O retorno (pra valer dessa vez)

Pouco mais de oito anos atrás, foi escrita a primeira crítica deste blog. O filme contemplado foi Jogos Mortais, meu favorito à época, e confesso não ter sido dos meus melhores textos. Com o tempo, o blog foi melhorando, passando a ser um pouco mais conhecido, recebendo mais visitas e comentários. Até que, quando estava em bom momento, este que vos escreve decidiu largar tudo. Obrigações foram surgindo, o tempo tornou-se escasso, e foi quase inevitável deixar este blog de lado, por mais que fosse difícil.

Foram seis anos de hiato. Recentemente, me bateu saudade de escrever aqui, e, quando entrei na área de edição do blog, tive uma surpresa enorme: ele continuava sendo visitado e, por mais incrível que possa parecer, o número de visitantes e de visitas aumentou assustadoramente. Senti um orgulho enorme por meus textos continuarem sendo lidos, por pessoas continuarem levando minhas opiniões em consideração, e por continuarem interagindo neste espaço pelo qual sinto tanto carinho. O crescimento do blog, mesmo sem interferência minha, me deu o ânimo que faltava para eu voltar pela segunda vez, e continuar expressando aqui minhas percepções sobre filmes bons, médios e ruins, sempre com o máximo de sinceridade e buscando o maior apuro técnico possível.

A cara do Cinema Levado a Sério mudou, e algumas mudanças mais virão. Mas não vou dar spoiler, porque sei o quanto isso é péssimo! Por isso, peço que você continue me acompanhando, pode ter certeza de que vai valer a pena.

Sejam bem-vindos de volta!

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Caso 39

Nota: 8,5

Os inúmeros problemas de pós-produção de “Caso 39” (Case 39, 2009) são um fato nada chamativo para o longa. Arrecadando apenas US$ 14,6 milhões ao redor do mundo, o filme começou a ser produzido em 2009, teve a estréia adiada várias vezes e, ao meu ver, passou a despertar menos interesse do público. No entanto, mesmo após mexerem e remexerem cenas e a montagem, este longa de estréia do diretor alemão Christian Alvart, mesmo utilizando um gênero já bastante explorado (o de crianças más, representado otimamente pelo recente “A Órfã”), consegue agradar bastante com uma trama ágil e despreocupada com passar a realidade o tempo todo para o espectador.

Emily Jenkins (Renée Zellweger) é uma assistente social extremamente dedicada que recebe de seu chefe seu 39º caso, referente à garotinha Lilith Sullivan (Jodelle Ferland), bastante anti-social e estranha. Aparentemente tratada com violência por seu pais, Lilith caiu muito de rendimento na escola e não dormia mais. Os temores de Emily são confirmados quando precisa salvar a garotinha de uma tentativa de assassinato por parte de seus pais, que tentam matá-la queimada em um forno.  Emily, então, decide cuidar pessoalmente de Lilith até que surja uma família para adotá-la. Mas é aí que o terror começa…

Com um início no melhor estilo devagar-quase-parando, a trama de Caso 39 é monótona em seus minutos iniciais. No entanto, após o primeiro evento-chave, a história toma um rumo interessantíssimo, mesmo com um fraco desenvolvimento de personagens do início do filme. Alvart consegue criar um clima de tensão bastante eficiente, através da boa fotografia e de bastante ousadia. Os momentos de devaneio da protagonista (muito bem feita por Renée Zellweger) são totalmente realistas, e não passam com um piscar de olhos. Esse é, talvez, o maior acerto do filme, que dá origem a cenas realmente assustadoras. A cena do armário, situada próximo aos momentos finais do filme, é uma das melhores da projeção em virtude desse recurso muito bem utilizado pelo diretor estreante. Nesse filme, terror físico e psicológico estão unidos de tal maneira que, por vários momentos, não conseguimos diferenciar o que é o quê. Há de se destacar, também, o fator psicológico da protagonista que, ao mesmo tempo em que tem certeza do que está acontecendo, tem sua sanidade posta em cheque como na cena descrita anteriormente.

