orçamento baixíssimo, “Jogos Mortais 1” fez um sucesso imenso, dando origem a continuações. Os três filmes subseqüentes mantiveram a mesma essência e qualidade do primeiro, em todos os quesitos, inclusive na imprevisibilidade. Confesso que, diante de tamanha qualidade, eu me tornei um grande fã da série, ansiando para o lançamento de cada filme. Mas chega hoje aos cinemas brasileiros “Jogos Mortais 5” (Saw V, 2008) , sem dúvida, um dos filmes que mais me decepcionaram em toda minha vida. A queda em relação aos outros quatro é grotesca, o que dá origem a um filme simplesmente comum.

Após a morte de Jigsaw (Tobin Bell) e sua aprendiz Amanda (Shawnee Smith) no terceiro filme, o mestre da tortura é sucedido por mais um cúmplice, que é revelado em “Jogos Mortais 4”: o responsável pela investigação de seu caso, Detetive Mark Hoffman (Costas Mandylor). Sua marca, que não pode ser vista no quarto filme (pois os fatos são passados simultaneamente aos do terceiro), é mostrada logo na primeira cena (o que é característico da série, mostrar primeiro uma cena de tortura para depois começar a história propriamente dita), em que ele põe à prova um assassino que, em seu ponto de vista, teve sua pena muito abrandada. No entanto, seu jogo é completamente diferente dos de Jigsaw, pois o assassino faz o que lhe é imposto, mas morre do mesmo jeito. A história começa com a resolução dos finais de terceiro e quarto filme, que se encontram. O agente Strahm (Scott Patterson) consegue sair vivo da sala onde foi deixado, e passa a suspeitar que Hoffman teve algum envolvimento com a obra de Jigsaw. Disposto a continuar o legado de seu mestre, Hoffman inicia uma trama que visa eliminar todos os que lhe podem incriminar. Inclusive Strahm. Paralelo a tudo isso, cinco pessoas fazem um jogo coletivo, no qual testam sua capacidade de cooperação. As cenas desse jogo, que se assemelha um pouco ao passado no segundo filme, são as responsáveis pelo sangue que jorra no longa, mas não são muitas, o que o torna bem menos violento que seus dois antecessores.

O grande destaque do elenco de “Jogos Mortais 5” é, mais uma vez, Tobin Bell. Apesar de interpretar um personagem já falecido, o ator aparece em quase todas as cenas importantes do longa, já que a construção da história, assim como em “Jogos Mortais 4”, é feita com uma exploração grande de flashbacks. Sua atuação intensa (como sempre) nos dá a exata noção de como os jogos foram arquitetados, desde o primeiro filme, e como Hoffman foi introduzido na trama. Costas Mandylor é, também, responsável por essa clareza. Sólido, ele passa todas as emoções que se passam pela cabeça de Hoffman, indo do medo inicial à frieza que o legado que lhe foi deixado exige, de forma perfeita, sendo um co-protagonista à altura de Tobin. Scott Pattersen é um bom nome também, traduzindo muito bem os conflitos de seu agente Strahm. Como destaque negativo fica a utilização muitíssimo moderada de Betsy Russel, que apareceu muito bem no quarto filme como Jill, a ex-mulher de Jigsaw. Neste, ela recebe uma “herança” de Jigsaw, uma caixa misteriosa, cujo conteúdo não é revelado. Por outro lado, não gostei dos atores que representam as vítimas do jogo coletivo, faltando-lhes a essência necessária para participar dos filmes da franquia.

Este é o primeiro filme da franquia que não conta com pelo menos um membro da dupla responsável pela direção do primeiro filme, Leigh Whannel e Darren Linn Bousman. Bousman ficou até o quarto, mas Linn só completou os primeiros três. Neste “Jogos Mortais 5”, é perceptível que o talento dos dois faz uma falta imensa, visto que a essência foi bastante perdida. Mesmo com a manutenção da base do quarto filme, que são os flashbacks, vê-se que a diferença de abordagem, de como o recurso é utilizado, é bastante diferente. Infelizmente, para pior, pois neste, se vc piscar mais do que deve, já não vai mais saber se o que está passando na tela é flashback ou não. Outro aspecto que muda bastante são as mortes e as armadilhas, que decaíram muito em inteligência, e um pouco em crueldade. A parte visual do longa é boa, a maquiagem continua eficiente como se mostrou nos outros quatro filmes. E, é claro, não se pode deixar de ressaltar a trilha sonora, já que a música que embalou todos os finais da franquia continua arrepiando todos os pêlos do corpo.

“Jogos Mortais 5” tem um final, como os outros da franquia, bastante interessante e inteligente, mas acaba não sendo muito surpreendente. É provável que muitas pessoas, assim como aconteceu comigo, saibam o que vai ocorrer no final. Não o modo como ocorre, que é arrepiante, mas o fato que acontece. E esse é mais um ponto contra o quinto filme da franquia. E é também um final que, apesar da promessa dos seis filmes, não deixa quase abertura para uma continuação, a não ser que resolvam explorar o conteúdo da caixa recebida por Jill. Mas, sinceramente, apesar de ser um grande fã da série, espero que esse laçamento não seja feito. Eu não suportaria mais um declínio de qualidade como esse.


Por Danilo Henrique