O modo como Alvart mata seus personagens também é interessantíssimo. Não, não é inovador, mas também não é uma cópia dos trocentos filmes iguais que vemos por aí ao longo dos anos. As pessoas não recebem ligações da Samara dizendo que morrerão dentro de 7 dias nem cometem suicídio por causa de um vírus que está no ar; há lógica, há tensão, há medo. Além do modo, as mortes em si são bastante estilosas, com total destaque para a primeira. Apesar de ter pontos fortes em número muito maior que os fracos, Caso 39 bóia em seus clichês. Como sempre, há a pessoa desesperada, a pessoa que não acredita em nada e diz que a que acredita está louca e por aí vai. No entanto, Alvart também sabe surpreender seu espectador, como acontece no final do filme. O diretos nos mostra como transformar em surpresa algo que parecia óbvio, presenteando-nos com um final digno do restante de seu longa: de tirar o fôlego.

Do elenco de Caso 39, os únicos atores que eu conhecia anteriormente eram Renée Zellweger (de Cold Montain e Bridget Jones) e Bradley Cooper (do ótimo O Último Trem). Surpreendi-me bastante com o funcionamento de todo o elenco em cena, entrosados e envolvidos na trama. Renée está OK como protagonista, por vezes exagerando nos tons de voz e expressões faciais, mas acertando na maioria das vezes. Kerry O’Malley e Callum Keith Rennie, que interpretam os pais de Lilith, vão muito bem com o papel de pais insanos da garota, transmitindo um realismo bastante desagradável (no melhor sentido da palavra). Bradley Cooper, interpretando Doug, amigo e flerte de Emily, vai muito bem, confirmando totalmente minhas impressões a seu respeito tiradas do filme O Último Trem. Mas a maior surpresa, novamente, está na “garotinha do demônio” interpretada pela muito competente atriz Jodelle Ferland. Em seu oitavo filme, a atriz canadense de apenas 14 anos tem carisma e consegue transmitir tudo de que sua personagem precisa para passar o medo necessário ao bom andamento do longa. Com mais este nome, a nova geração de atores (muito bem representada por Nathan Gamble e Isabelle Fuhrer, dentre o que me lembro agora) promete retomar aos velhos tempos, em que, para ser ator ou atriz, era necessário ser bom, não só ter beleza como está sendo a nova moda de Hollywood.

Caso 39 é mais uma das agradáveis surpresas, um terror acima da média que não é atrapalhado por seus clichês. Muitos acertos, poucos erros e um filme imperdível para quem gosta do gênero. Grande acerto do então estreante diretor Christian Alvart.


Acompanhe o Oscar em tempo real

Neste domingo, dia 7 de março, às 22h (horário de Brasília), acontecerá a maior premiação do cinema, o Oscar 2010. Diferentemente do ano passado, não farei um especial do Oscar com apostas neste blog, mas farei um acompanhamento em tempo real através de meu twitter, postando os indicados, meus favoritos, resultados e comentários. Não deixem de acompanhar! O endereço está abaixo!

http://twitter.com/Danilinho_HM

Vejo vocês no domingo!

A Órfã

Nota: 10

Quando lemos a simples sinopse de “A Órfã” (The Orphan, 2009), normalmente pensamos que se trata de apenas mais um terror barato como os que enchem as salas de cinema atualmente. Explorados pela primeira vez em 1956, com “Rhoda”, os terrores envolvendo crianças más ganharam destaque do fim da década de 1970 e em toda a década de 1980, com destaque para “A Profecia” (1974),  “A Colheita Maldita” (1984) e “O Iluminado” (1980). A decadência dos anos 1990 foi superada pela chegada de títulos como “O Chamado” e os remakes dos dois primeiros filmes citados anteriormente na década de 2000, que foi fechada magistralmente por este “A Órfã”. Sem dúvida, o melhor dos filmes citados e um dos melhores da década, não caindo nos costumeiros clichês e sendo um filme de terror incrivelmente acima da média.

John (Peter Sarsgaard) e Kate (Vera Farmiga) são um casal com dois filhos que sofre com a perda de um bebê próximo de nascer. Para suprir a falta da criança, eles decidem adotar uma menina mais velha, a esquisita russa Esther (Isabelle Fuhrman).  Mesmo alertados da dificuldade de adotar crianças com mais idade, o casal é atraído pela maturidade e pelo enorme carisma de Esther. No entanto, Esther não é a garota tímida e inteligente que aparentava ser no orfanato onde vivia. Ela acaba  totalmente com a paz da família, tendo em seu pai a confiança necessária para cometer seus atrozes e revoltantes atos.

Iniciando com a forte cena do aborto de Kate, a trama aumenta de intensidade à medida que passa, assim como sua tensão. Em suas primeiras aparições, Esther conquista não somente seus pais adotivos e sua irmã Max (Aryana Engineer), mas também os espectadores. Por algumas vezes, me peguei torcendo pela garota, principalmente nas cenas em que sofre bullying na escola. À medida que ela mostra sua verdadeira identidade, o espectador age como a mãe, com revolta, ódio e preocupação. Esther é, certamente, uma das crianças mais odiosas e assustadoras que já passaram pelas telas do cinema em toda a história (na minha opinião, está no topo). O modo como age é totalmente frio e calculista, mostrando que a maturidade percebida pelos pais à primeira vista chega a níveis extremos (a primeira cena que envolve uma arma e todos os crimes cometidos por Esther são a maior prova disso). O conjunto das abomináveis ações de Esther são revoltantes, levando espectadores mais envolvidos à trama, como eu, às lágrimas de raiva. Encoberta pelos irmãos através de suas ameaças e pelo pai por sua confiança, Esther é ameaçada unicamente pela certeza de sua mãe de que ela está por traz dos acontecimentos que aterrorizam sua família. Ex-alcoólatra, Kate não tem a confiança do marido, que acredita fielmente em tudo que Esther diz, fechando os olhos para o perigo que ronda constantemente sua casa.

A construção dos personagens é feita calmamente, da melhor maneira possível. Sem pressa para começar a chocar o espectador, Jaume Collet-Serra conduz extremamente bem a trama, dando-nos a oportunidade de conhecer seus personagens. No entanto, as escolhas de “para que lado torcer” acabam não sendo sempre as mesmas ao longo do longa, já que pequenas e cuidadosas reviravoltas (se é que podem ser chamadas assim) estão presentes em boa quantidade. O diretor acerta em tudo. A fotografia escura ajuda e nos permite enxergar perfeitamente as cenas, a boa trilha sonora é muito bem utilizada, as tomadas  e ângulos de câmera são sempre acertados, os sustos vêm em horas oportunas, os cenários e locações são muitíssimo bem aproveitados. Merece um imenso destaque, também, sua direção de atores. Ele faz funcionar imensamente bem o experiente casal Vera Farmiga e Peter Sarsgaard, que mostram uma química indispensável para a verossimilhança. No entanto, o maior ponto para Collet-Serra é o aproveitamento da desconhecida protagonista Isabelle Fuhrman. Ele extrai da jovem de 12 anos uma das melhores performances infantis que já vi no cinema (as atuações serão melhor explicadas no próximo parágrafo). Também marcante é o roteiro escrito por Alex Mace e David Johnson, com seus diálogos sempre inteligentes e o argumento interessante e, na medida do possível, inovador. Cenas que marcam e ficam na cabeça do espectador por vários dias são marca registrada deste filme, que, ainda por cima, diverte qualquer amante do terror. Os efeitos especiais são usados em baixa escala, substituídos pela excelente maquiagem, que é uma das responsáveis pela altíssima qualidade do final do longa, que será explicado mais à frente.

O elenco do longa é, também, um de seus pontos mais fortes (sim, os pontos fortes não acabam!). Desde atores mais experientes a mais novos, todos têm grande destaque, com atuações excelentes e muitíssimo verossímeis. Vera Farmiga, que interpreta a mãe atormentada pela perda do bebê e uma quase-tragédia decorrente de seu alcoolismo, é sensacional em cena. O desespero de sua personagem é visto com perfeição por meio de sua atuação, intensa e sufocante, na tentativa incessante de proteger seus filhos de Esther. Os momentos em que tenta convencer o marido da verdadeira face de Esther são agoniantes, e Farmiga mostra-nos como uma verdadeira mãe se comportaria vendo os filhos em iminente perigo. Peter Sarsgaard, interpretando Peter, não atinge o brilho de Farmiga, mas sua atuação é também excelente. O pai cético convence em seu amor incondicional pela filha adotiva, sendo, por muitas vezes, extremamente irritante. Aryana Engineer é a surda (e, claro, muda) Max, filha mais nova do casal, e tem uma atuação surpreendente. A pequena atriz, que aprendeu a linguagem de sinais na vida real em virtude de ter mãe surda, é excelente em suas expressões faciais meigas e, quase sempre, amedrontadas, fazendo com que a ausência de falas orais não seja sentida. O outro filho do casal, Daniel, é intepretado pelo jovem e experiente Jimmy Bennett, que se mostra muitíssimo promissor como ator em mais uma atuação de alto nível.

Deixei para falar de Isabelle Fuhrman em um parágrafo à parte. A jovem atriz, em seu primeiro trabalho no cinema, dá um show de atuação, ofuscando com facilidade o brilho dos experientes Sarsgaard e Farmiga. Isabelle acerta na entonação de voz, nas expressões faciais, nos gestos, em tudo! Encarnando sua personagem com a alma, a atriz é a grande vilã do ano de 2009 na minha opinião, sendo responsável por um dos papéis mais fortes e maus que já vi. Sua atuação é perfeita, e desbancaria inúmeras atrizes que ainda ganham o Oscar em virtude de seus nomes.

O final do filme é surpreendente e perturbador, sendo verossímil em virtude da ótima técnica utilizada pela equipe. Maquiagem, fotografia, efeitos sonoros, tudo colabora imensamente para a revelação do segredo de Esther, impossível de ser descoberto antes da sufocante seqüência final (que dura cerca de 20 minutos). Um filme forte e cruel que merece ser conferido por todo e qualquer amante do cinema. Para os amantes do terror e suspense, “A Órfã” é uma parada obrigatória, da qual ninguém sai arrependido. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano. Sem dúvida, um dos melhores filmes de crianças más da história do cinema.

Por Danilo Henrique

PS: Uma pequena explicação. Costumeiramente, eu posto, junto das críticas, os respectivos trailers. No entanto, julguei que o trailer de “A Órfã” contém muitas cenas reveladoras de segredos da trama, sendo considerado por mim um grande spoiler. Por isso, estou postando o comercial de TV que, além de ser mais resumido e não contar partes importantes, conta de maneira mais correta o que pode ser visto no filme.


O Padrasto

Nota: 1.0

Quando assisti a “O Padrasto” (The Stepfather, 2009), pensando em colocá-lo como o primeiro filme da volta desde blog à ativa, imaginei que traria uma boa opção de filme para os que leem esta crítica. Infelizmente, tive uma imensa decepção ao ver que este se trata de apenas mais um remake totalmente sem qualidade como os lançados aos montes todo ano. Baseado no filme homônimo de 1987, O Padrasto foi considerado pelo respeitado site Cinematical um dos piores filmes de 2009, mesmo tendo obtido uma decente bilheteria nos EUA.

Susan Harding (Sela Ward) é uma mulher divorciada, traída pelo ex-marido com sua secretária, que tem três filhos. Seis meses após conhecer David Harris (Dylan Walsh), eles passam a viver juntos, como uma família aparentemente feliz e normal, principalmente após o regresso do filho mais velho, vindo do colégio militar, Michael (Penn Badgley). No entanto, com o passar do tempo e à medida que conhece melhor o novo padrasto, Michael passa a suspeitar que David não é quem realmente aparenta ser e que esconde vários segredos de seu passado.

Baseado em fatos reais, o filme não fez o sucesso esperado e a crítica o recebeu com paus e pedras. Esperava-se de seu remake um novo e melhor modo de contar a interessante história, mas o que se vê na tela é um filme sem força narrativa, sem tensão e, sobretudo, sem construção de personagens. O grande vilão David faz o estilo “paradão” e não desperta no espectador os sentimentos caraterísticos para vilões: ódio, desprezo, medo (o que é ajudado também pela decepcionante atuação do bom Dylan Walsh). As mortes não carregam tensão consigo e acontecem de modo rápido,  trazendo à mente de quem vê sempre os mesmos pensamentos, como “É só isso mesmo?” ou “Nossa, já acabou?”. A fotografia é sem graça, sempre a mesma e não omite detalhes que seriam importantes para passar a sensação de não saber o que está acontecendo. Mas isso tudo não chega perto do problema dos clichês. Ah, os clichês! Presentes em praticamente toda a película, eles irritam e nos fazem saber exatamente o que vai acontecer. O cara que chega quando algo sobre ele está sendo descoberto, uma bateria de celular que acaba quando não poderia acabar, um imprevisto que acontece quando não poderia acontecer, um homem sendo morto quando estava prestes a descobrir tudo sobre o passado do culpado… Há filmes que fazem uso dos clichês em seu favor, mas o diretor Nelson McCormick parecia não ter idéia do que fazer com seu material, colocando mais e mais sustos gratuitos e esperados no meio dos milhões de clichês já existentes. Direção que não conseguiu atingir o clímax do filme em seu momento de clímax, fazendo uma cena final monótona e risível, que nos faz lembrar facilmente dos mais fracos episódios da interminável série Sexta-Feira 13.

Mesmo recebendo uma direção fraca, o elenco do filme acaba se sobressaindo frente aos inúmeros defeitos da produção. Dylan Walsh, conhecido por fazer um dos papéis principais na ótima série Nip/Tuck, é um bom ator, indiscutivelmente. Mas a mesma expressão que fica em seu rosto durante praticamente toda a projeção incomoda, bem como os diálogos imbecis que é obrigado a protagonizar. No entanto, consegue sustentar bem seu personagem, muitíssimo mal construído. Sela Ward cumpre bem o papel de mãe que busca a felicidade após o divórcio, mas também sofre com os diálogos e com a fraca construção de personagens (vamos combinar, todos os personagens são mal construídos, não mencionarei mais isso a partir de agora). Sua crença desmedida em David pode ser considerada justificável, o que não ajuda o filme, já que o excesso de crença jogaria mais ainda o espectador contra o padrasto. O destaque do elenco fica para Penn Badgley, que interpreta o enteado do criminoso, o qual tenta a qualquer custo revelar a verdadeira identidade do homem. Acerta nas expressões faciais e no modo como profere suas falas, sendo o personagem mais verossímil (se é que podemos utilizar esta classificação para o filme) de toda a produção. Sua namorada no filme, a atriz Amber Heard, completa bem o elenco principal, como a pessoa que tenta desanimar Michael em suas buscas. Assim como Penn, sua atuação é corretíssima. As crianças que interpretam os outros filhos de Susan não têm o mínimo destaque no filme, sendo praticamente figurantes.

Enredo mal contado e inverossímil, personagens mal construídos e carência total de tensão ditam o ritmo deste O Padrasto, mais uma refilmagem totalmente desnecessária que agride o que conhecemos do bom cinema. Seu final dá abertura para o remake da continuação feita em 1989, o que promete mais um dos filmes dos quais devemos passar longe. Remakes normalmente são ruins, continuações, idem. Você arriscaria assistir ao remake de uma continuação?

Por Danilo Henrique.

Harry Potter e a Câmara Secreta

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Nota: 7.0

Após o enorme sucesso de público do primeiro filme (Harry Potter e a Pedra Filosofal), a série de J. K. Rowling foi às telas de cinema mais uma vez um ano depois, desta vez com o título de “Harry Potter e a Câmara Secreta” (“Harry Potter and the Chamber of Secrets”, 2002) e com praticamente a mesma equipe que levou a primeira aventura aos cinemas. Grande parte dos erros foi corrigida, mas o que vemos na segunda parte da milionária série ainda não é exatamente o que se pode esperar.

Depois de um conturbado primeiro ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry (Daniel Radcliffe) mostra-se preocupado por não ter recebido notícias de seus amigos de escola durante as férias. Preso em seu quarto, Harry recebe a visita de Dobby, um elfo doméstico, que tenta a qualquer custo impedir que Harry volte à escola, alegando que há grandes conspirações envolvendo sua morte. Claro que a criatura não obtém êxito, e Harry, ao voltar para Hogwarts, depara-se com um grande mistério. Alunos estão sendo atacados e petrificados e, pela inscrição em sangue que se encontrava no local do primeiro ataque (“A Câmara Secreta foi aberta. Inimigos do herdeiro… cuidado!”), os mais antigos no castelo acreditam que a Câmara Secreta foi reaberta e seu segredo mortal foi libertado novamente. E, junto com isso, surge o temor de que, assim como na outra vez, uma pessoa seja morta pelo monstro da câmara. Harry, Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) dedicam grande parte de seu tempo para desvendar o mistério, o que os leva a desvendar segredos de um passado que não morreu com o tempo.

Este segundo filme da milionária série, até por manter diretor e roteirista, é bastante parecido com o primeiro. O clima de mistério e suspense aumenta, mas poderia ter sido mais bem explorado pelo falho diretor Chris Columbus (em sua despedida da série). Já a magia e a “inocência” contidas em “… a Pedra Filosofal” continuam muito presentes, até porque essa história é ainda infantil se comparada aos filmes que vêm em seguida. Outro fator que se manteve praticamente intacto foi a direção de Chris Columbus, que permanece bastante burocrática. O diretor não muda nada do roteiro e o filme continua sem ter um toque pessoal do diretor. O roteiro, mais uma vez escrito por Steven Kloves supera bastante o primeiro, tanto pela maior presença de elementos de ação quanto pela menor preocupação em apresentar lugares e pessoas. Kloves mostra-se mais adaptado à série e consegue transmitir com sucesso o que Rowling escreveu em sua obra. No entanto, o roteirista erra em estender demais a história, pois um livro de 287 páginas não precisa de 161 minutos para ter sua história contada. Isso acaba deixando a trama, por vezes, com o ritmo desacelerado demais, deixando o espectador cansado e entediado. Mas não dá para negar que Columbus tenha culpa, já que as cenas muito grandes e algumas vezes sem ação têm um dedo do diretor, assim como seus cortes inesperados e, novamente, o caráter episódico.

Mais uma vez, a parte visual é a que merece maior destaque. Se “Harry Potter e a Pedra Filosofal” foi indicado ao Oscar em 3 categorias, é de total injustiça que este não tenha sido em nenhuma, já que a direção de arte, o figurino (categorias que renderam indicações a “… a Pedra Filosofal”) e os efeitos especiais estão melhores que o primeiro. O jogo de quadribol é infinitamente superior ao retratado no primeiro filme, e o cenário da cena final é espetacular, assim como é a seqüência do vôo do carro até Hogwarts. Nos efeitos especiais, não há vestígio do bizarro trasgo mostrado no primeiro filme. Dobby é extremamente verossímil e bem feito, assim como as aranhas da floresta proibida (sobretudo a aranha maior, Aragogue) e o enorme basilisco. O figurino é bastante parecido com o primeiro, mas há uma sensível melhora, até pelo fato de que o orçamento ficou mais gordo para este filme (estimado em mais de 100 milhões de dólares). Por vezes parecido com o de filmes de época, o figurino de “Harry Potter e a Câmara Secreta” acerta sempre, desde os uniformes de quadribol até as roupas cotidianas dos alunos. A parte sonora do longa também é excelente e a trilha sonora é bastante parecida com a do primeiro. Os efeitos sonoros acertam por não serem abusivos e descrevem quase que com excelência o que se passa na tela.

As atuações, assim como no primeiro filme da série, são em alto nível. Daniel Radcliffe está mais maduro como Harry Potter e sua atuação condiz com o momento pelo qual passa seu personagem. Rupert Grint está mais à vontade como Rony Weasley e sua comicidade está mais acentuada; já Emma Watson continua com suas expressões exageradas, mas nada que atrapalhe sua exibição perante as câmeras. O elenco adulto é praticamente perfeito, com um Alan Rickman mais uma vez inspirado como o Professor Snape e com Robbie Coltrane em ótima sintonia com seu personagem, Rúbeo Hagrid. Temos também um Richard Harris fenomenal no último papel de sua carreira, mais uma vez como um Alvo Dumbledore imponente e aparentemente cansado; e Maggie Smith com sua constante elegância como a Professora Minerva McGonagall. Kenneth Branagh mostra-se cômico com seu Gilderoy Lockhart, o famoso (e charlatão, diga-se de passagem) professor de Defesa Contra as Artes das Trevas; sua atuação é segura e o ator é naturalmente engraçado. Jason Isaacs aparece pela primeira vez na trama como Lucio Malfoy (pai de Draco Malfoy), e, com um papel curto e importantíssimo, o britânico não deixa a desejar.

Apresentando uma melhora com relação ao primeiro filme da série, “Harry Potter e a Câmara Secreta” continua com um menor número de erros em relação aos acertos, mas fica a sensação de que falta algo a mais. Chris Columbus, em sua despedida da série, faz um trabalho mais correto, mas ainda não consegue levar o mundo de Rowling com total sucesso para as telas. É um bom filme, mas, ao final, fica o gostinho amargo de que poderia ter sido bem melhor.

Por Danilo Henrique


Harry Potter e a Pedra Filosofal

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Nota: 6.5

A série “Harry Potter”, baseada nos livros de J. K. Rowling, inciciou-se em 2001 sem total certeza de que continuaria. O principal motivo que poderia ser apontado era quantidade de histórias que a britânica escreveria, pois ela sempre disse que iria levar a série até o sétimo livro (e a qualidade e o sucesso das vendas dos livros sempre garantiram a extensão da série). Então, em 2001 surgiu este “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (“Harry Potter and the Sorcerer’s Stone”, 2001), que, mesmo não tendo metade da magia dos livros de Rowling, deu início a uma das maiores febres infanto-juvenis (hoje alcançando adultos que eram infanto-juvenis na época), deu um imenso agrado aos milhões de fãs que os livros já tinham e recrutou outros milhões (como eu) que ainda não conheciam a história.

Harry Potter (Daniel Radcliffe) é um garoto que sobreviveu à morte com apenas um ano, quando um maligno bruxo matou seus pais e não conseguiu levá-lo também (motivo pelo qual tem uma cicatriz em forma de raio na testa). Então, ele foi levado para a guarda dos tios, onde era constantemente maltratado. Então, ao completar 11 anos, ele recebe a revelação de que é bruxo, descobre a verdadeira causa da morte de seus pais (bem como da sua sobrevivência ao mesmo feitiço) e vai para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde aprende a usar seus grandes poderes. E, ao lado de seus amigos Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson), passa por vários perigos e, finalmente, volta a encarar o mal que lhe tentou tirar a vida 10 anos antes.

“Harry Potter e a Pedra Filosofal” é, sobretudo, um filme destinado ao público mais jovem (é uma imensa crueldade falar que é um filme para criancinhas), mas acaba tendo elementos para agradar os mais velhos. Sendo a história mais bobinha e infantil da série, este filme põe na mesa o verdadeiro valor da amizade e tem certo clima de perigo e mistério que acabam prendendo a atenção dos mais crescidinhos. O clima de mistério poderia ser mais aproveitado pelo diretor Chris Columbus, que não consegue dar à narração seu toque pessoal, fazendo exatamente tudo que está no roteiro. Sua direção é altamente burocrática e impessoal, fazendo com que sua participação no longa seja apenas uma transposição do roteiro para a tela. No entanto, o grande mérito do diretor é saber tirar grandes atuações de seu elenco mirim, que funciona muito bem. Chris, que tem experiência ao trabalhar com crianças em “Esqueceram de Mim” e “Uma Babá Quase Perfeita”, acaba não levando o longa à derrocada total pela sua habilidade com atores. O roteiro seguido completamente à risca ficou a cargo de Steven Kloves, que assinou quase todos os filmes da série. Kloves soube cortar o que era desnecessário, colocar o necessário e não deixar o longo filme o menos maçante possível (mesmo que, em algumas partes, o enredo acabe se arrastando um pouco). Certamente, o roteirista mais adquado para a série.

A parte visual de “Harry Potter e a Pedra Filosofal” é excelente, sobretudo a direção de arte indicada ao Oscar (derrotada pelo soberbo “Moulin Rouge”). Os cenários reproduzidos na tela são exatamente o que grande maioria dos fãs imaginam lendo a obra britânica. As reproduções mas caprichadas foram, sem dúvida, do mágico Beco Diagonal e do imponente Banco Gringotes. O jogo de quadribol representado, mesmo sendo ligeiramente artificial, é muito bom e também condiz com o que os leitores esperam. A Floresta Proibida, citada como o lugar mais perigoso da escola, é traduzida com perfeição, com o aspecto sombrio e perigoso retratado no livro. Além da espetacular direção de arte, merece destaque também na parte visual o exuberante figurino, também indicado ao Oscar de 2002. Todos os atores incrivelmente bem vestidos, o que dá ao filme uma verossimilhança a mais. O único problema da parte visual do longa acaba sendo os efeitos especiais. O trasgo, monstro que mais desperta o imaginário de quem lê a obra de Rowling é esdruxulamente produzido, parecendo vindo de um obsoleto video game de terror. A representação de Lord Voldemort é superior em qualidade à do trasgo, mas fica longe de dar a sensação de medo que seu personagem exige. Os centauros da Floresta Proibida são tratados com mais cuidado que os citados anteriormente, mas ainda assim acabam pedindo “algo mais”.

O elenco de “Harry Potter e a Pedra Filosofal” é  ponto altíssimo na produção. O número de talentos britânicos reunido é impressionante, o que facilitou muito o trabalho do diretor com a direção de atores. Maggie Smith (indicada a dois Oscar) aparece como a séria professora Minerva McGonagall, dando-lhe uma verossimilhança impressionante, e sendo a personagem mais parecida com o que se encontra nas páginas de J.K. Rownling. Alan Rickman interpreta o frio Severo Snape com enorme competência e Richard Harris dá vida a Alvo Dumbledore, o amoroso e brilhante Dumbledore. No penúltimo filme de sua vida, Harris é um Dumbledore com menos vivacidade e mais imponência. No elenco adulto, também há de se destacar a breve aparição de John Hurt como o vendedor Olivaras e de Robbie Coltrane como Rúbeo Hagrid, ambos com atuações seguras e timings corretos. No elenco mirim, Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson (Harry, Rony e Hermione, respectivamente) mostram-se ótimas escolhas para seus papéis. Os três são muitíssimo seguros (apesar de Watson exagerar um pouco em suas expressões) e dão a seus personagens grande vivacidade e dinamismo.

O longa, apesar de seus 152 minutos de duração, acaba tendo a história abordada de forma superficial em detrimento da apresentação de personagens e do mundo bruxo, o que acaba tornando-o mais desagradável para os que já leram a obra de Rowling. O caráter “episódico” contribui para que os longos 152 minutos passem mais devagar e de maneira mais arrastada, já que as cenas parecem não ter grande conexão entre si.

“Harry Potter e a Pedra Filosofal” foi uma maneira boa de se começar a milionária série, mesmo não sendo um grande filme. É, sem dúvida, o mais fraco dentre os seis filmes já lançados, mas não se pode negar que a magia introduzida por Chris Columbus é cativante para quem não acompanhava os livros e realizadora para quem acompanhava. Um bom filme para os mais novos, um bom passatempo para os mais velhos e uma boa abertura para a série.

Por Danilo Henrique